Archive for the 'Ferreira Gullar – José Ribamar Ferreira' Category

brutti, sporchi e cattivi

[qua] 5 de dezembro de 2018

Acordei pensando nisto: de onde vem essa necessidade/mania de autossabotagem. Quando as coisas vão bem, ou mesmo não tão ruim assim… vem esse desejo de morte e de dor.

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Feios, sujos e malvados. É um puta filme… provavelmente vi em 2006/2007. Não me recordo se foi recomendação de sander (videobeta) ou de rafa (cineparedao). Mas desde então é um referência presente no meu imaginário. Assim como várias outras lições aprendidas com Rafaela e Sander.

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Hoje preciso ir trabalhar, porque se faltar mais um dia, tudo, além da implosão, explodira na cara de todos e a aparente normalidade desabara e serei descaradamente só destroços  e ruínas. Essa coisa disforme, retorcida e quebrada, sem nenhum véu.

Coleto questões para o jogo sociológico:

Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos:

Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.”

A sociologia brasileira surgiu no nordeste como forma de analisar os principais problemas que afligiam brasileiros a partir da chamada Herança colonial

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário entrando no campo da sociologia,

  1. a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para determinados leitores.

  2. a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido.

  3. o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor.

  4. a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores.

  5. a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor

E colo um TRECHO DO POEMA DE FERREIRA GULLAR.

images

19h08. tenho mais cinquenta minutos para responder algo… eu literalmente travei, não consigo sair do lugar. parte de mim diz: desiste, não vai dar… parte ainda diz… tenta, qualquer coisa é melhor que não tentar, você só precisa de duas… mas você não terminou de ler os textos…

19h12. joguei os dados. e nem essa trilha de fundo para manter foco, concentração e memória vai ajudar. desisto.

agora preciso segurar meu humor… não me devorar por dentro.

19h47 eu aqui projetando o futuro sem conseguir dar conta das coisas do cotidiano. um perdido.

Devo vários pedidos de desculpas.

o homem que engarrafava nuvens

[ter] 2 de junho de 2015

#1. lembrar transpor notas manuscritas sobre filme supracitado no título. [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#2. agora bem rápido… atrasado estou para reunião pela base e há assembleia da categoria em menos de uma hora e meia. o tempo voa… e eu deslizo como um caramujo. e o angustiante disto tudo é saber que a direção sindical cutista já armou o golpe contra a base. até o momento, contra a inúmeras faces do capital, entre elas a direção sindical, conseguimos contra-golpes que tem dado sobrevida a esta greve de resistência, e histórica. mas e agora josé? chapecó é para fud…

#3. corrigir falha da placa mãe – meus estresse da manhã.

#4. e estranhamento hoje estou sentindo-me humano. nem super, nem sub. apenas um sujeito repleto de defeitos que mais erra do que acerta, mas segue vivo, cheio de dúvidas, quase nenhuma certeza e atento aos olhares… e acenos.

#5. ir ao médico para ver essa alergia no nariz… estou a descascar-me.

#6. tomar nota/transcrever passagens das páginas 125 até 135 do livro «a desumanização» [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#7. sabe por que meus relacionamentos cedo ou tarde não dão certo?! porque em algum dado momento fecho-me em copas com alguma coisa que não consigo resolver – normalmente vinculado a algum sentimento de inferioridade. que tem sua origem lá na infância… nos abusos, no abandono… na violência física e verbal sofrida. é preciso romper isto que é da ordem do insconsciente trazendo para a ordem do autoconsciente… mas mesmo racionalizando ainda assim não impede-me de mergulhar na minha escuridão abissal.

engraçado como este pensamento hoje me veio de forma tão clara e exata: “eu sou um cara bacana, as pessoas gostam de mim… e eu noiando tudo”.

essa síntese deve-se a retomada da leitura – e abri aqui uma digressão para dizer que gosto e não gosto deste livro… porque me parece absurdo pensamentos tão profundos e complexos, na elaboração de referências e imagens, num ambiente tão esdrúxulo como local e idade dos personagens… mas isto pode ser apenas preconceito cultural. atentei-me para isto hoje. a possibilidade de ser apenas preconceito meu, e relaxei desta encanação…

mas voltando agora da digressão, eu dizia que: – a retomada da leitura e somada ao fato de estar a remoer há dias essa sensação de que… a vida, por mais que seja triste, é ainda absurdamente tão bela e surpreendente… mas eu sempre nessa dificuldade de aceitar… o que vem e, sobretudo, o que posso dar aos outros,

e a mim.

relaxa bicho. se deixe levar… afinal, como pensaste hoje pela manhã: nem super, nem sub.

#8. eu vou para chapecó.

#9. não esquecer do livropoema do gullar: Um gato chamado Gatinho.

***

você está ouvindo as palavras que saem de sua boca?

[ter] 21 de outubro de 2014

sabe.. quando você começa a falar, e vai ouvindo o que você fala, e aquilo vai te dando uma vontade danada de dar uma guinada na sua vida… e mergulhar mais profundamente na imensidão daquilo que há nas suas palavras… irromper para além da superfície do medo e atingir esse além…

hoje, falando sozinho, em pensamento, porque são poucos os momentos para diálogos… nas caronas quase diárias porque insisto em perder o ônibus quase todos os dias, ou em família – repleta de conflitos e surdeza… e no trabalho, no meu caso a escola, com os alunos. mas encerra ai, não há mais militância, não há festas ou amigos… não há aqueles papos e o sentimento de pertencimento… é uma vida um tanto solitária, de reclusão. um auto-exílio. mas o interessante é que no meio dessa fala, silenciosa, em que eu me enredava… veio aquela frase de zé ribamar… josé ribamar ferreira, meu querido poeta ferreira gullar, que diz: ‘eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz’. e brotou dentro do meu peito uma profunda vontade de ser feliz…

e a noite foi bem bacana. fui honesto, franco… criativo e com brilho nos olhos delirei em publico, transbordando essa poesia que há em mim e que as vezes se esvazia e some, mas nestes momentos assim transborda… contagia… e sinto tanta vontade de ser mais e além, de fazer com que os outros sintam o meu amor por mim, por este mundo, pelo que é justo e belo.

e por contraste: meu silêncio é o fruto impotente da constatação  de que meus atos não correspondem ao sonho de justiça e beleza que há dentro de mim. e este mundo é por demais feio e injusto que não há espaço para o silêncio. é preciso falar. é preciso sonhar. eu preciso agir.

e há sonhos profundos nas palavras. as palavras ditas com o que há de mais profundo, aquilo que brota do peito, são poderosas… vontade de ir ai e dizer não vim antes porque tive medo e estava perdido.

e num lapso, salto no tempo, ouço ecoar aqui dentro uma canção… «… Se fiquei esperando meu amor passar. / Já me basta que estava então longe de sereno. / E fiquei tanto tempo duvidando de mim. / Por fazer amor e por fazer sentido. / Começo a ficar livre / Espero. Acho que sim. / De olhos fechados não me vejo. / E você sorriu pra mim». 

que logo mais seja um bom dia. que eu encontre dentro de mim a coragem [para enfrentar o mundo estúpido e os meus medos diários] e a paciência [para com minhas limitações e oscilações… ]. e quem sabe, você sorri pra mim enquanto eu começo a ficar livre? que essa vontade de voar amanheça…

 

algumas doses

[dom] 31 de agosto de 2014

algumas doses de solidão.

TRADUZIR-SE de Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

***

If you hold a stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand
But if you hold the stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand

If you hold a stone, marinheiro só
Hold it in your hand, marinheiro só
If you feel the weight, marinheiro só
you’ll never be late, marinheiro só
To understand…

Ô, marinheiro marinheiro
Marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar
Marinheiro só
Ou foi o tombo do navio
Marinheiro só
Ou foi o balanço do mar
Marinheiro só

Caetano Veloso/Domínio Público

***

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar

***

palavras-chaves: autonomia (e escola da ponte… ) e insonia.

cartas ao mar

[qua] 3 de abril de 2013

Chove muito.

 

Diz assim na agenda. 02 de abril, terça.
é um doce nome de filha, é um belo nome de amada, lembra um pedaço de ilha, surgindo de madrugada.” Vinicius de Moraes.

E na vitrola toca cartola, 70 anos.
Eu iria escrever ontem, mas o tempo passou e ficou só o rascunho, que dizia assim…

Seg. 1/4. Indo para aula, ouvindo Karina Buhr. Dia medicado ainda.

“E a falta de imaginação me fez lembrar de você
De tarde, se anoitecer, tudo se acaba
E aí crio asas
E aí elas querem voar

Aqui é assim
O que a gente inventa a gente tem

E aí crio asas e aí elas querem voar”

Dom. 31/3. Dia dormido, e depois ouvindo Cartola, Calle 13, Buena Vista Social Club… A medicação me deixa sonolento. A canção tema do texto que comecei a escrever e não envie… nem terminei, seria “Não me ame tanto
Eu tenho algum problema com amor demais
Eu jogo tudo no lixo sempre

Não me ame tanto
não posso suportar um amor que é mais do que
o que eu sinto por dentro
penso”

O poema é confuso, mas tem o rosto da história brasileira: tisnado de sol, cavado de aflições, e no fundo do olhar, guarda um lampejo – um diamante duro como um homem e isso que obriga o exército a se manter de prontidão.” Ferreira Gullar.

Sab. 30/3. Dia de dona Izabel. Estudamos juntos, brincamos juntos e como é bonito vê-la crescer. A canção que tocou na vitrolinha como um mantra foi… (Com direito a Izabel imitando o sotaque delicioso de Karina)  Eu sou uma pessoa má. Eu menti pra você. 

Sex. 29/3. Cinema sozinho.  e a. Foi dia de ficar só. Trilha do dia… a boa e profunda levada de Karina… 

Qui. 28/3. Ufa, feriado. . Cinema para fazer companhia ao Japonês, que ‘tá meio na fossa com seu amor que não dá certo pela moça gaucha. E fazer valer a carterinha de sócio do cineclube. Trilha do dia foi  A pessoa morre depois de tanto verbo
A pessoa morre de fome
Depois de tanto verbo a pessoa morre
A pessoa morre
A pessoa morre

Qua. 27/3. “Há o homem no ar! Suspenso por fio transparente, pendendo entre o amor e o ódio, querendo a chave de si próprio.” Carla Dias.

Tive aulas boas. Estou trabalhando com os estudantes a questão de gênero dentro do sistema capitalista e movimentos sociais no terceiro ano; Poder, estado e capitalismo nos segundos anos; e a imaginação sociológica nos primeiros… Aulas boas. O rosto ainda está inchado, dolorido e estou bem cansado.

Ter. 26/3. Zero grana. Cirurgia. Colirio nos olhos e ao fundo, na via cortando o deserto ao meio, um balão laranja – a visão ‘tá perfeita, mas a boca meio desdentada ainda. Um pouco de dor e bem cansativo o dia. Devia ter pego um atestado e ter ido descançar.

Seg. 25/3. Dia mexendo na terra, podando, fazendo caminhos, plantando grama. e lá pelas 20h dar aula lá no centro.

Dom. 24/3. Dia de maratona, de ver arte, de mergulhar nos sonhos.

Sáb. 23/3. Seu baldecir, Edgar e Karina, Pi, Velha guarda da sociais, Murilo… Tantos abraços, tanta sensação boa. Dia bom – é bom saber que se é querido por tanta gente, mesmo quando ‘cê some e se esconde no meio do mato e não dá sinal de vida, do que sente por dentro, do que espera da vida. O que você espera da vida?

Sex. 22/3… Fica para uma outra vida.

 

Trilha sonora deste posto: CARTOLA 70 ANOS.

afrosambas…

[sáb] 24 de novembro de 2012

08:32 Berimbau. Baben Powel e Vinicius de Moraes

Quem é homem de bem não trai
O amor que lhe quer seu bem
Quem diz muito que vai, não vai
Assim como não vai, não vem
Quem de dentro de si não sai
Vai morrer sem amar ninguém
O dinheiro de quem não dá
É o trabalho de quem não tem

Capoeira que é bom não cai
Mas se um dia ele cai, cai bem
Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza, camará

Se não tivesse o amor
Se não tivesse essa dor
E se não tivesse o sofrer
E se não tivesse o chorar
Melhor era tudo se acabar

Eu amei, amei demais
O que eu sofri por causa de amor ninguém sofreu
Eu chorei, perdi a paz
Mas o que eu sei é que ninguém nunca teve mais, mais do que eu

Capoeira me mandou dizer que já chegou
Chegou para lutar
Berimbau me confirmou vai ter briga de amor
Tristeza camará

8:42 “Escrever é fugir da emoção”. de T. S. Eliot, segundo Ferreira Gullar, no documentário Vinicius de Moraes.

8:53 sei lá... toquinho e vinicius

Tem dias que eu fico pensando na vida 
E sinceramente não vejo saída. 
Como é, por exemplo, que dá pra entender: 
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação. 
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão. 
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.

A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer 
Que nada renasce antes que se acabe, 
E o sol que desponta tem que anoitecer.

De nada adianta ficar-se de fora. 
A hora do sim é o descuido do não. 
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão. 
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

9:30 Dona Izabel narrava seus amores, eu lhe contava dos meus.

9:50 (…) A la Molina no voy más porque echan azote’ sin cesar (…)

10:00 Mateava e proseava, descobria os primeiros amores de dona maria, a vó; e redescobria que a primeira garota, ela com 6 e eu com 4, a me namorar fora a sidania.

11:50 teve berinjela recheada no almoço

13:00 estudando

17:00 internet, fiquei em 7º classificação para ACT no ensino regular, 5º no ACT para CEJA, e entre os 30 melhores no Concurso público (apenas 7 vagas na primeira chamada).

17:34 editando este post aqui.

brecht, romano, gullar…

[qui] 1 de maio de 2008

Meus senhores, é mesmo um problema / Esse desemprego!
Com satisfação acolhemos / Toda oportunidade / De discutir a questão.
Quando queiram os senhores! A todo momento!
Pois o desemprego é para o povo / Um enfraquecimento.
Para nós é inexplicável / Tanto desemprego.
Algo realmente lamentável / Que só traz desassossego.
Mas não se deve na verdade / Dizer que é inexplicável / Pois pode ser fatal
Dificilmente nos pode trazer / A confiança das massas / Para nós imprescindível.
É preciso que nos deixem valer / Pois seria mais que temível
Permitir ao caos vencer / Num tempo tão pouco esclarecido!
Algo assim não se pode conceber / Com esse desemprego! / Ou qual a sua opinião?
Só nos pode convir / Esta opinião: o problema / Assim como veio, deve sumir.
Mas a questão é: nosso desemprego /Não será solucionado
Enquanto os senhores não / Ficarem desempregados!
” Bertold Brecht

—-

Eppur si muove

Não se pode calar um homem.
Tirem-lhe a voz, restará o nome.
Tiram-lhe o nome / e em nossa boca restará / a sua antiga fome…

Mente quem fala que quem cala consente.
Quem cala, às vezes, re-sente,
Por trás dos muros dos dentes,
edifica-se um discurso transparente…

A ausência da voz / é, mesmo assim, um discurso…
Ah, o silêncio é um discurso invertido / modo de falar alto / -proibido.

Se um silencio é demais,
quando é de dois, geminado,
mais que silêncio / -é perigo,
é uma forma de ruido.

Por isso que o silêncio / da consciência,
quando passa a ser ouvido / não é silêncio / -é estampido.

Affonso Romano de Sant’ Anna

Poema Obsceno

Façam a festa
cantem e dancem
que eu faço o poema duro
o poema-murro
sujo
como a miséria brasileira
Não se detenham:
façam a festa
Bethânia Martinho
Clementina
Estação Primeira de Mangueira Salgueiro
gente da Vila Isabel e Madureira
todos
façam
a nossa festa
enquanto eu soco este pilão
este surdo
poema
que não toca no rádio
que o povo não cantará
(mas que nasce dele)
Não se prestará a análises estruturalistas
Não entrará nas antologias oficiais
Obsceno
como o salário de um trabalhador aposentado
o poema
terá o destino dos que habitam o lado escuro do país
– e espreitam

(Na vertigem do dia)

Ferreira Gullar [ http://www.scipione.com.br/educa/oficinas/literatura/gullar/poesia.htm ]

lição de gato siamês

[sáb] 29 de março de 2008

na reunião de planejamento… a leitura compulsiva.

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
– dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo).

Lição de gato siamês. Ferreira Gullar

Entreter-se:
À vida falta uma parte
-seria o lado de fora-
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa
e no final fosse apenas
um tempo de que se acorda
não um sono sem reposta.
À vida falta uma porta.

Ferreira Gullar

Nós, Latinos-Americanos somos todos irmãos…
Mas não porque tenhamos a mesma mãe e o mesmo pai: temos é o mesmo parceiro que nos trai.

Somos todos irmãos não porque dividamos o mesmo teto e a mesma mesa: divisamos a mesma espada
sobre nossa cabeça.

Somos todos irmãos não porque tenhamos o mesmo berço, o mesmo sobrenome: temos um mesmo trajeto
de sanha e fome.

Somos todos irmãos não porque seja o mesmo sangue que no corpo levamos: o que é o mesmo é o modo como o derramamos.
.
Ferreira Gullar

sobre as peras e a vida e o caminho..

[sáb] 13 de outubro de 2007

“caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar”

«Sobre as peras e a vida

Haverá lugar para a poesia? Affonso Romano de Sant’Anna se pergunta em seu longo poema A Grande Fala do Índio Guarani: “Onde lerei eu os poemas do meu tempo?” Onde estarão os Maiakoviski, os Brecht? Em que viela do destino se esconde o Rilke de hoje? Ou, em nossa América, em qual ventre amadurece o novo Vallejo? Em que lugar Benedetti ainda se pergunta: por que cantamos? Os poetas são filhos do tempo e se constroem no difícil amálgama do mundo e das pessoas insatisfeitas com as formas dadas. Lukács teria dito que a arte é, em parte, fruto da inadequação entre a alma e a ação, acabando por “introduzir no universo das formas a incoerência estrutural do mundo”. Insatisfação que foi expressa, por exemplo, quando Maiakoviski acreditou que seu mais eloqüente epitáfio pudesse ser: “Dize aos séculos futuros pelo menos isto: que eu estou em chamas”. Insatisfação como aquela das peras de Ferreira Gullar que “gastaram-se no fulgor de estarem prontas para nada”, e seu galo canta, pois “cantando o galo é sem morte”. Por isso cantamos, porque como as peras sabemos que o melhor da vida é a mordida.

Sobre a vida das peras
Uma pera
pode passar a sua vida
sob o domínio das folhas
colhendo os carinhos do vento
até despencar na podridão do humus

O que
uma
pera
realmente
sabe
da
vida
é o prazer
da
mordida»

[Mauro Iasi]

gato siamês

[seg] 15 de maio de 2006

Lições de um gato siamês
Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Ferreira Gullar

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