Archive for the 'José Pacheco – José Francisco de Almeida Pacheco' Category

ser mais que uma besta de carga

[qui] 6 de abril de 2017

11h04 só para registro:

dormi mal. o corpo não aguentou e desmaiou… acordei todo quebrado e um pouco cansado. acordei tarde. derrubei o pote de moedas antigas. quase furei o olho na bomba do mate. percebi que o vencimento de duas contas não era hoje, como eu imaginava… foi ontem, pagavéis somente na caixa, que merda. não fechou nem a primeira semana do mês e já estou devendo pra umbando de gente. triste.

sem contar as 5oo avaliações sobre a mesa me esperando…

***

14h42 outras notas:

mateei, almocei, organizei os papeis por turma… carai… é muita coisa. mas não toquei em nada. sigo me enrolando… deixando as horas passarem. tirei essa citação abaixo da timeline do didi

«O tempo é o campo do desenvolvimento humano. O homem que não disponha de nenhum tempo livre, cuja vida – afora as interrupções puramente físicas, do sono, das refeições etc. – esteja toda ela absorvida pelo seu trabalho para o capitalista, é menos que uma besta de carga. É uma simples máquina, fisicamente destroçada e brutalizada intelectualmente, para produzir riqueza para outrem. E, no entanto, toda a história da indústria moderna revela que o capital, se não tiver um freio, tudo fará, implacavelmente e sem contemplações, para conduzir toda a classe operária a esse nível de extrema degradação». “Trabalho assalariado e capital & salário, preço e lucro” de K. Marx (Ed. Expressão Popular)

23h32 nota final.

numa noite debatendo sobre avaliação (e nos insurgindo contra a normativa do governo), mas que no frigir dos ovos… não tocamos em nenhum ponto dessa fala abaixo, lida por acaso, por agora (pra ser honestos, passamos muito longe – anoto para o dia em que eu ressuscitar):

Diz que numa aula não se aprende nada, que os exames são o método mais falível que existe, que chumbar é a prova que a escola não funciona. O que pode ser diferente? Como se avalia um aluno?
A afirmação é radical. Mas toda a regra tem exceção. Aprendi Francês escutando aula, porque me apaixonei pela professora. A aprendizagem é antropofágica. Não se aprende o que o outro diz, apreendemos o outro. Um professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. Poderá acontecer aprendizagem em sala de aula, se forem criados vínculos e esses vínculos não são apenas afetivos, também são do domínio da emoção, da ética, da estética… O que dizer da avaliação? Que quase não existe, nas escolas. Um ministro de má memória introduziu mais exames no sistema. Mais exames não melhoram o sistema, porque não é a preocupação com o termómetro que faz baixar a temperatura. O teste é o instrumento de avaliação mais falível que existe. Conceber itens de teste, garantir fidelidade e tudo mais é um exercício extremamente rigoroso, assim como assegurar que as condições são as mesmas para todos quando se aplica o teste. Além disso, corrigir o teste também introduz uma subjetividade enorme. Esses instrumentos de avaliação apenas «provam» a capacidade de acumulação cognitiva, de armazenamento de informação em memória de curto prazo, para debitar no exame e esquecer.

Qual é então o modelo de avaliação que preconiza?
A avaliação praticada na Ponte e no Projeto Âncora é aquela que a lei estabelece: avaliação formativa, contínua e sistemática. Em muitas escolas aplica-se o teste e dá-se uma nota sem saber o que se faz. Há quem confunda avaliação com classificação e dê a nota a partir dos resultados dos testes.

extraída de:  José Pacheco: «Procurem nas escolas professores que ainda não tenham morrido». disponível em: http://www.noticiasmagazine.pt/2017/jose-pacheco/

quando vier a primavera

[qua] 12 de novembro de 2014

citações:

Alberto Caeiro // Quando Vier a Primavera

«Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.»

mais trecho do livro do pacheco:

«[…] Fala-se muito de desenvolvimento, de cooperação e de reforço do poder dos professores, as as tendências dominantes continuam a ser a centralização, a uniformização e a racionalização”¹. O discurso da autonomia pode desempenhar uma poderosa função ideológica “estimulando o sentido de eficácia pessoal, mas também promovendo a subordinação do indivíduo ao controle organizativo”². Será necessário, portanto, promover a distinção entre uma autonomia formal e uma concepção democratizante de autonomia geradora de modalidades de intervenção formativa distintas da participação formal de professores em ações condicionadas pela instrumentalidade e a racionalidade técnica. […] No círculo, é essa autonomia de novo tipo que realça a inutilidade de controle exterior. Os professores detêm um efetivo controle sobre o seu próprio trabalho e o entendimento de que a inteligibilidade do real sofre uma erosão constante. […] 

Temos de mudar e a mudança faz-se à custa de sofrimentos e compreensão de nós próprios e dos outros […] precisamos de ser profissionais e não professores em part-time […] ao longo de todo o ano escolar, travei uma luta comigo no sentido de ser diferente, como professor, mais autônomo e mais ativo. Penso que não o consegui totalmente e que ainda estou a aprender a ser autônomo para criar alunos autônomos.»

1. APPLE, M. & JUNGCK. ‘No hay que ser maestro para enseñar esta unidad‘. Revista de educación, 291, 1990, p.149.
2. BALL, A. (1989). ‘La micropolítica de la escuela‘. Apud CORREIA, J. Formatividade e profissionalidade docentes. Porto, 1993, p. 13 [mimeo.].

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e para fechar… mais um video do projeto “Um Poema por Semana” – é uma ideia de Paula Moura Pinheiro – confira mais em: www.rtp.pt/umpoemaporsemana;

O Sentimento dum Ocidental // Cesário Verde «[...] Nas nossas ruas, ao anoitecer, Há tal soturnidade, há tal melancolia, Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.[...]»

 

 

 

por vezes, o nosso destino parece uma árvore de fruto no inverno…

[sáb] 4 de outubro de 2014

As inserções no ‘uma natureza indócil‘ deveriam ter sido continuadas… mas o dia foi cheio e depois surgiram tantas coisas…

Acordei cedo hoje… E tive tempo para pensar. Eu, um mate e o tempo livre.

Faço esse registro – enquanto aguardo Izabel – com algumas citações que venho adiando e ponderações outras. Só por fazer… Só para não deixar o registro para algum outro dia. Essa semana foi tão agitada, com atentados ao estado policialesco e horário reduzido no transporte público. Foi uma semana sem aula… Para ser exato, apenas as três primeiras de segunda-feira. Foi, logo, uma semana de respiro. O acumulado virá semana próxima. Mas isto é próxima semana. E cadernos e leituras me dedicarei somente amanhã. Hoje é dar uma volta e jardinar – as preocupações são práticas e instantâneas.

A primeira citação era essa – uma citação feita por uma aluno na avaliação, de um texto do livro didático que menciona algumas ideias de Émile Durkheim, o sociólogo francês, um dos clássicos da sociologia:

«O mercado, adverte Durkheim, precisa de um ética que deverá ser mais forte do que a pura lógica econômica. Deixado sem freio, sem regra, sem norma, o mercado não tem limite. Tudo se vende e tudo se compra, se houver quem compre”»

***

Outra citação que faço é na verdade duas citações de outros e um fragmento de texto do próprio autor retiradas da leitura do livro – mencionado nesta postagem aqui: PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e transformação na educação. Petrópolis, RJ: 3ª ed. Vozes, 2010.

«E o desencanto, que começava a fazer-se sentir, atenuou-se, dissipou-se […] Por vezes, o nosso destino parece uma árvore de fruto no inverno. Ninguém diria que aqueles ramos hão de ficar verdes e florir novamente, mas nós temos confiança, nós sabemo-lo […] mas, juntamente, podemos refletir melhor e com mais profundidade. É preciso não estar sozinho.

Poder-se-á considerar sinal seguro do que além dos esquemas positivistas, ou mecanicistas, a circulação dos afetos […] constitui uma consolidação eficaz da estruturação social’; Esta poderá vir a ser, no futuro, menos dominada pela estreiteza racionalizadora das análises de circuitos de solidariedade, testemunhando um querer viver coletivo.
[…] A partilha mais profunda é aquela em que cada partilhante continua, o mais possível, ele próprio; na qual cada um possibilita rumos seguros a outras vidas, inventando sua própria existência no seio de práticas quotidianas tão seguras quanto incertas.

Talvez seja uma utopia, mas os professores estão precisando de construir novas utopias para a escola… A utopia é uma meta, é um desafio que obriga a grandes debates e a uma nova postura na profissão. Uma maneira de estar não-acomodada, como crítica e aberta… É preciso repensar tudo isto e por em causa o sistema: o que existe não funciona.»

***

E a canção de fundo: Ya estoy en la mitad de esta carretera / Tantas encrucijadas quedan detrás / Ya está en el aire girando mi moneda /Y que sea lo que /Sea / Todos los altibajos de la marea / Todos los sarampiones que ya pasé / Yo llevo tu sonrisa como bandera / Y que sea lo que / Sea / Lo que tenga que ser, que sea / Y lo que no por algo será / No creo en la eternidad de las peleas / Ni en las recetas de la felicidad / Cuando pasen recibo mis primaveras / Y la suerte este echada a descansar / Yo miraré tu foto en mi billetera / Y que sea lo que / Sea / Y el que quiera creer que crea / Y el que no, su razón tendrá / Yo suelto mi canción en la ventolera / Y que la escuche quien la quiera escuchar / Ya esta en el aire girando mi moneda / Y que sea lo que / Sea // Jorge Drexler.

Uma receita de felicidade [Rir muito e com frequência; ganhar o respeito de pessoas inteligentes e o afeto das crianças…] e Notas sobre utopia.

audições incidentais:

Sea - Pilar Cabrera
Sea - Jorge Drexler e Mercedes Sosa
Nowhere Man - Beatles


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dos fragmentos pensados dias desses… motes para futuras poesias: #estou descascando como cobra; #um amor à prova de vento; #a história não é uma linha reta…

já quase faço parte do mobiliário…

[dom] 7 de setembro de 2014

Da leitura de então:

“Somos por uma ‘escola aberta’ […] mas, na prática, o que se tem feito com os nossos alunos, para que aconteça abertura, criatividade?”[p. 74]

“Sinto muito o isolamento. Vou-me desmoralizando, vou deixando andar… Perdi iniciativa […] Reconheço que num trabalho de grupo trabalharia melhor […] já quase faço parte do mobiliário. Estou quase todo o tempo sozinha. [p.77]

narrativas de professor@s portugues@s que aparece no livro de Pacheco sobre as dificuldades de ensinagem e contradições da escola tradicional…

PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e transformação na educação. Petrópolis, RJ: 3ª ed. Vozes, 2010.

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“Desempenhei as minhas tarefas nos limites de minha posição política e de minha orientação socialista, deixando escrupulosamente essa condição muito clara, desde a primeira aula até a última. De outro lado, o estudante não é um ‘recipiente vazio’. Ele é um ser humano maduro e crítico. Pode compartilhar ou rejeitar o que lhe é oferecido nas salas de aula: um ensino totalmente livre e democrático não deve, portanto, fechar-se sobre a ‘neutralidade institucional’, que só é neutra do ponto de vista da irradiação das ideias e das ideologias consagradas pelas estruturas de dominação vigentes.”
Florestan Fernandes em A natureza sociológica da sociologia, 1980, p. 10.

círculos de estudo…

[dom] 24 de agosto de 2014

notas: meu corpo dói. ontem foi puxado o trabalho concreto de concretar uma laje. hoje, há quilos de páginas para devorar… e visita de crianças na casa, como equacionar necessária paz para ler e convivência com essa gente pequena?!

abaixo uma síntese de uma das leituras do momento (por curiosidade, por necessidade)

Escola da Ponte: formação e transformação da educação.

Exemplo de síntese de reflexão em círculo:
O círculo de estudo aproxima-se da ideia de projeto coletivo. Está implícito o princípio do paralelismo entre desenvolvimento pessoal e profissional, a harmonização entre o individual e o coletivo. Basta a afinidade com um problema comum a outros professores: as dificuldades sentidas na concretização de um projeto, a prática de uma ‘nova avaliação’ etc. Basta disponibilidade, cooperação, vontade de ajudar a abertura para ser ajudado. Basta poder recorrer, se necessário, a alguém que saiba integrar-se no grupo e apontar pistas de solução, alguém que apoie professores na síntese entre teoria e prática, que viabilize mudanças na prática pedagógica. O objetivo é o bem-estar no grupo, a melhoria das condições de trabalho do professor, que o mesmo é dizer dos alunos que ajudamos a crescer e a formar-se.

A experiência pioneira de formação protagonizada pela Escola da Ponte assumia que, para criar um tipo de relação social entre indivíduos em pé de igualdade e não uma situação hierárquica, a organização deve ser tal que permita uma relação direta entre todos os participantes, os quais, exprimindo-se e agindo diversamente, constituem uma comunidade de adultos em autoformação, que surge por princípios democráticos e não autoritários.
O quadro seguinte apresenta uma síntese dos contrastes entre o conceito de círculo e a formação de modelo escolar:

Em vez de:
. Professor (formador externo)
. Aluno
. Lição
. Ensino
. Livro didáticos
. Currículos
. Período
Utiliza-se:
. Coordenador de círculo (monitor interno)
. Participante
. Reunião (encontro)
. Estudo
. Material de estudo (centro de recursos e núcleo documental)
. Planos de estudo
. Época de estudo

Os grupos humanos transformam-se em inter-relação com os contextos físico e culturais, nos quais e com os quais se relacionam. O círculo será, nesta asserção, o que a escola é para um projeto político-pedagógico: uma organização com uma cultura própria. O percurso pessoal e coletivo de formação pressupõe dinâmicas de reconstrução da cultura pessoal, profissional e organizacional, alterações significativas nos sistemas de valores. Esta transformação dificilmente se concretiza confinada aos limites dos conteúdos e tempo de um curso. Envolvidos num processo contínuo e significativo, os professores poderão concordar com a compreensão do tipo de racionalidade que molda suas pressuposições e compreender de que modo essa racionalidade é mediadora da cultura dominante.
Passar da formação individual à formação em equipe é um processo cultural de difícil concretização, que fomenta dilemas perante os quais os professores acabam, inexoravelmente, por tomar posição. São imensos os riscos nesse processo, em que mecanismos formais de controle individual e preocupações relacionadas com a regulação do mercado de formação conflituam com a cultura de formação em circulo. A modernidade confirmou o triunfo da razão sobre a tradição e do universal sobre o particular mas, no auge do conflito de valores que herdamos, sobrevivem culturas intersticiais de curto prazo, movimentos precários, mas vitais para que a ciência compendiada ceda algum lugar a uma criatividade prospectiva.
Como condições potencializadoras de novas culturas, Maisonneuve refere ‘a interações dos processos sociais e psicológicos, no nível das condutas concretas, e as interações das pessoas e grupos no âmbito da vida quotidiana‘. No cruzamento destas interações emergem ‘círculos de cultura’, nos quais a cultura como ‘sal de formação’ será ‘a aquisição sistemática da experiência humana […] uma incorporação crítica e criadora e não uma justaposição de informes ou prescrições doadas’.
Dizia Paulo Freire que ‘temos que assumir o projeto do nosso sonho’ para obstar aos efeitos de uma modernidade que nos projetou para umaética individualista, uma macroética que nos impele de pedir, ou sequer pensar, responsabilidades por acontecimentos globais’. Para elaboração cultural desse ‘projeto do nosso sonho‘ justificar-se-á a construção de uma síntese comparativa entre valores e modos de pensamento que atravessam o contexto de elaboração. Três valores fundamentais norteiam a elaboração cultural nos círculos: o mutualismo (cooperação, solidariedade e interajuda, que são obstáculos à autonomia isolacionista e competitiva), autonomia crítica e transformadora (criatividade, senso crítico e responsabilidade, que conferem ao indivíduo a possibilidade de existir com os outros como pessoa livre e consciente) e democraticidade (pluralismo, participação social e assunção de cidadania, que definem o homem como interveniente e confirmam a transformação da substância e das estruturas da comunicação).

No círculo, a reflexividade concretiza-se em ciclos recursivos, que se desdobram em dois momentos: o momento do fazer, onde o saber se investe nas atividades, e o momento do saber, onde este, que é já conhecido na prática, se reelabora a um nível superior de formalização. A reflexividade não pode, porém, ser reduzida a esta alternância. No círculo, ela é um movimento protocolar entre formador interno e formador externo, no qual este toma, fundamentalmente, o desempenho de uma função de consultoria, a que círculo se abre por reconhecer indispensável a reflexividade externa.

Não existe um conhecimento profissional para cada caso-problema, que teria uma única solução correta. O profissional competente, que teria uma única solução correta. O profissional competente atua refletindo na ação, criando uma nova realidade, experimentando, corrigindo e inventando através do diálogo que estabelece com essa mesma realidade. Por isso, o conhecimento que o professor deve adquirir vai mais longe do que as regras, fatos, procedimentos e teorias estabelecidas pela investigação científica’. Como profissionais, os professores não só dispõem de um corpo sistemático de conhecimentos básicos, mas também de uma cultura comum: ‘sem sair do processo de produção real (como contraponto a uma alternância de situações de formação/situações de trabalho de eficácia discutível) e com o auxílio de dispositivos pensados, preparados e organizados, a pessoa em formação pode apropriar-se com força e pertinência dos saberes e dos saberes-fazer necessários à compreensão, conduta e acompanhamento dos processos profissionais ligados à sua função’. A formação, como processo complexo de apropriação crítica e criativa de elementos científicos, culturais e técnicos, implica a descentralização do sujeito-agente de autonomias vividas na resolução de problemas comuns. Nesta alquimia coletiva se engendram, estudam e solucionam problemas sociais e comunitários.  (p. 44 até p. 47)

engrenagem

[sex] 15 de agosto de 2014

«Chama-se suicídio todo o caso de morte que resulta, direta ou indiretamente, de um ato, positivo ou negativo, executado pela própria vítima, e que ela sabia que deveria produzir esse resultado». Émile Durkheim. O suicídio, 1897.

«No campo da formação ainda são escassos os estudos que incidam em efetivas transformações.O drama dos pesquisadores tem sido esse: a quem vive o quotidiano da escola, a quem investiga a todo o momento, não sobra tempo para fazer registros. Os que estudam ‘sobre’ as práticas observam, captam o supérfluo e generalizam-no. As conclusões de muitos estudos refletem a origem dos pesquisadores, raramente a realidade dos investigados. Mesmo quando são professores a conduzir os estudos, são professores com experiência de uma escola ‘tradicional’ fazendo, quase sempre, leituras que as suas representações permitem.
O drama dos que estão ‘dentro’ consiste em tudo parecer já ter sido dito pelos especialistas sobre a formação. No irônico contraponto com o real é extremamente difícil assumir a humildade curiosa de quem compreende que na formação contínua não existe ainda um edifício teórico coerente. Muitas pesquisas limitam-se à recolha de sequencias práticas, nem continuidade. Assentam em conclusões estáticas, produtos de modelos explicativos construídos a priori, ou (o que é ainda pior) são meras teorizações de teorias que legitimam-se umas às outras. Se a investigação sobre (ou na) formação não serve à transformação das práticas, para que serve?
Muita formação esgota-se em si mesma, é repositório de receitas avulsas debitadas sobre auditórios passivos. Os formadores são, em muitos casos, incapazes de concretizar em seus locais de trabalho as propostas que recomendam. Fazem apelo teórico à prática de ‘metodologias ativas’, mas a metodologia efetivamente utilizada não é, talvez, a mais importante, mas não poderá ser alienada. É inconcebível pois, que haja quem não tenha alguma vez passado por uma sala de aula e oriente formação de professores em domínios tão sensíveis como a alfabetização.
Manifestações como os círculos de estudo são, regra geral, remetidas para a periferia do sistema e assumem-se até elas próprias como marginais. Permanecem ignoradas, sem que delas se tome conhecimento, ou sobre elas se reflita. Não constituem novidade, pois estiveram presentes na gênese de grande parte dos movimentos pedagógicos nas três últimas décadas. Não são dispositivos redentores dos sortilégios dos modelos tradicionais de formação. ‘A autoformação ultrapassa os quadros sociais de vida. Ela parece ser a expressão de um processo de antropogênese que extravasa as estratificações sociais e educativas tradicionais. Compreender e trabalhar este processo obriga-nos a apoiar a reflexão sobre a autoformação […] nas ciências emergentes da autonomização». Págs. 36,37 e 38. PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e transformação na educação.

«às vezes acredito em mim mas às vezes não / às vezes tiro o meu destino da minha mão » Arnaldo Antunes. Acústico MTV.

 ps: fazer um poema sobre a ferrugem. outro sobre o cubo.

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