Archive for the 'Elis Regina – Elis Regina Carvalho Costa' Category

atrás da porta

2019, janeiro 10, quinta-feira

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus, juro que não acreditei
Eu te estranhei, me debrucei
Sobre o teu corpo e duvidei
E me arrastei, e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teus pelos, teu pijama
Nos teus pés, ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho
Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua
Até provar que ainda sou tua
Compositores: Francis Hime / Chico Buarte

Elis Regina – Atras da Porta

 

traduzir-se

2010, dezembro 12, domingo

É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco, é um pouco sozinho / É um caco de vidro, é a vida, é o sol / É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol / É peroba do campo, é o nó da madeira // Caingá, candeia, é o Matita Pereira / É madeira de vento, tombo da ribanceira / É o mistério profundo, é o queira ou não queira // É o vento ventando, é o fim da ladeira / É a viga, é o vão, festa da cumeeira / É a chuva chovendo, é conversa ribeira / Das águas de março, é o fim da canseira // É o pé, é o chão, é a marcha estradeira / Passarinho na mão, pedra de atiradeira / É uma ave no céu, é uma ave no chão / É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão / É o fundo do poço, é o fim do caminho / No rosto o desgosto, é um pouco sozinho / É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto / É um pingo pingando, é uma conta, é um conto / É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando / É a luz da manhã, é o tijolo chegando / É a lenha, é o dia, é o fim da picada / É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada / É o projeto da casa, é o corpo na cama / É o carro enguiçado, é a lama, é a lama // É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã / É um resto de mato, na luz da manhã / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração / É uma cobra, é um pau, é João, é José / É um espinho na mão, é um corte no pé / São as águas de março fechando o verão, / É a promessa de vida no teu coração // É pau, é pedra, é o fim do caminho / É um resto de toco, é um pouco sozinho / É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã / É um belo horizonte, é uma febre terçã / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração / pau, pedra, fim, caminho // resto, toco, pouco, sozinho / caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol / São as águas de março fechando o verão / É a promessa de vida no teu coração. [tom jobim]

é morena noite. conclui. quinta noite e sexta cedo ‘tava excitado… último trabalho da última disciplina do último semestre… mas o engraçado não é isto. essa sensação empolgante de concluir a licenciatura tendo algo para dizer e dizendo, mas é a sensação de depois… esse vazio… No rosto o desgosto, é um pouco sozinho / É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto / É um pingo pingando, é uma conta, é um conto…

e levo sempre essa dor que não me deixa parar de sangrar. talvez precise de uma reza, de um candombe, de uma orgia, de um carnaval, e rasgar toda essa carne que me cobre e ser nu, só amor e suor sentindo o sol raiar. E será que um dia esse carnaval chegará?

«Humberto Gessinger e Rogério Flausino – Quando o Carnaval Chegar»

***

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

Ferreira Gullar

Adriana Calcanhotto – Traduzir-Se

nesta quase terça-feira

2010, novembro 8, segunda-feira

força de trabalho vendida, por míseros trocados, e cá estou – nesta quase terça-feira. e meus finais de semana voltaram a ser assim, um bagaço fico após um dia de trabalho. e nem é pelo trabalho realizado, que este não é tão pesado assim. mas é pelo ter que ficar lá fazendo hora, aguentando hora, suportando hora, por algo que não… sei lá. mas é assim, te deixa um bagaço essa alienação, esse trabalho-alienado e alienante. o fato é que preciso da grana, tenho projetos e necessidades e enquanto arquiteto e executo meu presente-futuro… e até é bom ver as pessoas, não isolar-se aqui em cima. acomodo-me fácil demais nessa vida e isto não é bom. e já que este texto vai nesse sentido, de escrever o que brota da cachola, sigo… os sapos, vizinhos, coaxam. encontraram eles a piscina do vizinho que abandonou isto aqui e vive agora em algum outro lado do mundo. depois de domingo, tirei segunda-feira para relaxar. cancelei compromissos pré-acordados [transferi a consulta, adiei a reunião e não li nada até agora] e dormi até as onze. pela tarde delirei bastante e trabalhei um pouco na casa – colocando mata-juntas que faltavam e carregando alguns carrinhos de areia. sábado começo a pintá-la [se tudo der certo]. estou ansioso por dezembro. mas voltando para o dia bonito de segunda… projetei uma cerca de bambu, reguei o ipê, e fiz o buraco para o ipê-branco que plantarei nesta quase terça-feira. pensei bastante, senti falta de dona izabel [é estranho saber disto] e de dona ica [que segue sua sina]. conversei amistosamente com o seu nei, o mano e e a dona ana. e cantarolei, no balanço, com dona luiza a nossa canção [que aprendo quando ensino]… e inventamos sons e barulhinhos [crianças são mágicas].

Elis Regina – Madalena

Elis Regina – Madalena – Montreux – 1979

***

… ô mada o me pei perce que o ma é uma go compara ao pran me… ê fi cer que quan o no amo disper lo o so se desespe e se escon la na se ê madalê o que é me não se divi nem tão pou se admi que do no amo duvi… até a lua se arrisca num palpite que o nosso amor existe forte ou fraco alegre ou triste… ê… cá estou, tranquilo e contente – e um pouco morno. conquistando um dia de cada vez, para que chegues logo – que só arderei quando estiveres cá.