Archive for the 'Declamação' Category

repare que é a época das migrações

2018, dezembro 23, domingo

ontem depois do tédio movimentei as coisas de lugar… mexi em tudo. e comecei a mexer aqui também (trocar páginas por postagens).

e logo mais é juntar caixas e colocar todos os livros lá. para levar para a próxima casa. dois meses é o limite…

e que vontade de ter um livro, mas sem nenhum tostão. estou zerado.

Poema retirado do livro “Jóquei” (2014), primeiro livro da poeta portuguesa Matilde Campilho, lançado no Brasil pela Editora 34. p. 52

Alguém me avisou – Matilde Campilho

declamadora: Janaina Sales

«Ele falou que eu deveria voltar
porque eu era sua família
falou que os passarinhos
estavam começando de novo
com aquela entoação estranha
que poderia ser vista como triste
ou como bastante maravilhosa
você precisa voltar ele falou
algumas acácias estão se votando
ao abandono ou ao desespero
e a peixaria foi atacada
por uma enorme inundação
por favor volte veja se volta
esta manhã o taxista ficou
rodando todas as estações
de rádio até achar notícia
não tem notícia de você na cidade
faça-me um favor e volte
está acontecendo uma revolução
querem retirar o primeiro-ministro
de sua cadeira empedernida
querem tocar fogo nas estradas
querem melhorar a estrutura
do sino que marca o meio-dia
na garganta de Antoninho
ande veja se volta foi o que ele falou
você é minha família é impossível
assistir à transição do inverno
para a primavera sem família perto
e como faço para comprar lollypops
se você não estiver me esperando
lá fora do lado de fora em seu carro
brincando com as rotações do motor
enquanto eu fico tamborilando meus
dedos sobre a bancada de madeira
da mercearia onde sempre compro
lollypops de laranja ou de morango
você e eu sempre damos um jeito
de sincronizar nossos batimentos
eu toco quatro vezes na mesa
você acelera quatro vezes o motor
família é isso mesmo: dois caubóis
fintando a gravidade e a monotonia
vai me diga se volta ou se não volta
na semana passada eu reparei
que as plantações de milho
estão começando a se expandir
me diga que isso não te seduz
foi o que ele falou isso mesmo
a plantação que se expande te seduz
ele falou que eu precisava voltar
que talvez eu devesse arrumar
minha mala largar meu emprego
arrume tudo em sua mala
não esqueça sua camisa branca
não esqueça sua flauta de osso
não esqueça não corte seu cabelo
coloque tudo nessa mala
e se tiver tempo me traz sete búzios
volte me diga que volta
repare que é a época das migrações
e que você sempre acompanhou
os colibris e os pinguins
já chega de se inscrever
nesse campeonato de desapego
você sempre perde já deveria saber
ele falou que eu deveria voltar
que no restaurante de dona Célia
estavam servindo um tipo de pão
diferente do habitual
que no parque das diversões
estavam montando um novo esquema
que na cova dos leões já não mora
ninguém absolutamente ninguém
que estão começando uma revolução
você precisa voltar foi o que ele falou
volte por favor meu amor volte pra casa
então eu fiz a mala e foi por isso que eu
voltei — eu voltei porque me chamaram.»

***

ao fundo, matilda… declamando ou sendo declamada.

ps: esse sitio cá é animal…

37698150_10157538004088709_5796300683711873024_n

inédito possível – contranarciso

2018, dezembro 19, quarta-feira

2h juliana escreveu isto: «Como discorre Gardner, não é utopia, apenas um inédito possível».

Será:

  • Michael E. Gardiner, autor de «The Dialogics of Critique: M.M. Bakhtin and the Theory of Ideology» [sem tradução para o pt-br]?

GOSTEI DA PESQUISA QUE FIZ… VOLTAR AQUI E LER MAIS COISAS DO PROF. GARDINER:

Publicações de periódicos referenciados
(2018) "Um autônomo Marcuse?"Repensando o marxismo 30 (2):232-25.
(2017) "Crítica do Aceleracionismo"Theory, Culture & Society 34 (1):29-52.
(2016) "Bakhtin na plenitude do tempo: a teoria bakhtiniana e o processo de educação social"(com Craig Brandist, Jayne White e Carl Mika), Educational Philosophy and Theory 2016:1-5.
(2016) "Bakhtin, Tédio e a 'Democratização do Ceticismo'The European Legacy 22 (2):163-184.
(2016) "Bakhtin e o 'general intellect'"Filosofia Educacional e Teoria 2016:1-16.
(2014) "A Multidão Contra-Ataca? Tédio na Era do Semiocapitalismo"New Formations , 82 (2):31-48 (edição especial sobre 'Mood Work').
(2012) "Henri Lefebvre e a 'Sociologia do Tédio'"Theory, Culture & Society 29 (2):37-62.
(2012) Ironia pós-romântica em Bakhtin e Lefebvre"História das Ciências Humanas 25 (3),51-69.]

acredito que o primeiro será mais promissor… mas não importa, há um punhado de coisas para ler e investigar.

_________________________________________________

REINVENTANDO PAULO FREIRE O INÉDITO VIÁVEL

Paulo Freire trata da categoria do inédito viável nos livros Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Esperança, com espaço de 20 anos entre as duas publicações, uma na década de 1960, no exílio, e a outra já de retorno ao Brasil, na década de 1980.
A escritora e viúva de Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, na Nota 1 do livro Pedagogia da Esperança, traz uma análise sobre o “inédito-viável”, reproduzida a seguir:

“Uma das categorias mais importantes porque provocativa de reflexões nos escritos da Pedagogia do Oprimido é o “inédito-viável”. Pouco comentada e arrisco dizer pouco estudada, essa categoria encerra nela toda uma crença no sonho possível e na utopia que virá, desde que os que fazem a sua história assim queiram, esperanças bem próprias de Freire.
Para Freire as mulheres e os homens como corpos conscientes sabem bem ou mal de seus condicionamentos e de sua liberdade. Assim encontram, em suas vidas pessoal e social, obstáculos, barreiras que precisam ser vencidas. A essas barreiras ele chama de “situações-limites”…

[continue a leitura aqui: REINVENTANDO PAULO FREIRE O INÉDITO VIÁVEL]

***

16h00 citando duas pessoas interessantes, uma que conheço e admiro, outra que ainda, um dia, gostaria de conhecer (anotei aqui porque dialogam com o tema de fundo e título desta postagem, ambos oriundos da citação anterior, acima, de juliana. todos via timeline, fb).

de luana,

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 23ªed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.”

de diogo,

«Tá difícil pagar as sessões de terapia… Então, tô fazendo um convênio com o consultório de psicoterapia do Seu Zuckerberg. Vai aí a sessão de hoje:
As vezes, quando a gente se depara com um problema “nosso”, da nossa alma, do nosso jeito próprio de ser, olhando bem pra dentro da gente, a gente não vê nada!! Virou moda o “mindfullness”, e a receita da felicidade buscando o “eu interior”, o seu próprio “centro”, yoga, coisa e tal. Eu faço, mas confesso que não dava muito certo, porque eu olhava pro “meu interior” e não via nada… Claro (!), eu sou uma pessoa vazia, isso não é novidade (pelo menos pra mim). Mas nessa busca interior resolvi olhar pra fora. Como eu sou um tardo-iluminista desconfiei que a humanidade já deveria ter suspeitado do “meu” problema, e confiei que ela já tinha pensado numa resposta. Fui procurar… nos livros, claro! Mas o meu iluminismo não é de enciclopedista, e como não quis descambar pra Descartes, confie que o mundo dos afetos auxiliaria a razão pura. É, apelei pra poesia, não tinha outra. Meu iluminismo tem seus limites… Aí eu bati com a cara no Leminski. E ele me respondeu assim, com esse poeminha que tá logo ali embaixo. Batata!! Aí a “verdade universal” apareceu (claro, pra mim, tardo-iluminista): a humanidade já resolveu muito dos “meus” problemas, e me emprestou a solução pra eu resolver da minha forma o problema nosso de cada dia. Putz, não é que a centralidade do “Eu” está no “Nós”?!?! Dale, Leminski:

“em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós” (Contranarciso, Paulo Leminski)»

Poema retirado da coletânea “Toda poesia”, ed. Cia. das Letras. Voz de Arnaldo Antunes.

overlay

e ao lado o link para esse belo trabalho ‘vídeo do clipe de poema’  de Caio Henrique

23h09… estava quase dormindo, mas descobrir que o diogo tavares se foi, me despertou de uma forma incomoda. saltou… e o paraquedas reserva enrolou-se… tinha quase a minha idade.

23h51… edito tudo isto aqui: estava ali nos rascunhos… e na busca de referências, poemas e vídeos… cheguei nisto aqui:

Recalculando Rotas – Márcia Tiburi: Amor mamífero

dia 10/matilde campilho

2018, dezembro 15, sábado

Dia 10 – Matilde Campilho

https://www.youtube.com/watch?v=TJ1QMvAlzr0

É que por você eu dirigia meu automóvel de uma forma muito estapafúrdia. Meus pais sempre discutiam comigo porquê não chegava à hora de jantar. O garoto da loja de sorvete piscava-me o olho quando eu chegava sozinha no balcão, ele já sabia que você dobraria a próxima esquina.

Por você eu ficava sempre brigando com os pássaros, queria assobiar muito mais alto do que eles e, isso, não é nada esperto. Quem briga com bicho, perde!

Por você, eu também fui descobrir aquele projeto de mamífero emadeirado que ficava no ponto mais alto da aldeia e por causa disso eu soube que a luz incide de uma forma muito maravilhosa no rosto de Dona Manu. É que Dona Manu ficava lá sentada comigo todas as tardes do lado da estrutura. Era eu, Dona Manu e a Baleia. Todas as tardes de verão em Lisboa.

Não sei se te disse, mas durante nossos dias fez sempre Verão em Lisboa. Não sei se você reparou, mas sei que todos os marinheiros da vila ao lado repararam. Lembra quando subimos no barco para comer churrasco? Acho que esse foi o fim de tarde mais lindo do mundo. Como quase todos os dias do mundo, foram os mais maravilhosos com você.

As vezes ainda acho que vivo num filme, que é tudo uma cinematografia um pouco estapafúrdia. Um filme. Um filme em que não disseste sim. Um filme que escolheste outro tipo de disparos. Um filme em que julgaste que minha velocidade era a coisa mais idiota da galáxia. Sim, eu pegaria um avião só pra te beijar no dia dos seus anos. Sim, eu já te tinha dito. Era capaz de atravessar a cidade em bicicleta só para te ver dançar.

E não se iluda, nunca mais se iluda. Eu não sou herói, nada de campeonatos. Nunca atravessei nenhuma das chuvas pra te provar coisa alguma. Tudo que atravessei, toda aquela rapidez que te levava do claro ao escuro em quarenta e três segundos era só porque… desculpa, mas eu sempre achei que eras a pessoa mais bonita do mundo.

Sempre achei que a tua presença ao meu lado era quase imersiva. Não acho que sejas a Gisele Bündchen, não acho que sejas o Brad Pitt, não acho que sejas o menino Arthur Rambault, não acho que tu sejas os quantos quilômetros de um Austin Martin em uma estrada de Katimandu. Acho que tu és o teu nome. Teus olhos castanhos. Teu cabelo claro. Tua voz as vezes grave, as vezes doce. Tua incrível  mirada sobre o mundo dos negócios. E, tua bendita sensibilidade para a natureza, una, espiritual, familiar, de todas as coisas.

Desculpa gostar tanto de ti. Desculpa já nem sequer te inventar. Eu sei que teu rosto é o teu rosto. E isso ainda é muito equiparável a estabilidade de uma girafa sobre os trinta pratos numa fazenda. Acho que foi por ti que Santo Anselmo cuspiu flores.

Tu, o teu nome, a alegria no mundo. Acho que teu amor, que nasce e morre e nasce e morre e ressucita e assim alastra, é a maior de todas as bençãos possíveis no peito de um anjo roxo.

Perdoa este excesso de paixão. Talvez para ti seja mais difícil, mas eu prometi sempre dizer a verdade, toda gente sabe quem tu és para mim. Você. E, para você, meus parabéns pelos trinta anos de terra, pela parte que me toca, obrigada pelos vinte, foi, ainda é, uma aventura tremenda.

Um abraço forte

images (1)