Archive for the 'Eduardo Galeano – Eduardo Hughes Galeano' Category

o poema da página 186 e algumas notas alheias de uma aula de 2006/2

[seg] 5 de novembro de 2018

«Que terra de comer,
Mas não coma já.

Ainda se mova,
para o ofício e a posse.

E veja alguns sítios
antigos, outros inéditos.

Sinta frio, calor, cansaço:
para um momento; continue.

Descubra em seu movimento as
forças não sabidas, contatos.

O prazer de estender-se; o de
enrolar-se, ficar inerte.

Prazer de balanço, prazer de voo.

Prazer de ouvir música;
Sobre o papel para que uma mão deslize.

Irredutível prazer dos olhos;
certas cores: como se desfazem, como aderem;
alguns objetos, diferentes a nova luz.

Que ainda sinta cheiro de fruta,
de terra na chuva, que pegue,
que imagine e grave, que lembre.

O tempo de conhecer mais algumas pessoas,
de aprender como viver, de ajudá-las.

De ver passar este conto: o vento
balançando a folha; a sombra
da árvore, parada um instante
alongando-se com o sol, e desfazendo-se
numa sombra maior, de estrada sem trânsito.

E de olhar esta folha, se cai.
Na queda retê-la. Tão seca, tão morna.

Tem um certo cheiro, particular entre mil.
Um desenho, que se produzirá ao infinito,
e cada folha é uma diferente.

E cada instante é diferente, e cada
homem é diferente, e somos todos iguais.
No mesmo ventre o escuro inicial, na mesma terra
o silêncio global, mas não seja logo.

Antes dele outros silêncios penetrem,
outras solidões derrubem ou acalentem
meu peito; ficar parado em frente desta estatua: é um torso
de mil anos, recebe minha visita, prolonga
para trás meu sopro, igual a mim
na calma, não importa o mármore, completa-me.

O tempo de saber que alguns erros caíram, e a raiz
da vida ficou mais forte e os naufrágios
não cortaram essa ligação subterrânea entre homens e coisas:
que os objetos continuam, e a trepidação incessante
não desfigurou o rosto dos homens;
que somos todos irmãos, insisto.

Em minha falta de recursos para dominar o fim,
entretanto me sinta grande, tamanho de criança, tamanho de torre,
tamanho da hora, que se vai acumulando século após século e causa vertigem,
tamanho de qualquer João, pois somos todos irmãos.

E a tristeza de deixar os irmãos me faça desejar
partida menos imediata. Ah, podeis rir também,
não da dissolução, mas do fato de alguém resistir-lhe,
de outros virem depois, de todos sermos irmãos,
no ódio, no amor, na incompreensão e no sublime
cotidiano, tudo, mas tudo é nosso irmão.

O tempo de despedir-me e contar
que não espero outra luz além da que nos envolveu
dia após dia, noite em seguida a noite, fraco pavio,
pequena ampola fulgurante, facho, lanterna, faísca,
estrelas reunidas, fogo na mata, sol no mar,
mas que essa luz basta, a vida é bastante, que o tempo
é boa medida, irmãos, vivamos o tempo.

A doença não me intimide, que ela não possa
chegar até aquele ponto do homem onde tudo se explica.
Uma parte de mim sofre, outra pede amor,
outra viaja, outra discute, uma última trabalha,
sou todas as comunicações, como posso ser triste?

A tristeza não me liquide, mas venha também
na noite de chuva, na estrada lamacenta, no bar fechando-se,
que lute lealmente com sua presa,
e reconheça o dia entrando em explosões de confiança, esquecimento, amor,
ao fim da batalha perdida.

Este tempo, e não outro, sature a sala, banhe os livros,
nos bolsos, nos pratos se insinue: com sórdido ou potente clarão.
E todo o mel dos domingos se tire;
o diamante dos sábados, a rosa
de terça, a luz de quinta, a mágica
de horas matinais, que nós mesmos elegemos
para nossa pessoal despesa, essa parte secreta
de cada um de nós, no tempo.

E que a hora esperada não seja vil, manchada de medo,
submissão ou cálculo. Bem sei, um elemento de dor
rói sua base. Será rígida, sinistra, deserta,
mas não a quero negando as outras horas nem as palavras
ditas antes com voz firme, os pensamentos
maduramente pensados, os atos
que atrás de si deixaram situações.
Que o riso sem boca não a aterrorize
e a sombra da cama calcária não a encha de súplicas,
dedos torcidos, lívido
suor de remorso.

E a matéria se veja acabar: adeus composição
que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade.
Adeus, minha presença, meu olhar e minas veias grossas,
meus sulcos no travesseiro, minha sombra no muro,
sinal meu no rosto, olhos míopes, objetos de uso pessoal, ideia de justiça, revolta e sono, adeus,
vida aos outros legada.

drummond - assina

Os últimos dias. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. A rosa do povo. 5a ed. Rio de Janeiro: Record, 1988. p. 186-190.

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[madrugada]

Fui reler o poema da página 186. Descubro que ele foi arrancado. O único que falta, mas eis que encontra essa anotação no meio do livro. De uma aula de 2006. Ps: a letra não é minha. Será q o ser humano que deixou essa folha levou o poema?

[tarde]

gripado. febre ainda. dor pelo corpo inteiro. vontade de nada. enrolando… tem tarefa para hoje. oito horas ainda. ops… é para dia sete, ou seja, tempo restante: 2 dias 6 horas.

[noite]

matar aula. não tem aula, nem da cláudia, nem da roberta. fiquei em casa. chá de avenca, com assa-peixe e e folha de ameixa amarela (nêspera), para aliviar.

pessoas cinzas normais

[dom] 28 de outubro de 2018

2h39 comecei o dia bombardeando comentários nas linhas do tempo #elenão. é dia de eleição.

«… e a minha alucinação é suportar o dia-a-dia. e meu delírio é a experiência com coisas reais… »

Eu não estou interessado / Em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia / Nem no algo mais / Nem em tinta pro meu rosto / Ou oba oba, ou melodia / Para acompanhar bocejos / Sonhos matinais // Eu não estou interessado / Em nenhuma teoria / Nem nessas coisas do oriente / Romances astrais / A minha alucinação / É suportar o dia-a-dia / E meu delírio / É a experiência / Com coisas reais // Um preto, um pobre / Uma estudante / Uma mulher sozinha / Blue jeans e motocicletas / Pessoas cinzas normais / Garotas dentro da noite / Revólver: cheira cachorro / Os humilhados do parque // Com os seus jornais / Carneiros, mesa, trabalho / Meu corpo que cai do oitavo andar / E a solidão das pessoas / Dessas capitais / A violência da noite / O movimento do tráfego / Um rapaz delicado e alegre /Que canta e requebra / É demais! // Cravos, espinhas no rosto / Rock, Hot Dog / Play it cool, baby / Doze Jovens Coloridos / Dois Policiais / Cumprindo o seu duro dever / E defendendo o seu amor / E nossa vida / Cumprindo o seu duro dever / E defendendo o seu amor / E nossa vida // Mas eu não estou interessado / Em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia / Nem no algo mais / Longe o profeta do terror / Que a laranja mecânica anuncia / Amar e mudar as coisas / Me interessa mais / Amar e mudar as coisas / Amar e mudar as coisas / Me interessa mais // Um preto, um pobre / Uma estudante / Uma mulher sozinha / Blue jeans e motocicletas / Pessoas cinzas normais / Garotas dentro da noite / Revólver: cheira cachorro / Os humilhados do parque / Com os seus jornais // Carneiros, mesa, trabalho / Meu corpo que cai do oitavo andar / E a solidão das pessoas / Dessas capitais / A violência da noite / O movimento do tráfego / Um rapaz delicado e alegre / Que canta e requebra / É demais! // Cravos, espinhas no rosto / Rock, Hot Dog / Play it cool, baby / Doze Jovens Coloridos / Dois Policiais / Cumprindo o seu duro dever / E defendendo o seu amor / E nossa vida / Cumprindo o seu duro dever / E defendendo o seu amor / E nossa vida // Mas eu não estou interessado / Em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia / Nem no algo mais / Longe o profeta do terror / Que a laranja mecânica anuncia / Amar e mudar as coisas / Me interessa mais / Amar e mudar as coisas / Amar e mudar as coisas / Me interessa mais /// Alucinação // Composição: Belchior

***
votei, voltei e editei…
19h30 agora é respirar fundo… e resistir ao turbilhão. a resistência continua…

«Um sistema de desvinculo: Boi sozinho se lambe melhor.., O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tampouco dá de amar: condena muitos à fome de pão e muitos mais à fome de abraços.» O livro dos abraços / Eduardo Galeano; tradução de Eric Nepomuceno. – 9. ed. – Porto Alegre: L&PM, 2002. 270p

e então, que quereis?

[sáb] 27 de outubro de 2018

cedo. escola. gincana. futebol.

tarde. sono. casa. mate. família.

noite. internet… debates intermináveis nas redes sociais. modo on fire!

***

De uma camará!

Poema extraído do livro “Maiakóvski – Antologia Poética”, Editora Max Limonad, 4ª. Edição/1987, tradução de E. Carrera Guerra.

E então, que quereis?

«Fiz ranger as folhas de jornal
abrindo-lhes as pálpebras piscantes.
E logo
de cada fronteira distante
subiu um cheiro de pólvora
perseguindo-me até em casa.
Nestes últimos vinte anos
nada de novo há
no rugir das tempestades.

Não estamos alegres,
é certo,
mas também por que razão
haveríamos de ficar tristes?
O mar da história
é agitado.
As ameaças
e as guerras
havemos de atravessá-las,
rompê-las ao meio,
cortando-as
como uma quilha corta
as ondas.»
(1927) Vladimir Maiakóvski

outra citação é…

El Sistema / 1
(Eduardo Galeano)

Los funcionarios no funcionan.
Los políticos hablan, pero no dicen.
Los votantes votan, pero no eligen.
Los medios de información desinforman.
Los centros de enseñanza enseñan a ignorar.
Los jueces, condenan a las víctimas.
Los militares están en guerra contra sus compatriotas.
Los policías no combaten los crímenes,
porque están ocupados en cometerlos.
Las bancarrotas se socializan,
las ganancias se privatizan.
Es más libre el dinero que la gente.
La gente, está al servicio de las cosas.

(En: “El libro de los abrazos”)

 

a corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo

[ter] 11 de setembro de 2018

galeano

***

«Sí, somos una civilización de soledades que se encuentran y desencuentran continuamente sin reconocerse. Ese es nuestro drama, un mundo organizado para el desvínculo, donde el otro es siempre una amenaza y nunca una promesa.» Eduardo Galeano, em entrevista para Ima Sanchís

***

«»Nas próprias palavras do autor, caráter é (…) o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros, ou se preferirmos … são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem (p. 10).

Diante das mudanças no mundo do trabalho, …como se pode buscar objetivos de longo prazo numa sociedade de curto prazo? Como se podem manter relações duráveis? (p.27)

a sociedade está em contínua revolta contra o tempo rotineiro, com o trabalho taylorista/fordista, e assim parece endossar as palavras de Adam Smith: a rotina embrutece o espírito, sendo o trabalho de rotina degradante (p. 41).

a reinvenção descontínua de instituição, ou seja, uma total ruptura do presente com o passado como forma de atacar a burocracia; a especialização flexível, isto é, … as empresas cooperam e competem ao mesmo tempo, buscando nichos no mercado que cada uma ocupa temporariamente, e não permanentemente, adaptando a curta vida de produto de roupas, têxteis ou peças de máquinas (p.59);

O problema do caráter nesse tipo de capitalismo é que há história, mas não existe narrativa partilhada com os outros e, assim, o caráter se corrói. O pronome “nós” é um perigo gigantesco para os capitalistas que vivem da desordem da economia e temem a organização e o ressurgimento dos sindicatos, e por isso, (…) um regime que não oferece aos seres humanos motivos para ligarem uns para os outros não pode preservar sua legitimidade por muito tempo (p.176)

Richard Sennett – A Corrosão do caráter: conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Trad. Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Record, 1999. Excertos da resenha de Luiz Paulo Jesus de Oliveira, in: CADERNO CRH, Salvador, n. 30/31, p. 363-367, jan./dez. 1999.

el universo visto por el ojo de la cerradura

[seg] 13 de abril de 2015

utopia

«Desde que era gurí, supe que en el Paraíso no existía la memoria. Adán y Eva no tenían pasado.
¿Se puede vivir cada día como si fuera el primero?» Eduardo Galeano.

Galeano, fallecido hoy a los 74 años. Hasta Siempre camarada Galeano.

PS: Coletados por ai

[Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: Proibido cantar. Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem. Ou seja: Ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.
(Eduardo Galeano)]

galeano2

***

E aqui, nesta ilha, o sol brilha tão intensamente que meus olhos ardem. Habito a escuridão por estes dias. Tudo em silêncio. O mundo ali fora é tão distante. Estou disperso… Revisando ideias, ponderando sobre o universo sem saber ao certo onde estou nisto tudo… O silêncio profundo me guarda. E eu não sei muito convencer os outros quando profundamente não sei ao certo. Eu apenas resisto neste mundo. Eu sou marginal. E essa vida é tão curta.

E sexta-feira foi um dia bom… De luta e gentilezas.

E final de semana foi de arrumação… E arrumei quase nada.

***

O por cá também, o clima anda tenso… Meu irmão tem um meningioma calcificado causando uma lesão parieto occipital. Aquela suspensão e aquela angustia no peito quando seu irmãozinho vai ter que passar por uma cirurgia cerebral para a retirada de um tumor… Mas tudo vai dar certo. Pensamento positivo.

cadê a barba

[seg] 8 de julho de 2013

esses humores, essas dores… na segunda-feira, na terça-feira e na quarta-feira cansei tanto que toda a reserva de humor para encarar a vida evaporou. pega isto tudo e coloca uma porção de dor na coluna, que vai e volta, e uma pitada de dente que inflamado; e lá vou eu entupir-me de drogas. e disto tudo deu uma vontade ficar guardado tão grande que só na sexta voltei a viver. estou ainda de ressaca por andar faltando tanto e não ter tesão algum para tocar as coisas básicas.

fora isto, ainda há o desprazer de ver  que a vizinha mandou o jardineiro limpar o seu terreno, dela, e uma parte do meu verde sumiu… os pássaros fugiram, o sol chegou, a tranquilidade de jade virou um cemitério de galhos e folhas mortas. e agora é uma casa toda vidrada, quase um edifício, um farol, olhando para minha toca todo dia… não gostei.

andei faltando bastante ao trabalho e fico me pergunto: qualé?! porque isto?! não é de hoje que faço isto, na graduação quando estava em crise andei faltando um tanto… mas a pergunta é: que crise é essa? e se o negócio for não ser professor… ser o quê carapálida? acho que é um pouco isto… porque o hoje sem olhar para o horizonte fica muito hoje e isto tudo é muito pesado.

fiz a barba porque estava cansado de olhar para a mesma cara cheia de pelos no espelho. o povo até apostou – ele tira ou não tira… dois anos sem raspar os pelos.

e viu.. nada de sentimentos do azul profundo, apenas a superfície metalizada deste homem lata. leio graciliano ramos e uma biografia sobre  volodia mayak.

este texto todo ‘tá uma bosta. o relógio já vai virar…

atualizei isto aqui ~~~~~~

e aquele projeto amiúde: como tantos outros que começo e abandono para começar outros que abandono para começar outros que abandono para começar outros que abandono para começar outros que abandono para começar outros que abandono  para começar outros… já era – está em modo apagand…

ps: antes de deletar lá, copio e colo cá: já terminei um, avancei bastante outros dois e os demais… empoeirados.

LISTA DE {re}LEITURAS NO MOMENTO [11/06/2013]:

#1. Mikhailov, Aleksandr Alekseevitch,  1905-1988. Maiakóvski — O Poeta da Revolucão. tradução Zoia Prestes. Rio de Janeiro: Record, 2008. 559 p. /estou na página 42.

#2. Saffioti, Heleieth Iara Bongiovani, 1934-2010. Gênero, patriarcado, violência. 1ºed. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004.  152 p. (Coleção Brasil Urgente). / estou na página 52.

#3. Lênin, Vladimir Ilitch, 1870-1924. Imperialismo, estágio superior do capitalismo: ensaio popular. 1ª ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2012. 176 p. / estou na página 14.

#4. Galeano, Eduardo H. 1940- . As veias abertas da América Latina. tradução de Sérgio Faraco. Porto Alegre, RS: L&PM, 2012. 400 p.; 18 cm (Coleção L&PM POCKET; v.900).  / estou na página 229.

#5. Peloso, Ranulfo (org.). Trabalho de base: seleção de roteiros organizados pelo CEPIS. São Paulo: Expressão Popular, 2012. 152 p. / estou na página 25.

#6. Novack, George, 1905-1992. Introdução à lógica marxista. tradução de Anderson R. Féliz. São Paulo: Editora Instituto José Luis e Rosa Sundermann, 2005. 120 p. / estou na página 40.

#7. Ramos, Graciliano, 1892-1953. Angústia. São Paulo: Folha de S.Paulo, 2003. 220 p. / estou na página 47.

#8. Fernandes, Florestan, 1920-1995. Nós e o marxismo. São Paulo: Expressão popular, 2009. 64 p. / estou na página 48.

lunes, 25 de febrero o sabado, 1 de mayo.

[seg] 11 de abril de 2011

e é como uma necessidade ou um plano imperativo: não fixar-se ao passo que segue-se fixo. sacas?! é uma falta, uma desmemória. e tento hoje por em dia o que há dias venho abandonando ou penso que abandono quando de fato não abandono e permaneço no mesmo farol, mirando o mesmo mar e delirando como devera ser o embrulho do mar e o desconforto de cada porto. é. isto apenas. é como blanca que

[…] “A veces me siento desdichada, nada más que de no saber qué es lo que estoy echando de menos” murmuró Blanca, mientras repartía los duraznos en almícar. […] Mario Benedetti [La Tregua].

repasto meu café com pão. leio e escrevo por cá. junto fragmentos de toda a ruína e busco algum sentido ou encantamento destes que dizem que tudo há de melhorar – mas melhorar o quê, como e quando?! se há tanta desmemória que

[…] Chicago está cheia de fábricas. Existem fábricas até no centro da cidade, ao redor do edifício mais alto do mundo. Chicago está cheia de fábricas, Chicago está cheia de operários. Ao chegar ao bairro de Heymarket, peço aos meus amigos que me mostrem o lugar onde foram enforcados, em 1886, aqueles operários que o mundo inteiro saúda a cada primeiro de maio. – Deve ser por aqui – me dizem. Mas ninguém sabe. Não foi erguida nenhuma estátua em memória dos mártires de Chicago nem na cidade de Chicago. Nem estátua, nem monolito, nem placa de bronze, nem nada. O primeiro de maio é o único dia verdadeiramente universal da humanidade inteira, o único dia no qual coincidem todas as histórias e todas as geografias, todas as línguas e as religiões e as culturas do mundo; mas nos Estados Unidos o primeiro de maio é um dia como qualquer outro. Nesse dia, as pessoas trabalham normalmente, e ninguém, ou quase ninguém, recorda que os direitos da classe operária não brotaram do vento, ou da mão de Deus ou do amo. Após a inútil exploração de Heymarket, meus amigos me levam para conhecer a melhor livraria da cidade. E lá, por pura curiosidade, por pura casualidade, descubro um velho cartaz que está como que esperando por mim, metido entre muitos outros cartazes de música, rock e cinema. O cartaz reproduz um provérbio da África:

Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.

[…] Eduardo Galeano [O Livro dos Abraços]

Foi num Sábado o 1 de mayo de 1886.

 

esqueci do café, ficou gelado.

[ter] 16 de junho de 2009

não que isto faça sentido ou pretenda segundas palavras. só porque é marx, só porque fala de amor, só porque é galeano, só porque fala das coisas, só porque encontrei rabiscado em alguma janela e não quis esquecer. anotei, como tudo que anoto aqui.

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“Se amar sem despertar amor,
isto é,
se teu amor não produz amor recíproco,
se mediante tua exteriorização de vida como homem amante não te convertes em homem amado,
teu amor é impotente,
uma desgraça.”

Karl Marx

“Vida cigana. As coisas me acompanham e vão embora. São minhas de noite, perco-as de dia. Não estou preso às coisas; elas não decidem nada.”
Eduardo Galeano

días y noches de amor y de guerra de eduardo galeano

[seg] 18 de maio de 2009

[sumiu!]

no guarda-roupas os velhos disfarces deste estúpido sistema.

[qui] 27 de março de 2008

O Sistema divorcia a emoção do pensamento como divorcia o sexo do amor, a vida íntima da vida pública, o passado do presente. Se o passado não tem nada para dizer ao presente, a história pode permanecer adormecida, sem incomodar, no guarda-roupas onde o sistema guarda seus velhos disfarces.

Eduardo Galeano

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