Archive for the 'Fernando Pessoa – Álvaro de Campos' Category

você consegue?!

2018, setembro 26, quarta-feira

«Quando refletimos sobre a Natureza em geral, ou sobre a história da humanidade, ou sobre nossa própria atividade intelectual, vemos em primeiro lugar a imagem de um incessante emaranhado de relações e reações, de permutações e combinações, nas quais nada permanece o-quê, onde e como era, mas nas quais tudo se move, toma forma e passa. Vemos portanto em primeiro plano a imagem de um todo, com suas partes ainda mais ou menos mantidas ao fundo; observamos os movimentos, as transições, as conexões, em vez das das coisas que movem e combinam e estão ligadas. Esta concepção do mundo primitivo, naif, porém intrinsecamente correta, é a mesma da filosofia grega antiga, e foi formulada pela primeira vez com clareza por Heráclito: tudo é e não é, porque tudo é fluido, está constantemente mudando, constantemente tomando forma e passando.» Friedrich Engels (Anti-Dürhring)

o texto acima, foi a primeira imagem que me apareceu ontem, depois do cochilo que dei pela manhã. uma velha amiga deve estar a ler o livro de Shulamith Firestone – A Dialética do Sexo.

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e eu estou com uma revolta na altura do estômago… tenho ânsia… fico dando voltas e mais voltas e não saio do lugar… não comecei a estudar para a prova desta quarta-feira.

joguei fora cinco dias… agora só falta meio. e há textos que nem li ainda…

por quê?

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Poema em Linha Reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. 
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. 
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, 
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, 
Indesculpavelmente sujo. 
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, 
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, 
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, 
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, 
Que tenho sofrido enxovalhos e calado, 
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; 
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, 
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, 
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, 
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado 
Para fora da possibilidade do soco; 
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, 
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo 
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, 
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana 
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; 
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! 
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. 
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? 
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses! 
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado, 
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! 
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, 
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? 
Eu, que venho sido vil, literalmente vil, 
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

é uma composição que Fernando Pessoa assinou com o seu heterônimo Álvaro de Campos

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tânatos

2014, janeiro 22, quarta-feira

«Muito cedo, ele já aprendera o buraco que a linguagem deixa dentro de cada indivíduo.»

tempos atrás, a terapeuta sugeriu o filme ‘perfume, a história de um assassino’. eu já havia visto, e tentei ver novamente para ver se teria um lampejo sobre que raios ela me sugeriu este filme… vi partes, sou desorganizado… e neste ano lembrei do filme, e por acaso, hoje foi o dia de vê-lo. a frase acima e a análise sociológica de onde ela foi extraída são bem bacanas. e abaixo o poema de álvaro de campos – começo a conhecer-me. e concluindo estas poucas linhas, sinto que não há nada mais profundo em mim… e se há, não sei dizer. calo-me. fim.

«Começo a Conhecer-me. Não Existo

Começo a conhecer-me. Não existo. 
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram, 
ou metade desse intervalo, porque também há vida … 
Sou isso, enfim … 
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor. 
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo. 
É um universo barato.

Álvaro de Campos, in ‘Poemas’
Heterônimo de Fernando Pessoa»

aos alecrins

2013, novembro 7, quinta-feira

TEXTOS DO FIM. Garimpados e Fabricados lá pelas 6h30 do dia.

texto incidental o guardador de rebanhos (parte ix) / sou um guardador de rebanhos / o rebanho é os meus pensamentos / e os meus pensamentos são todos sensações. / penso com os olhos e com os ouvidos / E com as mãos e os pés / e com o nariz e a boca. // pensar uma flor é vê-la e cheirá-la / e comer um fruto é saber-lhe o sentido. / por isso quando num dia de calor / me sinto triste de gozá-lo tanto. / e me deito ao comprido na erva, / e fecho os olhos quentes, / sinto todo o meu corpo deitado na realidade, / sei a verdade e sou feliz. / alberto caeiro – heterônimo de fernando pessoa.

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texto dois que deveria ser o um. pensei em tanta coisa, mas uns goles de vinho me tiraram a certeza da palavra escrita, e sobrou apenas um pensamento passado, uma madruga perdida e um amanhecer mais inspirado. já escrevi aqui inúmeras vezes avaliações sobre este momento que vivo – os dilemas, as limitações, as contradições, as referências, os desencontros, as dores, a certeza sobre estar certo e ao mesmo tempo a profunda angústia de estar errado, da imobilidade em que me encontro. momento que  manifesta uma necessidade de auto-proteção, mesmo que seja em relação à projeções superdimensionadas, fruto de minhas neuroses e carências, enfim, desta dificuldade de lidar com afetividade – e irônico nisto tudo é que trato disto numa boa no plano da análise, tenho consciência de como se processa, quais suas origens e seus desdobramentos… mas –  contraditoriamente, este mesmo momento manifesta-se como uma certa prisão, como um viciado melodramático não consigo romper o ciclo vicioso do cotidiano que me leva à um exílio, um auto-exílio, que só não é total porque conservadoramente e comunalmente nesta família, onde todos moram sozinhos em suas casas, mas no mesmo pedaço de terra. O fato de ter izabel vivendo tão perto e passar quase todos os dias algumas horas com ela, e ter me vestido desta «paternidade», que me ensina bastante, e me dá, de certa forma, um chão, já que por ela tenho feito algumas concessões… é por ela, mas também é por mim, já que projeto nessa relação, o outro modelo concreto de relação parental pai-filho que vivi, a minha própria com meu velho, e percebo que apesar de ser tão idêntico nas limitações, eu consigo romper este profundos grilhões repressivos, e  mesmo não sendo o super-homem, e ainda causando dores por minhas faltas, sou um «pai» mais aberto e franco, talvez não o pai que eu gostaria de ter, mas o que consigo ser neste meu mar de neuroses… eu não deveria editar todo este texto, como estou fazendo agora, e quem já 0 leu, se um dia voltar a ler, perceberá, mas quem é que lê isto por cá? mas em síntese: por não saber lidar com certas situações e sentimentos, ou mesmo por não conseguir lidar com eles e com a projeção que eles trazem, é que nestes últimos três anos recuei, estabeleci um projeto mínimo, sobreviver, acompanhar izabel crescer, concluir meu teto… e recuando politicamente, socialmente, afetivamente de todas as possibilidades de enfrentamento, transformação e superação destas minhas velhas debilidades, destas minhas amputações ‘invisíveis’. e talvez não seja o melhor caminho a seguir, mas quase tudo vai conspirando para esse recuo, o salário baixo, a incerteza de trabalho, as contas, a falta de vontade de trabalhar ou de voltar a estudar ou militar social e politicamente… quase tudo ao meu redor parece incerto.

no peito há gentes e a dor e a dor pela dor do peito causar dor no peito destas gentes. mas nesta semana deu uma vontade de subir para respirar, sair do silêncio, mexer os músculos, olhar para toda essa quantidade de dor e começar a desfaze-la… e tomará que eu consiga avançar para além desta semana, avante, contra os moinhos de vento…

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texto um que é o dois. perguntas aos alecrins. alecrim, alecrim, tu és uma planta bela e cheirosa. e aqui em casa és já dois pés. e sendo dois, vocês hão de crescer e me alimentar em chás e pratos diversos. alecrins… o que cês me dizem quando tudo parece estar à deriva, desde minha aparente profissão à república francesa, alastrando-se pelas águas radio-atômicas de fucuxima. seriam muitos derivados e derivativos para toda essa estória? a sociologia explica, interpreta, compreende como todo o sistema funciona, mas não me anima… é carlitos, falta ação. tu me diria: e esse cara aí sobre o muro, o que mira? o que sente? qual o gosto que leva na boca? que vermelho é este entre estes dentes carcomidos e ausentes? e nos olhos? e na cabeça? e esse doce-amargo das raras aulas semanais? do civilizatório mínimo trabalho alienado? do produtivo máximo não-trabalho? do esperar as vidas passarem?

a passagem das horas – “trago dentro do meu coração, / como num cofre que se não pode fechar de cheio, / todos os lugares onde estive, / todos os portos a que cheguei, / todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias, / ou de tombadilhos, sonhando, / e tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero. // (…) // viajei por mais terras do que aquelas em que toquei… / vi mais paisagens do que aquelas em que pus os olhos… / experimentei mais sensações do que todas as sensações que senti, / porque, por mais que sentisse, sempre me faltou que sentir / e a vida sempre me doeu, sempre foi pouco, e eu infeliz. // a certos momentos do dia recordo tudo isto e apavoro-me, / penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge, / desta estrada às curvas, deste automóvel à beira da estrada, deste aviso, / desta turbulência tranquila de sensações desencontradas, / desta transfusão, desta insubsistência, desta convergência iriada, / deste desassossego no fundo de todos os cálices, / desta angústia no fundo de todos os prazeres, / desta saciedade antecipada na asa de todas as chávenas, / (…). // não sei se a vida é pouco ou demais para mim. / não sei se sinto de mais ou de menos, não sei / se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência, / consanguinidade com o mistério das coisas, choque / aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos, / ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz. // seja o que for, era melhor não ter nascido, / porque, de tão interessante que é a todos os momentos, / a vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger, / a dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair / para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas, / e ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos, / entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs, / e tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso, / com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida. // cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços, / é preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas… / por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro, / tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca… / que há de ser de mim? que há de ser de mim? // correram o bobo a chicote do palácio, sem razão, / fizeram o mendigo levantar-se do degrau onde caíra. / bateram na criança abandonada e tiraram-lhe o pão das mãos. / oh mágoa imensa do mundo, o que falta é agir… / tão decadente, tão decadente, tão decadente… / só estou bem quando ouço música, e nem então. (…) // como um bálsamo que não consola senão pela ideia de que é um bálsamo, / a tarde de hoje e de todos os dias pouco a pouco, monótona, cai. // (…) assim fico, fico… eu sou o que sempre quer partir, / e fica sempre, fica sempre, fica sempre, / até à morte fica, mesmo que parta, fica, fica, fica… / torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito. / só humanitariamente é que se pode viver. / só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos, / só assim – ai de mim! -, só assim se pode viver. / só assim, o noite, e eu nunca poderei ser assim! // vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo, / mas tudo ou sobrou ou foi pouco – não sei qual – e eu sofri. / vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos, / e fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse. / amei e odiei como toda gente, / mas para toda a gente isso foi normal e instintivo, / e para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo. // (…) sinto na minha cabeça a velocidade de giro da terra, / e todos os países e todas as pessoas giram dentro de mim, / centrífuga ânsia, raiva de ir por os ares até aos astros / bate pancadas de encontro ao interior do meu crânio, / põe-me alfinetes vendados por toda a consciência do meu corpo, / faz-me levantar-me mil vezes e dirigir-me para Abstrato, / para inencontrável, Ali sem restrições nenhumas, / a Meta invisível — todos os pontos onde eu não estou — e ao mesmo tempo… // (…) // (…) eu, sinto que ficou fora do que imaginei tudo o que quis, / que embora eu quisesse tudo, tudo me faltou. // (…) // meu ser elástico, mola, agulha, trepidação /// álvaro de campos, in “poemas”. heterônimo de fernando pessoa.

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TEXTOS DO MEIO. Garimpados e fabricados lá pelas 18h30 do dia.

Lista do dia.

Fiz um texto e não consegui publicar. tendo passado doze horas fico pensado se devo publica-lo (e que se publique) já que  “a medida em que havíamos atingido nosso fim principal: ver claro em nós mesmos.

Ouço sem parar Secos & Molhados. Por que? Porque Izabel insiste em ouvi-lo. Porque troquei uma Tevê um aparelho de som. Porque assim posso desafinar e mexer o corpo desorganizadamente. As tardes são assim…

Coisas pesquisadas por agora: http://www.protecto.com.br/artigos/reparo3.htm ; http://www.unama.br/novoportal/ensino/graduacao/cursos/engenhariacivil/attachments/article/125/corrosao_concreto_armado.pdf ; http://www.texsa.com.br/Livro%2007.htm ;

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TEXTOS DE DEPOIS DO FIM… Lá pelas 22h00. Tanto mar, porque o alecrim além do gosto e do cheiro é sonoro e pode ser trabalhado num contexto histórico-sociológico, pá.  “(…) // Sei que há léguas a nos separar / Tanto mar, tanto mar / Sei também quanto é preciso, pá / Navegar, navegar //(…)”