Archive for the 'Literatura brasileira – Poesia' Category

estou preso à vida e olho meus companheiros

2019, janeiro 3, quinta-feira

Sentimento do mundoIMG_0303

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.

***

Mãos dadas

IMG-20181210-WA0020-ANIMATION.gifNão serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista pela janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicidas,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987.
Sentimento do mundo/ Carlos Drummond de Andrade

inédito possível – contranarciso

2018, dezembro 19, quarta-feira

2h juliana escreveu isto: «Como discorre Gardner, não é utopia, apenas um inédito possível».

Será:

  • Michael E. Gardiner, autor de «The Dialogics of Critique: M.M. Bakhtin and the Theory of Ideology» [sem tradução para o pt-br]?

GOSTEI DA PESQUISA QUE FIZ… VOLTAR AQUI E LER MAIS COISAS DO PROF. GARDINER:

Publicações de periódicos referenciados
(2018) "Um autônomo Marcuse?"Repensando o marxismo 30 (2):232-25.
(2017) "Crítica do Aceleracionismo"Theory, Culture & Society 34 (1):29-52.
(2016) "Bakhtin na plenitude do tempo: a teoria bakhtiniana e o processo de educação social"(com Craig Brandist, Jayne White e Carl Mika), Educational Philosophy and Theory 2016:1-5.
(2016) "Bakhtin, Tédio e a 'Democratização do Ceticismo'The European Legacy 22 (2):163-184.
(2016) "Bakhtin e o 'general intellect'"Filosofia Educacional e Teoria 2016:1-16.
(2014) "A Multidão Contra-Ataca? Tédio na Era do Semiocapitalismo"New Formations , 82 (2):31-48 (edição especial sobre 'Mood Work').
(2012) "Henri Lefebvre e a 'Sociologia do Tédio'"Theory, Culture & Society 29 (2):37-62.
(2012) Ironia pós-romântica em Bakhtin e Lefebvre"História das Ciências Humanas 25 (3),51-69.]

acredito que o primeiro será mais promissor… mas não importa, há um punhado de coisas para ler e investigar.

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REINVENTANDO PAULO FREIRE O INÉDITO VIÁVEL

Paulo Freire trata da categoria do inédito viável nos livros Pedagogia do Oprimido e Pedagogia da Esperança, com espaço de 20 anos entre as duas publicações, uma na década de 1960, no exílio, e a outra já de retorno ao Brasil, na década de 1980.
A escritora e viúva de Paulo Freire, Ana Maria Araújo Freire, na Nota 1 do livro Pedagogia da Esperança, traz uma análise sobre o “inédito-viável”, reproduzida a seguir:

“Uma das categorias mais importantes porque provocativa de reflexões nos escritos da Pedagogia do Oprimido é o “inédito-viável”. Pouco comentada e arrisco dizer pouco estudada, essa categoria encerra nela toda uma crença no sonho possível e na utopia que virá, desde que os que fazem a sua história assim queiram, esperanças bem próprias de Freire.
Para Freire as mulheres e os homens como corpos conscientes sabem bem ou mal de seus condicionamentos e de sua liberdade. Assim encontram, em suas vidas pessoal e social, obstáculos, barreiras que precisam ser vencidas. A essas barreiras ele chama de “situações-limites”…

[continue a leitura aqui: REINVENTANDO PAULO FREIRE O INÉDITO VIÁVEL]

***

16h00 citando duas pessoas interessantes, uma que conheço e admiro, outra que ainda, um dia, gostaria de conhecer (anotei aqui porque dialogam com o tema de fundo e título desta postagem, ambos oriundos da citação anterior, acima, de juliana. todos via timeline, fb).

de luana,

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. 23ªed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

“A educação é um ato de amor, por isso, um ato de coragem. Não pode temer o debate. A análise da realidade. Não pode fugir à discussão criadora, sob pena de ser uma farsa.”

de diogo,

«Tá difícil pagar as sessões de terapia… Então, tô fazendo um convênio com o consultório de psicoterapia do Seu Zuckerberg. Vai aí a sessão de hoje:
As vezes, quando a gente se depara com um problema “nosso”, da nossa alma, do nosso jeito próprio de ser, olhando bem pra dentro da gente, a gente não vê nada!! Virou moda o “mindfullness”, e a receita da felicidade buscando o “eu interior”, o seu próprio “centro”, yoga, coisa e tal. Eu faço, mas confesso que não dava muito certo, porque eu olhava pro “meu interior” e não via nada… Claro (!), eu sou uma pessoa vazia, isso não é novidade (pelo menos pra mim). Mas nessa busca interior resolvi olhar pra fora. Como eu sou um tardo-iluminista desconfiei que a humanidade já deveria ter suspeitado do “meu” problema, e confiei que ela já tinha pensado numa resposta. Fui procurar… nos livros, claro! Mas o meu iluminismo não é de enciclopedista, e como não quis descambar pra Descartes, confie que o mundo dos afetos auxiliaria a razão pura. É, apelei pra poesia, não tinha outra. Meu iluminismo tem seus limites… Aí eu bati com a cara no Leminski. E ele me respondeu assim, com esse poeminha que tá logo ali embaixo. Batata!! Aí a “verdade universal” apareceu (claro, pra mim, tardo-iluminista): a humanidade já resolveu muito dos “meus” problemas, e me emprestou a solução pra eu resolver da minha forma o problema nosso de cada dia. Putz, não é que a centralidade do “Eu” está no “Nós”?!?! Dale, Leminski:

“em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando
estamos em nós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós” (Contranarciso, Paulo Leminski)»

Poema retirado da coletânea “Toda poesia”, ed. Cia. das Letras. Voz de Arnaldo Antunes.

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e ao lado o link para esse belo trabalho ‘vídeo do clipe de poema’  de Caio Henrique

23h09… estava quase dormindo, mas descobrir que o diogo tavares se foi, me despertou de uma forma incomoda. saltou… e o paraquedas reserva enrolou-se… tinha quase a minha idade.

23h51… edito tudo isto aqui: estava ali nos rascunhos… e na busca de referências, poemas e vídeos… cheguei nisto aqui:

Recalculando Rotas – Márcia Tiburi: Amor mamífero

brutti, sporchi e cattivi

2018, dezembro 5, quarta-feira

Acordei pensando nisto: de onde vem essa necessidade/mania de autossabotagem. Quando as coisas vão bem, ou mesmo não tão ruim assim… vem esse desejo de morte e de dor.

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Feios, sujos e malvados. É um puta filme… provavelmente vi em 2006/2007. Não me recordo se foi recomendação de sander (videobeta) ou de rafa (cineparedao). Mas desde então é um referência presente no meu imaginário. Assim como várias outras lições aprendidas com Rafaela e Sander.

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Hoje preciso ir trabalhar, porque se faltar mais um dia, tudo, além da implosão, explodira na cara de todos e a aparente normalidade desabara e serei descaradamente só destroços  e ruínas. Essa coisa disforme, retorcida e quebrada, sem nenhum véu.

Coleto questões para o jogo sociológico:

Leia o que disse João Cabral de Melo Neto, poeta pernambucano, sobre a função de seus textos:

Falo somente com o que falo: a linguagem enxuta, contato denso; falo somente do que falo: a vida seca, áspera e clara do sertão; falo somente por quem falo: o homem sertanejo sobrevivendo na adversidade e na míngua. Falo somente para quem falo: para os que precisam ser alertados para a situação da miséria no Nordeste.”

A sociologia brasileira surgiu no nordeste como forma de analisar os principais problemas que afligiam brasileiros a partir da chamada Herança colonial

Para João Cabral de Melo Neto, no texto literário entrando no campo da sociologia,

  1. a linguagem do texto deve refletir o tema, e a fala do autor deve denunciar o fato social para determinados leitores.

  2. a linguagem do texto não deve ter relação com o tema, e o autor deve ser imparcial para que seu texto seja lido.

  3. o escritor deve saber separar a linguagem do tema e a perspectiva pessoal da perspectiva do leitor.

  4. a linguagem pode ser separada do tema, e o escritor deve ser o delator do fato social para todos os leitores.

  5. a linguagem está além do tema, e o fato social deve ser a proposta do escritor para convencer o leitor

E colo um TRECHO DO POEMA DE FERREIRA GULLAR.

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19h08. tenho mais cinquenta minutos para responder algo… eu literalmente travei, não consigo sair do lugar. parte de mim diz: desiste, não vai dar… parte ainda diz… tenta, qualquer coisa é melhor que não tentar, você só precisa de duas… mas você não terminou de ler os textos…

19h12. joguei os dados. e nem essa trilha de fundo para manter foco, concentração e memória vai ajudar. desisto.

agora preciso segurar meu humor… não me devorar por dentro.

19h47 eu aqui projetando o futuro sem conseguir dar conta das coisas do cotidiano. um perdido.

Devo vários pedidos de desculpas.