Archive for the 'Ferreira Gullar – José Ribamar Ferreira' Category

o homem que engarrafava nuvens

[ter] 2 de junho de 2015

#1. lembrar transpor notas manuscritas sobre filme supracitado no título. [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#2. agora bem rápido… atrasado estou para reunião pela base e há assembleia da categoria em menos de uma hora e meia. o tempo voa… e eu deslizo como um caramujo. e o angustiante disto tudo é saber que a direção sindical cutista já armou o golpe contra a base. até o momento, contra a inúmeras faces do capital, entre elas a direção sindical, conseguimos contra-golpes que tem dado sobrevida a esta greve de resistência, e histórica. mas e agora josé? chapecó é para fud…

#3. corrigir falha da placa mãe – meus estresse da manhã.

#4. e estranhamento hoje estou sentindo-me humano. nem super, nem sub. apenas um sujeito repleto de defeitos que mais erra do que acerta, mas segue vivo, cheio de dúvidas, quase nenhuma certeza e atento aos olhares… e acenos.

#5. ir ao médico para ver essa alergia no nariz… estou a descascar-me.

#6. tomar nota/transcrever passagens das páginas 125 até 135 do livro «a desumanização» [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#7. sabe por que meus relacionamentos cedo ou tarde não dão certo?! porque em algum dado momento fecho-me em copas com alguma coisa que não consigo resolver – normalmente vinculado a algum sentimento de inferioridade. que tem sua origem lá na infância… nos abusos, no abandono… na violência física e verbal sofrida. é preciso romper isto que é da ordem do insconsciente trazendo para a ordem do autoconsciente… mas mesmo racionalizando ainda assim não impede-me de mergulhar na minha escuridão abissal.

engraçado como este pensamento hoje me veio de forma tão clara e exata: “eu sou um cara bacana, as pessoas gostam de mim… e eu noiando tudo”.

essa síntese deve-se a retomada da leitura – e abri aqui uma digressão para dizer que gosto e não gosto deste livro… porque me parece absurdo pensamentos tão profundos e complexos, na elaboração de referências e imagens, num ambiente tão esdrúxulo como local e idade dos personagens… mas isto pode ser apenas preconceito cultural. atentei-me para isto hoje. a possibilidade de ser apenas preconceito meu, e relaxei desta encanação…

mas voltando agora da digressão, eu dizia que: – a retomada da leitura e somada ao fato de estar a remoer há dias essa sensação de que… a vida, por mais que seja triste, é ainda absurdamente tão bela e surpreendente… mas eu sempre nessa dificuldade de aceitar… o que vem e, sobretudo, o que posso dar aos outros,

e a mim.

relaxa bicho. se deixe levar… afinal, como pensaste hoje pela manhã: nem super, nem sub.

#8. eu vou para chapecó.

#9. não esquecer do livropoema do gullar: Um gato chamado Gatinho.

***

você está ouvindo as palavras que saem de sua boca?

[ter] 21 de outubro de 2014

sabe.. quando você começa a falar, e vai ouvindo o que você fala, e aquilo vai te dando uma vontade danada de dar uma guinada na sua vida… e mergulhar mais profundamente na imensidão daquilo que há nas suas palavras… irromper para além da superfície do medo e atingir esse além…

hoje, falando sozinho, em pensamento, porque são poucos os momentos para diálogos… nas caronas quase diárias porque insisto em perder o ônibus quase todos os dias, ou em família – repleta de conflitos e surdeza… e no trabalho, no meu caso a escola, com os alunos. mas encerra ai, não há mais militância, não há festas ou amigos… não há aqueles papos e o sentimento de pertencimento… é uma vida um tanto solitária, de reclusão. um auto-exílio. mas o interessante é que no meio dessa fala, silenciosa, em que eu me enredava… veio aquela frase de zé ribamar… josé ribamar ferreira, meu querido poeta ferreira gullar, que diz: ‘eu não quero ter razão, eu quero é ser feliz’. e brotou dentro do meu peito uma profunda vontade de ser feliz…

e a noite foi bem bacana. fui honesto, franco… criativo e com brilho nos olhos delirei em publico, transbordando essa poesia que há em mim e que as vezes se esvazia e some, mas nestes momentos assim transborda… contagia… e sinto tanta vontade de ser mais e além, de fazer com que os outros sintam o meu amor por mim, por este mundo, pelo que é justo e belo.

e por contraste: meu silêncio é o fruto impotente da constatação  de que meus atos não correspondem ao sonho de justiça e beleza que há dentro de mim. e este mundo é por demais feio e injusto que não há espaço para o silêncio. é preciso falar. é preciso sonhar. eu preciso agir.

e há sonhos profundos nas palavras. as palavras ditas com o que há de mais profundo, aquilo que brota do peito, são poderosas… vontade de ir ai e dizer não vim antes porque tive medo e estava perdido.

e num lapso, salto no tempo, ouço ecoar aqui dentro uma canção… «… Se fiquei esperando meu amor passar. / Já me basta que estava então longe de sereno. / E fiquei tanto tempo duvidando de mim. / Por fazer amor e por fazer sentido. / Começo a ficar livre / Espero. Acho que sim. / De olhos fechados não me vejo. / E você sorriu pra mim». 

que logo mais seja um bom dia. que eu encontre dentro de mim a coragem [para enfrentar o mundo estúpido e os meus medos diários] e a paciência [para com minhas limitações e oscilações… ]. e quem sabe, você sorri pra mim enquanto eu começo a ficar livre? que essa vontade de voar amanheça…

 

algumas doses

[dom] 31 de agosto de 2014

algumas doses de solidão.

TRADUZIR-SE de Ferreira Gullar

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

***

If you hold a stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand
But if you hold the stone, hold it in your hand
If you feel the weight, you’ll never be late
To understand

If you hold a stone, marinheiro só
Hold it in your hand, marinheiro só
If you feel the weight, marinheiro só
you’ll never be late, marinheiro só
To understand…

Ô, marinheiro marinheiro
Marinheiro só
Ô, quem te ensinou a nadar
Marinheiro só
Ou foi o tombo do navio
Marinheiro só
Ou foi o balanço do mar
Marinheiro só

Caetano Veloso/Domínio Público

***

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis

sem começo
nem fim

          aqui me tenho
sem mim

nada lembro
nem sei

à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar

***

palavras-chaves: autonomia (e escola da ponte… ) e insonia.

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