Archive for the 'Manoel de Barros – Manoel Wenceslau Leite de Barros' Category

permanent reminder of a temporary feeling

2018, novembro 13, terça-feira

«“Permanent reminder of a temporary feeling” de Jimmy Buffett, do album “Beach house on the moon”. / Island Records, 1999. // She was no marine back from the Philippines / She was their pride and joy, their incarnation. / Her parents viewed the chief / With shock and disbelief / Looking for some other explanation. The Indian, her back was poised for an attack. / She said ‘a tattoo is a badge of validation’. / But the truth of the matter is far more revealing. / It’s a permanent reminder of a temporary feeling. / Permanent reminder of a temporary feeling / Amnesic episodes that never go away. / It’s no complex momento, it’s no subtle revealing. / Just a permanent reminder of a temporary feeling. / Vegas in the rain, drunk on cheap champagne / He hears out of tune synthesized chapel bells / Painfully ringing. / Where’s his limo ride? Who’s this foreign bride? / Is this really Elvis spinning round the ceiling? / Permanent reminder of a temporary feeling, / Forgotten fabrications in the chapels of love. / What is this ring on his finger? Why is he kneeling? / She’s just a permanent reminder of a temporary feeling. Chromosomes and genes, / spawn these fateful scenes. / Evolution can be mean, there’s no ‘dumb ass’ vaccine. / Blame your DNA, you’re a victim of your fate. / It’s human nature to miscalculate. To make up for the fight they go out for the night. / Sex, drugs and rock ‘n’ roll seems like the easiest answer. / But a short nine months later, there’s no way of concealing, / That permanent reminder of a temporary feeling. / Permanent reminder of a temporary feeling / Amnesic episodes that never go away. / Complex momentos, not subtle revealings. / Just a permanent reminder of a temporary feeling.»

O ato de tatuar-se e sua relação com o eu / Sybele Macedo. – 2014.

«(…) os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que
tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os malestares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do
prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.» (p. 10) BAUMAN, Z. (1998). O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar

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ganhei uma bala dalva, doce de coco em tabletes.

contei sete papagaios.

colhi um girassol.

fiz apenas uma refeição no dia.

hoje consegui respirar. foi um dia melhor.

manoel

são 4 anos sem manoel. mas ele sempre está presente!

a fantasia de suicídio

2018, junho 14, quinta-feira

«Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica – como diria a nossa Lispector. Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carniceiros. Ela não tinha certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só despraticar as normas. Achei certo.» Manoel de Barros – Um olhar

 

há alguns rascunhos que não verão a luz tão cedo porque algumas palavras e pensamentos são patéticos demais. ando a sentir-me patético, preciso escrever para não implodir, por dentro, mas o que sai, é torpe, é besta, é ridículo. isto basta, escrevo e escondo, e pronto.

e a dúvida, de ontem, era, que argumento encontraria para justificar essa vontade de não sair de casa, de não fazer nada. da falta…

e eis, que acordo não conseguindo respirar direito… com uma dor física terrível… que ótima solução para não ir trabalhar, ficar doente fisicamente. e pouco importa se há atestado ou não, basta apenas que os outros saibam que você sofre por dentro. que a vida dói.

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A fantasia de suicídio

«A fantasia de suicídio é indispensável. Nenhum ser humano pode prescindir dela, sobretudo na adolescência e naqueles que conservaram as qualidades da adolescência por toda a vida. Mas o fato de passar ao ato do suicídio é coisa completamente diferente, algo de neurótico, uma doença aguda e repentina, um pedido de socorro não atendido. Isso é o suicídio. É verdade que, se eu não tivesse tido idéias suicidas, não estaria plenamente viva. Todo o mundo, num momento ou noutro, tem idéias suicidas; quem não as teve ainda não passou a adolescência; mas terão, fiquem tranquilos… talvez com cinquenta anos! É necessário passar por isso; é um modo de entender os outros, que também passam por isso; um modo de não passar ao largo daqueles que clamam por socorro. 

É importante que os jovens que tiveram idéias suicidas possam contar aos outros. Não se deve dizer: ‘Faça o favor de não falar desse jeito, que está dizendo asneiras!’, mas sim: ‘É mesmo? Conte essa.’ Felizmente há avós (eles se angustiam menos que os pais) capazes de dizer: ‘É mesmo! Conte essa! Sabe, isso me lembra…’ Há mesmo os que se lembram de romances em que alguém acaba se suicidando. Há transferência, ou seja, uma relação muito rica com uma avó, por exemplo, que nos faça ler um bom texto sobre suicídio de Werther ou de outro, por que não? O suicídio faz parte dos condicionamentos do pensamento humano por causa de nosso orgulho em nos dar vida, e nos dar morte. Somos feitos assim, queremos dominar tudo. Enfrentar a fantasia de suicídio e sobreviver é fazer o luto da onipotência.

Às vezes um filho, descontente com os pais, diz só para contrariá-los: ‘Pois bem, vou me matar!’ Os pais ficam desvairados, em vez de dizerem ao filho: ‘Desse jeito você não vai ter ninguém mais para reclamar!’ Cabe à mãe responder: ‘Conte-me, o que vai acontecer quando você morrer?’ O filho: ‘Você vai ficar bem chateada.’ A mãe: ‘Vou ficar triste.’ Há mães que acham que é esperteza responder: ‘Que bom! Vou ficar livre.’ Elas estão erradas por não levarem a sério. Nem é sério nem deixa de ser. É uma fantasia tentadora no ser humano, que a criança pode expressar em se sentir culpada. Vai ver que essa fantasia existe em todo o mundo. Ajuda-se uma pessoa mostrando-lhe que não é um pária por pensar nisso. Ela achava que isso era ruim, mas vê que faz parte da cultura, que é exprimível, é o drama humano de todos.

A solidão é inevitável, a angústia não é tão evitável, as fantasias de suicídio não são evitáveis. Todos temos de passar por isso. Não é nem bom nem mau. É a condição humana. Então, podemos colaborar uns com os outros. É viver. Que nem sempre se consegue, é verdade.» DOLTO, Françoise. Solidão. Ed. Martins Fontes, SP; 1998

textos para leitura posterior… algum dia, quando houver calma.

Quando estamos sós e deprimidos, não conseguimos ir em direção aos outros
A eterna dança da solidão
Um caso de histeria. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos – Sigmund Freud
O que eu me tornei para mim mesmo? O homem sem qualidades, e o caráter predatório da modernidade tardia / Maria Thereza Waisberg. – 2008
,

tedn’t right. tedn’t friendly. tedn’t good enough.

2018, maio 2, quarta-feira

«tedn’t law. tedn’t right. tedn’t just. tedn’t sense. tedn’t friendly.» «Tedn’t reet, tedn’t fitty, tedn’t proper» «tedn’t right. tedn’t tidy. tedn’t fair. tedn’t clean. tedn’t good enough.» «’tedn’t right. ‘tedn’t fit. ‘tedn’t fair. ‘tedn’t proper.»

dialeto córnico.

na fala de jud paynter, da série poldark.

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10h00. parte de mim recusa-se determinantemente a seguir a rotina… acumulei uma sequência de tarefas que nessas próximas duas horas mesmo que me dispusesse executá-las, ainda assim não conseguiria. fiz uma lista do inadiável… para a parte que tenta ser racional talvez, quiça, oxalá, quem dera, tentar desembrulhar.

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12h05. entre a ideia de ir, porque é a obrigação, e porque dali que tiro a renda, o sustento, e a outra… que acha uma perda de tempo, sua e dos outros, que julga-se por dar aquém, e de certa forma, apenas cumprir tabela, entrar num jogo que não vale campeonato, apenas para empurrar a bola, de forma ordinária, e improvisada…

ah, eu não penso direito, e a solidão faz tudo piorar, como uma espiral abaixo… vou tropeçando, deslizando, escorregando, despencando em queda livre.

12h40. não fui, não irei. ou fico aqui encontrando narrativas que desculpem e suporte essa disfunção, ou apenas uma dissonância?

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Ernesto Caivano, Code and Entropy 2010

Ernesto Caivano, Code and Entropy, 2010

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Paulo Zerbato, Knowledge Without Wisdom III, 2011

imagens acima e texto abaixo extraído do sitio: https://outro.pt

«Viver com uma farpa alojada no corpo é desconfortável»

«Mentimos a nós próprios para nos convencermos de algo que justifica o nosso comportamento, alterando sem remorso as nossas crenças, atitudes e opiniões — a suposta residência da “verdade individual” — só para que não nos possam apontar o dedo ou chamar hipócritas. A verdade não deveria ser tão fácil de abandonar, e o lugar da crença torna-se volátil e prescindível. Os nossos alicerces, se os tivermos, devem ser feitos de outra coisa.»

Festinger & Carlsmith – dissonância cognitiva

Título original: “A Lesson In Cognitive Dissonance”

«Se nos lembrássemos de contar todas as nossas incongruências, rapidamente nos desdobraríamos na mais perfeita personificação da hipocrisia. Entende-se por hipocrisia a não-correspondência entre o comportamento e a atitude — “não fazer aquilo que se apregoa” — ou fazer justamente aquilo a que se é manifestamente contra. Sentir-se hipócrita é incompatível com a imagem positiva colada-a-cuspo que nos esforçamos tanto por manter. Se esta integridade for ameaçada, sentimo-nos motivados a restaurá-la num processo semelhante ao da redução da dissonância.

Esta simples premissa, aliada ao conhecimento de que o comportamento pode alterar a atitude, revolucionou não só a psicologia como outras áreas, e tem conhecido aplicações pro-sociais como a socialização de crianças, cura de fobias e vícios, conservação de água e práticas de sexo seguras; mas como nem só do bem vive o homem, a dissonância também foi (e é) aplicada de formas mais perversas. A dissonância aplicada é eficaz sobretudo porque a persuasão e motivação vêm de dentro do indivíduo e da sua necessidade de manter a coesão interna.»

Silvio Vieira, do belíssimo sítio outro.pt

FESTINGER, Leon, CARLSMITH, James, 1957, Cognitive consequences of forced compliance, Califórnia: Universidade de Stanford

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So needless to say / I’m odds and ends / But that’s me stumbling away / Slowly learning that life is ok / Say after me / It’s no better to be safe than sorry // Take On Me // Compositores: Pal Waaktaar, Morten Harket e Magne Furuholmen

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13h36 e ainda continuo despencando cada vez mais veloz… começou a chover. nada conforta… cada decisão tomada leva a uma insatisfação maior. é como se houvesse um buraco negro por dentro devorando tudo.

Paul-W.-Ruiz

Paul W. Ruiz

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21h46… Perdoo-me.

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«Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado. Manoel de Barros.  “Poesia completa” (pp. 385-386)»

Maria Bethânia em “Ruína“, curta metragem de Gabriel Sanna