Archive for the 'Friedrich Wilhelm Nietzsche' Category

apocalipse, uau!

2018, novembro 21, quarta-feira

tomando notas:

não falar de mim. dessa dificuldade de sair e ver as pessoas… apenas anotar o que lê, vê e delira.

«- “Onde estão as armas?”
Pergunta carrancudo o policial armado para o combate.
– “Na biblioteca” .
Respondeu o filósofo. 
E na biblioteca encontraram muitos livros. »

***

«4. Enfim, o pós-modernismo ameaça encarnar hoje estilos de vida e de filosofia nos quais viceja uma ideia, tida como arqui-sinistra: o niilismo, o nada, o vazio, a ausência de valores e de sentido para a vida. Mortos Deus e os grandes ideais do passado, o homem moderno valorizou a Arte, a História, o Desenvolvimento, a Consciência Social para se salvar. Dando adeus a essas ilusões, o homem pós-moderno já sabe que não existe Céu nem sentido para a História, e assim se entrega ao presente e ao prazer, ao consumo e ao individualismo. E aqui você pode escolher entre ser:
a) a criança radiosa — o indivíduo desenvolto, sedutor, hedonista integrado à tecnologia, narcisista com identidade móvel, flutuante, liberado sexualmente, conforme o incensam Lipovestsky, Fiedler e Toffler, alegres gurus que vamos visitar logo mais;
b) o andróide melancólico — o consumidor programado e sem história, indiferente, átomo estatístico na massa, boneco da tecnociência, segundo o abominam Nietzsche e Baudrillard, Lyotard, profetas do apocalipse cujo evangelho também vamos escutar.
Assim, tecnociência, consumo personalizado, arte e filosofia em torno de um homem emergente ou decadente são os campos onde o fantasma pós-moderno pode ser surpreendido. (pp. 10-11) (…) Ora, descobriu-se há alguns anos, com a Lingüística, a Antropologia, a Psicanálise, que, para o homem, não há pensamento, nem mundo (nem mesmo homem), sem linguagem, sem algum tipo de Representação. Mais: a linguagem dos meios de comunicação dá forma tanto ao nosso mundo (referente, objeto), quanto ao nosso pensamento (referência, sujeito). Para serem alguma coisa, sujeito e objeto passam ambos pelo signo. A pós-modernidade é também uma Semiurgia, um mundo super-recriado pelos signos. Quando nosso urbanóide, na fabulazinha, se sente irreal, o ego e o mundo surgindo-lhe vagos como um fantasma, é porque ele manipula cada vez mais signos em vez de coisas. Sua sensibilidade é frágil, sua identidade, evanescente. Na pós-modernidade, matéria e espírito se esfumam em imagens, em dígitos num fluxo acelerado. A isso os filósofos estão chamando desreferencialização do real e dessubstancialização do sujeito, ou seja, o referente (a realidade) se degrada em fantasmagoria e o sujeito (o individuo) perde a substância interior, sente-se vazio (pp. 15-16)»  SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é Pós-Moderno. São Paulo: Brasiliense, 2004. – Coleção primeiros passos; 165) 22ª reimpr. da 1ª ed. de 1986.

***

exercício noturnos. autoria b.

titri/trindade – florianópolis.

I – a esmo

caminhei a esmo
para não ficar
andando em círculos,
no mesmo pensamento.

II – anatomia da lágrima contida

sob a pálpebra
o filme lacrimal tem três camadas
mas há um embargo,
um amontoado de palavras não ditas,
verbo-pranto,
vazão represada
lágrima contida.

III – poe.a.mar-se

jogar palavras no papel
distrai a dor
que sufoca o peito.

não desata o nó,
o permanente impasse
deste corpo-linguagem,

mas desfaz o laço
ao poe.a.mar-se

IV – led

semáforos
faróis
lâmpadas
todos os tons
de amarelo, branco
verde, vermelho

e a espera da noite
sinaliza o caminho
pisca, da seta,
freia, adverte,
siga, mas não siga em vão…
venha, vá, não pare não…

brilha nessa escuridão.

***

“Marca Registrada” (1975, duração: 8’) de Letícia Parente

**

Robert-Longo-05

«Sword of the Pig» (1983, madeira pintada e serigrafia em alumínio) de Robert Longo

humano, demasiado humano

2018, outubro 25, quinta-feira

dia de terapia.

planejei o dia… não consegui fazer tudo. voltei para casa e fui dormir. há uma dor no peito.

devo ficar atento ao que provoca essa reação/necessidade de isolamento/recuo diante do outro -> trazer pra [contração da preposição para- com artigo definido -a] concretude do cotidiano -> exemplificar -> definir objeto de análise e estudá-lo [pronome oblíquo átono -o, que após a terminação verbal -z, -s, -r (forma infinitiva do verbo), assume a forma -lo, no caso, estudar+o (contração do verbo com o pronome, apaga-se a marca de infinitivo e de indicativo)].

***

«Nada impede tanto ser natural quanto o desejo de parecer.» François de La Rochefoucauld

***

Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche

auri sacra fames

2018, outubro 12, sexta-feira

auri sacras fames, por Eduardo Giannetti

«(…) Que sonhar coletivamente esteja cada dia mais difícil, como negar? Mas daí a acreditar que tudo isso seja um traço singular da nossa época ou possa ser atribuído a vagas explicações holísticas, há uma enorme distância.
Como antídoto dessa atitude, tomo a liberdade de convidar o leitor a percorrer esta breve antologia da história do pensamento -clássico, cristão e moderno- sobre um tema que é tão perene quanto humano, demasiado humano: a paixão imoderada pela riqueza. Meu intuito é oferecer um rasgo de perspectiva histórica e, quem sabe, insuflar a perplexidade.

“Estar satisfeito com a nossa própria riqueza é a maior e mais segura riqueza… Nada é mais revelador de um espírito pequeno e mesquinho do que o amor à riqueza; nada mais honorável do que desprezar o dinheiro se você não o possui, mas dedicá-lo à beneficência se você o possui”. (Cícero, séc. 2 a.C.)

“Quando surgiu a propriedade e o ouro foi descoberto, a força e a beleza perderam muito do seu brilho. Pois não importa quão belos ou fortes sejam os homens, eles em geral seguem atrás do mais rico”. (Lucrécio, séc. 1 a.C.)

“Quem liga para a reputação se consegue agarrar seu dinheiro?” (Juvenal, séc. 1 d.C.)

“O amor ao dinheiro é a raiz de todos os males. (S. Paulo, séc. 1 d.C.)

“Toda riqueza provém do pecado. Ninguém pode ganhar sem que alguém perca. Se o pecado não foi cometido pelo atual proprietário da riqueza, então a riqueza é produto do pecado cometido por seus antepassados. (S. Jerônimo, séc. 4 d.C.)

“O ouro é uma coisa maravilhosa! Seu dono é o senhor de tudo o que deseja. O ouro faz até mesmo as almas entrarem no paraíso.” (Colombo, 1503)

“Os ingleses têm pouco que desvie sua atenção do trabalho ou que diminua o domínio que têm sobre eles aquela propensão que é a paixão dos que não têm qualquer outra e cuja satisfação compreende tudo que eles imaginam como sendo sucesso na vida -o desejo de tornar-se mais rico. (J. S. Mill, 1848)

“O comércio é natural e, portanto, vergonhoso. O menos vil de todos os comerciantes é o que diz: `Sejamos virtuosos, já que assim ganharemos mais dinheiro do que os tolos desonestos’. Para o comerciante até a honestidade é especulação financeira. (Baudelaire, 1864)

“Por toda parte parece estar se espalhando algum tipo de droga, um comichão para a devassidão. As pessoas tornaram-se sujeitas a uma distorção de idéias sem precedentes, uma idolatria em massa do materialismo. Por materialismo, neste caso, refiro-me à idolatria do dinheiro pelas pessoas, à adoração do poder inerente a um saco de ouro. Subitamente parece ter ocorrido às pessoas a noção de que o tal saco contém todo o poder e que tudo o que lhes foi dito e ensinado até o presente por seus pais é bobagem… Repito: alguma coisa saturada de materialismo e ceticismo está se espalhando pelo ar, uma adoração do ganho fortuito, do desfrute sem trabalho. Toda fraude, toda vilania é perpetrada a sangue frio; as pessoas são assassinadas para que se roube, nem que seja um rublo, dos seus bolsos. (Dostoievsky, 1876)

“Um utiliza pesos falsos, outro põe fogo na casa depois de fazer um bom seguro, um terceiro falsifica moedas e três quartos da mais alta sociedade se dedicam à fraude lícita, tendo só ações e especulação na cabeça: o que os impele? Não a necessidade, pois seus negócios não vão mal… O que os aflige e impele, dia e noite, são uma terrível impaciência diante da lentidão pela qual seu dinheiro se acumula e um prazer igualmente terrível diante do dinheiro acumulado… Os meios utilizados pelo desejo de poder são outros, mas o mesmo vulcão continua ardendo e o amor desmesurado reclama o seu sacrifício. O que antes se fazia `por amor a Deus’, faz-se hoje por amor ao dinheiro, quer dizer, em nome daquilo que agora dá a máxima sensação de poder e boa consciência. (Nietzsche, 1881)

“O impulso à aquisição, à busca do ganho, do dinheiro, da maior quantidade possível de dinheiro, não tem nada a ver com o capitalismo. Tal impulso existe e tem existido entre garçons, médicos, artistas, cocheiros, prostitutas, funcionários desonestos, soldados, nobres, cruzados, apostadores e mendigos. Pode-se dizer que ele tem sido comum a todos os tipos de homens, de todas as condições, em todas as épocas e países do planeta, onde quer que a possibilidade objetiva dele exista ou tenha existido. (Weber, 1920)

“Quando a acumulação de riqueza já não for mais de alta importância social, haverá grandes mudanças no código de ética… Estaremos, então, em condições de ousar atribuir ao motivo-monetário o seu verdadeiro valor. O amor pelo dinheiro… será reconhecido pelo que ele é, uma morbidez bastante repulsiva, uma dessas propensões semicriminosas e semipatológicas que se conduz com um arrepio para os especialistas em doenças mentais. (Keynes, 1930)

“Aquilo que o homem atual típico deseja conseguir com o dinheiro é mais dinheiro, com o objetivo de ostentar e sobrepujar àqueles que eram até então seus iguais… Mais do que isso: fez-se do dinheiro a medida aceita da inteligência. Aquele que ganha muito é esperto; aquele que não, não é. Ninguém gosta de ser visto como um tolo. (Bertrand Russell, 1930)

“Quem compreender o macaco fará mais pela metafísica do que Locke. (Darwin, anotação solta, 1856)»