Archive for the 'Exercícios' Category

invisíveis e insensíveis ao olho nu

[sáb] 8 de dezembro de 2018

das coisas sensíveis

deitar sem ter hora pra levantar.
andar sob o vento sul.
dormir quando o corpo pede.
perceber as coisas com outro olhar.
(se) desculpar ao outro –
ler a miséria do mundo…
do propósito da existência
e das dificuldades de se viver.

8/12 sambaqui.

***

«Penso no desencadeamento da violência gratuita nos estádios e em outros lugares, nos crimes racistas ou nos sucessos eleitorais dos profetas da calamidade, diligentes em explorar e amplificar as expressões mais primitivas do sofrimento moral que são gerados, tanto e mais que pela miséria e a “violência inerte” das estruturas econômicas e sociais, por todas as pequenas misérias e as violências brandas da vida cotidiana.
Para ir além das manifestações aparentes, a propósito das quais se engalfinham aqueles que Platão chamava de doxósofos, “técnicos de opinião que se julgam sábios”, sábios aparentes da aparência, é preciso evidentemente remontar aos verdadeiros determinantes econômicos e sociais dos inumeráveis atentados contra a liberdade das pessoas, contra sua legítima aspiração à felicidade e à autorrealização, que hoje exercem não somente as leis impiedosas do mercado de trabalho ou de moradia, mas também os veredictos do mercado escolar, ou as sanções abertas ou as agressões insidiosas da vida profissional. Para isso é preciso atravessar a tela das projeções geralmente absurdas, às vezes odiosas, atrás das quais o mal-estar ou o sofrimento se escondem tanto quanto se expressam.
Levar à consciência os mecanismos que tomam a vida dolorosa, inviável até, não é neutralizá-las; explicar as contradições não é resolvê-las. Mas, por mais cético que se possa ser sobre a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que descubram a possibilidade de atribuir seu sofrimento a causas sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer amplamente a origem social, coletivamente oculta, da infelicidade sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais secretas.
Esta contratação, apesar das aparências, não tem nada de desesperador. O que o mundo social fez, o mundo social pode, armado deste saber, desfazer. Em todo caso é certo que nada é menos inocente que o laisser-faire: se é verdade que a maioria dos mecanismos econômicos e sociais que estão no princípio dos sofrimentos mais cruéis, sobretudo os que regulam o mercado de trabalho e o mercado escolar, não são fáceis de serem parados ou modificados, segue-se que toda política que não tira plenamente partido das possibilidades, por reduzidas que sejam, que são oferecidas à ação, e que a ciência pode ajudar a descobrir, pode ser considerada como culpada de não assistência à pessoa em perigo.
Embora sua eficácia, e por isso sua responsabilidade, sejam menores e em todo caso menos diretas, acontece o mesmo com todas as filosofias hoje triunfantes que, geralmente em nome dos costumes tirânicos que podem ter sido feitos da referência à ciência e à razão, visam invalidar toda intervenção da razão científica em política: a alternativa da ciência não é entre a desmedida totalizadora de um racionalismo dogmático e a renúncia esteta de um irracionalismo niilista; ela se satisfaz com verdades parciais e provisórias que ela pode conquistar contra a visão comum e contra a doxa intelectual e que estão em condições de fornecer os únicos meios racionais de utilizar plenamente as margens de manobra deixadas para a liberdade, isto é, para a ação política.» Bourdieu, Pierre. Pós-escrito (pp. 735-736). In: A Miséria do mundo. Coord. Pierre Bourdieu. 7. ed.- Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

***

isto acima são coisas do começo da madrugada, que rementem diretamente ao final da sexta-feira… às discussões em sala de aula, ao meu estado físico e psicológico… ao meu cansaço e minha esperança… às conexões entre as minhas leituras e aulas de sociologia, enquanto docente e pesquisador, e as minhas leituras e aulas de estudos linguísticos, enquanto discente.

agora pela tarde… sinto aquela velha ansiedade e um incontrolável irritação. inexplicável.

preciso de vento, para aplacar essa fúria que sinto. ‘bora lagartear, com um mate… deixar o sol arder e o vento sul lavar meu corpo irritado.

***

ps: se eu for esperto troco minha compulsão em colecionar livros por colecionar pdfs. queria a vida toda para ler… e tomar notas.

Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres

(Trecho)
E Lóri continuou na sua busca do mundo.
Foi à feira de frutas e legumes e peixes e flores: havia de tudo naquele amontoado de barracas, cheias de gritos, de pessoas se empurrando, apalpando o material a comprar para ver se estava bom – Lóri foi ver a abundância da terra que era semanalmente trazida numa rua perto de sua casa em oferenda ao Deus e aos homens. Sua pesquisa do mundo não humano, para entrar em contato com o neutro vivo das coisas que, estas não pensando, eram no entanto vivas ela passeava por entre as barracas e era difícil aproximar de alguma, tantas mulheres trafegavam com sacos e carrinhos.
Afinal viu: sangue puro e roxo escorria de uma beterraba esmagada no chão. Mas seu olhar se fixou na cesta de batatas. Tinham formas diversas e cores nuancizadas. Pegou uma com as duas mãos, e a pele redonda era lisa. A pele da batata era parda, e fina como a de uma criança recém-nascida. Se bem que, ao manuseá-la, sentisse nos dedos a quase insensível existência interior de pequenos brotos, invisíveis a olho nu. Aquela batata era muito bonita. Não quis comprá-la porque não queria vê-la emurchecer em casa e muito menos cozinhá-la.
Batata nasce dentro da terra.
E isso era uma alegria que ela aprendeu na hora: a batata nasce dentro da terra. E dentro da batata, se a pele é retirada, ela é mais branca do que uma maçã descascada.
A batata era a comida por excelência. Isso ela ficou sabendo, e era de uma leve aleluia.
Esgueirou-se entre as centenas de pessoas na feira e isso era um crescimento dentro dela. Parou um instante junto da barraca dos ovos.
Eram brancos.
Na barraca dos peixes entrefechou os olhos aspirando de novo o cheiro de maresia dos peixes, e o cheiro era a alma deles depois de mortos.
As pêras estavam tão repletas delas mesmas que, nessa maturidade elas quase estavam em seu sumo. Lóri comprou uma e ali mesmo na feira deu a primeira dentada na carne da pêra que cedeu totalmente. Lóri sabia que só quem tinha comido uma pêra suculenta a entenderia. E comprou um quilo. Não era talvez para comer em casa, era para enfeitar, e para olha-las mais alguns dias.
Como se ela fosse um pintor que acabasse de ter saído de uma fase abstracionista, agora, sem ser figurativista, entrara num realismo novo. Nesse realismo cada coisa da feira tinha uma importância em si mesma, interligada a um conjunto – mas qual era o conjunto? Enquanto não sabia, passou a se interessar por objetos e formas, como se o que existisse fizesse parte de uma exposição de pintura e escultura. O objeto então que fosse de bronze – na barraca de bugigangas para presentes, viu a pequena estátua mal feita de bronze – o objeto que fosse de bronze, ele quase lhe ardia nas mãos de tanto gosto que lhe dava lidar com ele. Comprou um cinzeiro de bronze, porque a estatueta era feia demais.
E de repente viu os nabos. Via os nabos. Via tudo até encher-se de plenitude e de visão e do manuseio das frutas da terra. Cada fruta era insólita, apesar de familiar e sua. A maioria tinha um exterior que era para ser visto e reconhecido. O que encantava Lóri. Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia de sumo vivo que era. Ela estava procurando sair da dor, como se procurasse sair de uma realidade outra que durara sua vida até então.

Retirado de: Lispector, Clarice. Uma aprendizagem, ou o livro dos prazeres. 18 ed. Rio de Janeiro: Ed. Francisco Alves, 1991. Pp. 144-6.

O SER E A LINGUAGEM EM UMA APRENDIZAGEM OU O LIVRO DOS PRAZERES: um estudo sobre a obra de Clarice Lispector, por Luciana de Barros Ataide

ANA MIRANDA, LEITORA DE CLARICE LISPECTOR, por Taíse Neves Possani

O SENTIDO DA RELACAO ENTRE EDUCADOR E EDUCANDO NA CONSTITUICAO DE GRUPOS INTERDISCIPLINARES, por Vanessa Marques D Albuquerque

CARTAS DE CLARICE LISPECTOR:ENCONTROS MARCADOS E “MOVIMENTOS SIMULADOS”, por Fátima Cristina Dias Rocha

A ESCRITA DE SI NA CORRESPONDÊNCIA DE CLARICE LISPECTOR, por Fátima Cristina Dias Rocha

***

e às vezes tô clarice

«É pena que não possa dar o que se sente, porque eu gostaria de dar a vocês o que
sinto como uma flor» – Clarice Lispector

mas noutras… sou belchior

«Se você vier me perguntar por onde andei 
No tempo em que você sonhava 
De olhos abertos lhe direi 
Amigo eu me desesperava 
(…)
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…
Eu quero é que esse canto torto feito faca 
Corte a carne de vocês…»

À PALO SECO – BELCHIOR

ALUCINAÇÃO, 1976

part of the machine, autopsicografia e outras notas aleatórias

[sex] 7 de dezembro de 2018

decidi não mais escrever. como se eu tivesse qualquer certeza. oscilo. talvez a solidão seja tão vasta que se eu não tomar nota por cá, talvez eu me perca neste emaranhado de melancolia e desrazão. estou muito confuso. e oscilo. no trabalho jane repara na minha magreza. sequei nos últimos meses… pedem dicas e segredos… tergiverso… fujo… minha nova compulsão… é apenas efeito colateral da medicação. quando me olho no espelho, lembro que samanta brinca toda vez que me vê nas terças ou quarta-feiras… diz ela que cada vez é maior minha cara de maluco. eu sei… a pele, as olheiras, o cabelo desgrenhado, o aspecto cansado… pois não há vontade de nada… eu apenas saio, quando consigo sair, e meu corpo vai estando… eu oscilo. nessa quinta-feira estive entre a raiva, o desespero e uma vontade de derramar meu pranto por nada, eu não me controlo bem por estes dias. no máximo eu tento dizer coisas com as minhas camisetas, coisas como, «quero que este canto torto feito faca corte a carne de vocês», ou «deixe me ir, preciso andar…» ou ainda, «O poeta é um fingidor. Finge tão completamente. Que chega a fingir que é dor. A dor que deveras sente».

***

registro coisas escritas por estes dias:

exercício pela manhã

pela manhã
os barcos guardam o mar,
as nuvens o sol,
e um cão
os escombros.

30/10/2018 Sambaqui->Vargem Pequena

exercício pela tarde

capturar o movimento da palavra
no mergulho da ave,
na revoada, no bando,
no ninho repleto,
e nos teus olhos abertos
no instante preciso.

há qualquer coisa de pássaro nas palavras
um pena, uma asa,
eu preso(,)
(em) você passarinho.

06/12/2018 Sambaqui->Santo Antônio de Lisboa

***

notas sobre coisas aleatórias destes dias

#1 Bô Jornal -> http://bojornal.pt/

#2 Part of the machine, de Michael Marczewski

 

#3 Roteiro sentimental para o trabalho de campo

«Estejam abertos ao imprevisto, o que Malinowski (1997) chama de o imponderável da vida social, aquilo que escapa ao nosso planejamento, nos faz mudar de rota e acaba sendo revelador. Como na vida, não tentem direcionar demais o curso das águas, deixem a vida nos levar e tentem aproveitar os momentos de incerteza para perguntar aos nativos o que está acontecendo! Dificilmente o antropólogo escapa da pecha de chato, inconveniente ou louco. Chato porque pergunta sobre tudo, como a criança nas idades dos por quês. Inconveniente porque força as pessoas a se questionarem sobre o que é tido como naturalizado. E, louco, justamente, porque parece desconhecer as verdades inquestionáveis.
Não tenham medo do ridículo, espelhem-se no ofício dos palhaços que riem da sua própria miséria e, ao saberem-se ridículos, enfrentando sua vergonha, cumprem seu papel» PIRES, FLÁVIA FERREIRA. Roteiro sentimental para o trabalho de campo. In: cadernos de campo, São Paulo, n. 20, p. 143-148, 2011

spellbound

[seg] 3 de dezembro de 2018

02

01

03

Spellbound (braQuando Fala o CoraçãoprtA Casa Encantada) é um filme estadunidense de 1945, do gênero suspense, dirigido por Alfred Hitchcock.

Exibir palavras-chave (podem conter spoilers)
esquizofreniamemóriapsicanálise

spellbound_1-620x400

***

jardinei as folhas velhas… cortei o dedo no fio da pedra. nas linhas do tempo não escrevi nenhuma linha além destas… fui de um silêncio estrondoso. seco como a espera. permaneci, comprimido.

i will not make any more boring art

[ter] 27 de novembro de 2018

poucos minutos depois da meia noite… sono pesado. corpo desistindo. mas antes…

John Baldessari, I Will Not Make Any More Boring Art

***

19h07. um nove [que roberta publica no moodle]. que eu vou saber uma três horas depois, mas causará a sensação que sinto agora… de aceitação, de validação. de estar num ambiente familiar, de carinho e respeito, onde não preciso estar alerta, na retaguarda. tomo mate com meus pais, que privilégio, pode estar com meus pais – e saber que a seu modo e com suas limitações, eles me amam -, e minha filha, que admiro – e que nos amamos e, apesar de nossas loucuras, nos aceitamos todos. e com dora, chip e sorvete, mateamos… admirando e sonhando com a casa nova que vai em obras… um feito coletivo, que só existe pelo esforço de todos. ser humilde e agradecer diariamente pelo que tenho… foi esse sentimento/insight que senti ontem… não sentir-me ferido e magoado por não ser muitas vezes aquilo que eu gostaria ou acho que deveria ser… aceitar minha pequenez, minhas imperfeições, meus medos… sentir-me válido, possível… não paralisar demais.

13h08 tomo nota… no terminal…

exercício sobre olhar-se dentro do mundo
 
sobre ontem:
na despedida
o reencontro
comigo,
com essa coisa
meio silêncio, meio ruído
 
transbordando poesia…
 
e sobre a resiliência…
a forma de olhar,
o meu olhar sobre o mundo.
 
e sobre a gratidão,
ao meu velho pai,
por estarmos juntos
nessa irmã jornada
 
e sobre raízes…
minha mãe, que na aridez
da terra arrasada,
brotou floresta.
 
e sobre identificação…
o ser humano que nunca vi
e que passa agora por mim
lendo Heleieth Saffioti…
e me faz senti-la como se fosse
uma camarada de longa data…
uma irmã, que reencontro nessa luta
contra o patriarcado
e toda a estupidez humana.
 
e sobre a saudade…
o gosto da saliva
de um beijo na boca
como o desses jovens namorados
ao meu lado…
 
e sobre a tarde…
essa necessidade de grafar
meu estranho pertencimento
ao mundo…
poesia e resistência…
 
e sobre meus pelos, pele e nervos
minha camiseta vermelha –
meu peito-armadura,
meu grito ao amor
contra o medo do mundo:
 
tisan/santo antônio de lisboa/floripa. 27/11/2018

 

apocalipse, uau!

[qua] 21 de novembro de 2018

tomando notas:

não falar de mim. dessa dificuldade de sair e ver as pessoas… apenas anotar o que lê, vê e delira.

«- “Onde estão as armas?”
Pergunta carrancudo o policial armado para o combate.
– “Na biblioteca” .
Respondeu o filósofo. 
E na biblioteca encontraram muitos livros. »

***

«4. Enfim, o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma ideia, tida como arqui-sinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida. Mortos Deus e os grandes ideais do passado, o homem moderno valorizou a Arte, a História, o Desenvolvimento, a Consciência Social para se salvar. Dando adeus a essas ilusões, o homem pós-moderno já sabe que não existe Céu nem sentido para a História, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. E aqui você pode escolher entre ser:
a) a criança radiosa — o indivíduo desenvolto, sedutor, hedonista integrado à tecnologia, narcisista com identidade móvel, flutuante, liberado sexualmente, conforme o incensam Lipovestsky, Fiedler e Toffler, alegres gurus que vamos visitar logo mais;
b) o andróide melancólico — o consumidor programado e sem história, indiferente, átomo estatístico na massa, boneco da tecnociência, segundo o abominam Nietzsche e Baudrillard, Lyotard, profetas do apocalipse cujo evangelho também vamos escutar.
Assim, tecnociência, consumo personalizado, arte e filosofia em torno de um homem emergente ou decadente são os campos onde o fantasma pós-moderno pode ser surpreendido. (pp. 10-11) (…) Ora, descobriu-se há alguns anos, com a Lingüística, a Antropologia, a Psicanálise, que, para o homem, não há pensamento, nem mundo (nem mesmo homem), sem linguagem, sem algum tipo de Representação. Mais: a linguagem dos meios de comunicação dá forma tanto ao nosso mundo (referente, objeto), quanto ao nosso pensamento (referência, sujeito). Para serem alguma coisa, sujeito e objeto passam ambos pelo signo. A pós-modernidade é também uma Semiurgia, um mundo super-recriado pelos signos. Quando nosso urbanóide, na fabulazinha, se sente irreal, o ego e o mundo surgindo-lhe vagos como um fantasma, é porque ele manipula cada vez mais signos em vez de coisas. Sua sensibilidade é frágil, sua identidade, evanescente. Na pós-modernidade, matéria e espírito se esfumam em imagens, em dígitos num fluxo acelerado. A isso os filósofos estão chamando desreferencialização do real e dessubstancialização do sujeito, ou seja, o referente (a realidade) se degrada em fantasmagoria e o sujeito (o individuo) perde a substância interior, sente-se vazio (pp. 15-16)»  SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004. – Coleção primeiros passos; 165) 22ª reimpr. da 1ª ed. de 1986.

***

exercício noturnos. autoria b.

titri/trindade – florianópolis.

I – a esmo

caminhei a esmo
para não ficar
andando em círculos,
no mesmo pensamento.

II – anatomia da lágrima contida

sob a pálpebra
o filme lacrimal tem três camadas
mas há um embargo,
um amontoado de palavras não ditas,
verbo-pranto,
vazão represada
lágrima contida.

III – poe.a.mar-se

jogar palavras no papel
distrai a dor
que sufoca o peito.

não desata o nó,
o permanente impasse
deste corpo-linguagem,

mas desfaz o laço
ao poe.a.mar-se

IV – led

semáforos
faróis
lâmpadas
todos os tons
de amarelo, branco
verde, vermelho

e a espera da noite
sinaliza o caminho
pisca, da seta,
freia, adverte,
siga, mas não siga em vão…
venha, vá, não pare não…

brilha nessa escuridão.

***

“Marca Registrada” (1975, duração: 8’) de Letícia Parente

**

Robert-Longo-05

«Sword of the Pig» (1983, madeira pintada e serigrafia em alumínio) de Robert Longo

não é cair: é voar com estilo

[sex] 16 de novembro de 2018

«I was going to write you a poem, but then I didn’t. A week ago I wrote you a tiny telegram e dizia “I’ll be home soon. Do not cry, Princess.” Foi dura pra caramba essa distância, mas é bom saber que você se fez rainha e que o afastamento de dois corpos em muito contribuiu para isso. Doeu, mas foi. E os santos padroeiros ajudaram: Sebastião, António, Jorge e as multidões revolucionárias que andam às cabeçadas com a crise económica. Às vezes penso na fazenda do meu pai. É como aquela imagem do rosto do tigre que me vem às barbas, mas depois passa. Também escuto as canções do Tim Maia mas nada resolve muito bem. Só sei da fazenda do pai, da fronha do tigre, do choro do mendigo e… vá lá, vai… já é do caraças. Fiz-me poeta para dizeres “Ok, don’t you understand?”, como dizia o rapaz à chuva. “Don’t you?” Isto não é um videoclipe, esquece. Alguns monges andam procurando mirra nas extremidades dos grãos da terra, mas já sabemos que isso é um valente estado de ilusão. Ou então é fé, sabe-se lá. Tu deves saber. Tu sabes muito sobre escavação e oração. Esta noite escrevi o terceiro pedido de casamento, mas acho que já não vais na conversa. Faz tripas, coração mas sei muito bem que me amas pelos olhinhos e nunca pelas coisas que um dia morrem de podres, zonas internas e tal. Poemas… bah! Andas aí empenhada em saber por que raio é que escrevo em inglês mas… nem eu sei. Deve ser tão mais fácil mentir em estrangeiro, disse que isto de poesia era tudo verdade mas, não sei não. Também achei que o amor tinha muito menos mutação que um plátano, e agora fico aqui sentada na fazenda assistindo à transição das estações. Alguém fez disto uma enorme ilusão, e olha que nem sei o que é a morte. My bad, or my luck. Os olhos da avó ainda são azuis. Está tudo igual naquela sala, só puxaram os sofás um pouco mais pra frente. É da crise, sei lá. A Europa não parece querer ter outra palavra. Vi que na cidade um homem se suspende a troco de dinheiro e que fica na praça por horas e horas. Faz um cento e tal de euros por mês. Saudade do Real, my friend… Saudade de tudo aquilo que a gente foi um dia mas agora só existem os poemas, a mentira dos poemas e a tradução dos poemas feita por heróis que julgam…sei lá, amar a história que já morreu. Guarda o número sessenta mil. Pode ser que te dê sorte.» Matilde Campilho

***

3h27 calor dos infernos. mosquitos de toda a ordem e grau… zuuuuuneeeemmm… não consigo dormir. algo me engasga…

bandoli me apresenta essa pérola, matilde.

***

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Texturas.

Um dia foi semente,
um dia foi árvore.
Um dia foi parede,
noutro foi caixaria.
Hoje seus cortes suportam
a casa em construção…
guardam as marcas
do artífice e da arte.

***

tomar nota:

«(…) Uma coisa que me ajudou muito foi entender a diferença que Djamila Ribeiro faz entre opressão e sofrimento. Outra foi um entrevista de Talíria Petrone em que ela fala de territórios e representatividade na esquerda. Estou lendo o que a Bell Hooks fala sobre classe e etnia no feminismo. Existe uma dialética não tão óbvia quanto se deveria sobre o lugar de fala e o lugar de escuta. Na verdade a dificuldade em relação ao lugar de fala elucida uma dificuldade nos espaços de escuta. Eu creio que estes espaços são moldados por um sistema estrutural histórico fudido e cada vez mais desenvolvido tecnologicamente de opressão. Aqui tivemos o projeto de miscigenação que produz um mito de democracia racial perigoso e uma cultura de estupro latente. Lélia Gonzalez creio que trabalha bem a relação do racismo com o sexismo ao mesmo tempo que constrói o conceito de amerfricanidade. Então nós, mulheres brancas brasileiras, sobretudo as que, como eu, são dos estratos mais pobres da classe trabalhadora, provavelmente somos muito mais resultado da Redenção de Cam do que da descendência WASP. O colorismo é um debate super complexo, ainda mais numa sociedade em que a PM é racista e a miscigenação é pautada na cultura de estupro. A Angela Davis tem uma reflexão sobre a história dos direitos civis nas Américas bem bacana também em que faz uma revisão da questão de gênero, étnica e de classe e como foram tratadas na história moderna das Américas esses temas e nos movimentos sociais, como foram reprimidos, a importância da construção coletiva de solução em oposição aos acentuados conflitos nos níveis das experiências e reconhecimentos individuais. (…)» D. A.

***

4h17 upload… 297 de 779. é abril de 2011 ainda…

***

9h57 já tomei café, mas ainda continuo com sono. roberta respondeu meu email cinco minutos atrás, parece que tirei 7,25. ufa (respondi 9/10…).

mas meu peito está pesado ainda, talvez a poeira de ontem… ou da dúvida de sempre.

mentalizar… pensar positivo, aproveitar o dia de sol.

***

23h43 dia longo. vasos, pias, portas e janelas… aos poucos a casa nova vai ganhando seu contorno. e nessa que habito provisoriamente… um ninho de formigas em mudança resolveu se alojar ao meu lado, no quarto… assim não vai dar, vou cortar relações.

ʻoumuamua

[qui] 8 de novembro de 2018

[ʔouˌmuəˈmuə]

«ʻOumuamua (/ˌməˈmə/ (About this sound listen)) is the first interstellar object detected passing through the Solar SystemFormally designated 1I/2017 U1, it was discovered by Robert Weryk using the Pan-STARRS telescope at Haleakala Observatory, Hawaii, on 19 October 2017, 40 days after it passed its closest point to the Sun. When first seen, it was about 33,000,000 km (21,000,000 mi; 0.22 AU) from Earth (about 85 times as far away as the Moon), and already heading away from the Sun. (…) Hawaiian term for scout»

pela manhã, no caminho do trabalho, faço um poema, diante do espanto… de ver uma nuvem minúscula e sozinha sobre o mar… e isto me lembrar do filme arrival… as imagens abaixo são apenas alguns fragmentos dos pensamentos desta manhã

exercício sobre a nuvem-nave (arrival)

a riba
a nuvem baixa
e só
sobre o mar
imagem etérea
lapso
memória
a nuvem nave
e se
sempre
(não importa o tempo)
‘tão ali
na nossa língua
o signo da chegada
uma rede
a linguagem
a nau
a pesca
o só e sempre margem
movimento
fóto(n)
retina
sinapse
sol
a nuvem riba,
fragmento
é o outro eu
a mesma poeira
de estrela
(uni)verso.

14h30 visita do fukuta.

22h05 aula terminada. por hoje…

«Conta-nos Gilberto Freyre em Casa-grande & senzala que havia um ditado corrente no Brasil patriarcal a respeito das mulheres: “Branca para casar, mulata para foder e negra para trabalhar” [1], que revela o pensamento masculino de então no qual a mulher é vista preconceituosamente como um objeto útil. No caso das brancas, úteis para interpretar o papel de mãe, mulher e dona de casa, relevantes para dar à família um status oficial e continuidade à linhagem familiar, devendo estar dentro dos modelos patriarcais; quanto às mulatas, principalmente aquelas mais bem feitas, mais bonitas, mais dóceis, o papel de coadjuvantes no cotidiano da vida patriarcal, dentro das casas-grandes, atuando como mucamas, submetidas muitas vezes a repasto sexual do senhor ou como iniciadoras das práticas sexuais dos filhos deste e também, não raras vezes, como vítimas das sinhás, que transplantavam o ódio de sua submissão à ordem masculina sobre as mucamas. Às mulheres negras, sem os predicados que as tornassem passíveis de agradarem sexualmente o senhor patriarcal, cabiam exercer o papel de animais de carga, o de suportar tarefas extenuantes, o de se esfalfar nas cozinhas sob os gritos das sinhás-donas, o de suar nas tarefas diárias das fazendas e dos engenhos». BRANCA PARA CASAR, por Marcos Hidemi de Lima (UEL-PG)

[1] FREYRE, Gilberto. Casa-grande & senzala. São Paulo: Círculo do livro, s/d, p. 48.

e a sugestão:

Poetisas No Topo (letra) Mariana Mello, Nabrisa, Karol De Souza, Azzy, Souto, Bivolt, Drik Barbosa

a metáfora do tubarão

[ter] 16 de outubro de 2018

há algumas notas para registrar… desses últimos dias.

mas só consigo dizer…

abordagens psicológicas e o big data… e lá vamos nós eleitores/consumidores para o abismo/matadouro.

«Qual é a melhor placa para eu fincar na areia?… A metáfora do tubarão no limite da ética».

preciso ler…

na fila:

ÉTICA E PÓSVERDADE de Christian Dunker, Cristovão Tezza, Julián Fuks, Marcia Tiburi e Vladimir Safatle

A ARQUEOLOGIA DO SABER de Michel Foucaul

Verdade e diferença no pensamento de Michel Foucault, por Cesar Candiotto

«Nos anos 1990, Woody Allen dizia que o mundo podia ser horrível, mas ainda era o único lugar onde se poderia comer um bife decente. Nos anos 2000, Cyfer, o personagem de Matrix que decide voltar para o mundo da ilusão, declara: “a ignorância é uma bênção”. Portanto, não deveríamos nos assustar quando o dicionário Oxford declara o termo “pós-verdade” a palavra do ano de 2016. Uma longa jornada filosófica e cultural foi necessária para que primeiro aposentássemos a noção de sujeito, depois nos apaixonássemos pelo Real, para finalmente chegar ao estado presente no qual a verdade é apenas mais uma participante do jogo, sem privilégios ou prerrogativas». A Pós-Verdade e seu tempo político  por Christian Dunker

***

El sembrador de fuego

El sembrador de fuego / O semeador de fogo / The fire sower

«O pintor deste quadro – neste caso, podemos dizer – criou coragem de reconhecer a existência de um medo geral e profundo, e de expressá-la através da sua arte, assim como outros tiveram a ousadia (ou não conseguiram evitar) de escolher como tema o desejo consciente ou inconsciente de destruição, que também é geral, tornando, deste modo, visível a desagregação que termina no caos. Eles o fizeram com a “superioridade” da paixão herostrática¹, que não conhece nem o temor, nem o que virá depois. Mas, o medo é uma confissão de inferioridade em que a pessoa, assustada pelo caos, almeja uma realidade firme e palpável, a continuidade do já existente, e a satisfação da mente, a cultura. Quem tem medo está ciente de que a desagregação do nosso mundo é o resultado da insuficiência dele, e que a este mundo falta algo essencial, que poderia evitar o caos. Contra o estado fragmentário do passado, o mundo tem que contrapor o anseio de ser total e inteiro. Mas já que isto, aparentemente, não pode ser encontrado na atualidade, então também não há possibilidade de imaginar aquilo que integra as partes num todo. Tornamo-nos céticos, e os ideais quiméricos de melhorar o mundo estão em cotação baixa. Por esse motivo também não se acredita, ou só se acredita parcialmente, nas velhas fórmulas que acabaram fracassando. A ausência de imagens de…

1 [HERÓSTRATO destruiu, em 365 a.C., o templo de Ártemis, em Éfeso, para eternizar o seu nome]». em «Um Mito Moderno Sobre Coisas vistas no Céu» Carl Gustav Jung

***

vento leste / garoa constante

rima istmo / estreito peito /

rema a eito / atravessa triste

a tarde estreita / dos continentes

ou oceanos / de gente deserta /

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«(…) 7. Farto também estou das tuas ideias claras e distintas a respeito de muitas outras coisas, e é só pra contrabalançar tua lucidez que confesso aqui minha confusão, mas não conclua daí qualquer sugestão de equilíbrio, menos ainda que eu esteja traindo uma suposta fé na “ordem”, afinal, vai longe o tempo em que eu mesmo acreditava no propalado arranjo universal (que uns colocam no começo da história, e outros, como você, colocam no fim dela), e hoje, se ponho o olho fora da janela, além do incontido arroto, ainda fico espantado com este mundo simulado que não perde essa mania de fingir que está de pé. (…) »«O ventre seco».  Raduan Nassar. In: Menina a caminho. Cia das Letras.

 

aqui existo de uma maneira longínqua

[qua] 30 de maio de 2018

4h23

meu rosto está desfigurado.
em carne viva.
infinitas escamas.
meu corpo arde.
tenho febre nos dedos.
ando suspenso.
tenho sonhos ao sol.
não os lembro.
vago imóvel pela madrugada.
abandono a poesia.
desnudo poemas.

e os pelos brancos me assaltam a cara

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5h06 das notas mentais… acabei, terminei, editei a última postagem atrasada, pus em dia a série de poemas e poetas do #umpoetaumpoemapordia. e seria coisa inútil, se não fosse o prazer da descoberta poética…

«nos meus pensamentos sempre
as palavras lutam duas a duas pela verdade
palavras se metem dentro
de outras palavras querendo idéias
sou uma caixa de vários lados
com vários cantos
com duas sombras
uma escura que nasce da clara
outra clara que nasce da escura
a luz cintila e a sombra dorme
a sombra estatela-se e a luz ergue-se
nasce cada palavra dentro de outra palavra»
FERNANDO LEMOS

5h48 é o horário do segundo trem. hora que devo sair de casa. perícia médica. torcer para voltar antes das oito. e dormir o dia inteiro… ou viver.

23h13. e logo depois voltei, depois de perder uma hora esperando pelo busão que não veio… planos do dia zero a um para a falta de busão. reagendar compromissos e voltar a dormir, dormir mal. e na tarde, na volta do curativo, caminhei os três quilômetros (falta de busão, dois a zero?)… e tenho dor, mas rascunhei esse exercício abaixo:

fixação pelo verbo
oxidação do ferro
a água que invade
a gravidade deixa
a dança das conchas
entre a espuma e areia
o sol
o vento terral
a face
a tarde inteira
nada resiste

à necessidade da palavra
vagner boni, sambaqui, 30/05/2018

«só posso te pedir que nunca se leve tão a sério»

[qua] 23 de maio de 2018

11h26 aqui, na última hora, mas ainda tentando… vasculhando esse emaranhado de palavras, ideias e pontas soltas, que é este blogue, atrás da referência de um filme que usei um tempo atrás em sala e não encontro no hd.

e algumas coisas que encontro bastante… links quebrados, nomes não categorizados, e canções de jorge drexler e lenine… e é deste último, que cito mais uma vez [eu sei que já anotei ela, aqui, em algum lugar], a canção do dia: [Todos os Caminhos – Lenine e Dudu Falcão], que se conecta com o vídeo que vi ontem [O Monge e o Pianista, do canal Antídoto]. É sobre rir-se de si e não se levar tão a sério

«eu já me perguntei se o tempo poderá realizar meus sonhos e desejos, / será que eu já não sei por onde procurar ou todos os caminhos dão no mesmo / e o certo é que eu não sei o que virá / só posso te pedir que nunca se leve tão a sério / nunca se deixe levar, que a vida é parte do mistério, / é tanta coisa pra se desvendar. / por tudo que eu andei e o tanto que faltar, não dá pra se prever nem o futuro, / o escuro que se vê quem sabe pode iluminar os corações perdidos sobre o muro / e o certo é que eu não sei o que virá / só posso te pedir que nunca se leve tão a sério / nunca se deixe levar, a nossa vida passa / e não há tempo pra desperdiçar. // composição de Lenine e Dudu Falcão»

***

o filme que busco cá…

Família no papel, 2012 ( BR ) · Português · Documental · Classificação-18 · 52 minutos de vídeo HD. Dirigido por Fernanda Friedrich e Bruna Wagner.

..

11h55. almoçar e ir. não baixei o vídeo e nem achei o pendrive.

***

23h55 edição/créditos finais.

rotina rotina rotina rotina rotina rotina rotina acordei rotina rotina um bocado mais cedo rotina rotina rotina e essa história de pensar em não levar-se tão a sério deixou-me mais leve, ou será marte em trígono com a lua natal? mas o fato é que até consegui desbloquear o modo ansiedade aguda e sair com minha cara escamada pela rua. e como ando redondo coloquei aquela camisa, das maiores que tenho, que diz «deixe me ir, preciso andar». e perdi o trem, mas ganhei o caminho, mesmo que meu pé doa, que meu dedo esteja quase roxo, fui andando, encontrar o sol e o vento frio de maio. já  estava certo do meu atraso pra vida… mas há as caronas inesperadas, as gentilezas, as coisas imponderáveis.

notas mentais

#nota mental do início da tarde. quando a pessoa vem te dizer que sonhou contigo… ela só queria dizer que sonhou contigo. não há nada além disto.

#nota mental do meio da tarde. eu sei, aquela piscada quando ela disse que minha camisa era bonita… é eu sei, foi over. tiozão, não se flerta com a ‘sorinha assim não.

#nota mental da noite. professor-aluno é relação hierárquica, não devia ser, mais ainda é. não flertar. ser sério. profissional. mesmo que algumas pessoinhas te deixem encabulado. mantenha-se na linha homê. não sê escroto como seus colegas.

#fragmentos para uma poesia:

o cílio negro sobre a tela/página em branco

o sol que trespassa a pálpebra é vermelho. a carne, por dentro, é vermelha.

a porta lascada abre um buraco para outra dimensão. uma fresta na altura do peito.

 

 

 

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