Archive for the 'Manoel de Barros – Manoel Wenceslau Leite de Barros' Category

permanent reminder of a temporary feeling

[ter] 13 de novembro de 2018

«“Permanent reminder of a temporary feeling” de Jimmy Buffett, do album “Beach house on the moon”. / Island Records, 1999. // She was no marine back from the Philippines / She was their pride and joy, their incarnation. / Her parents viewed the chief / With shock and disbelief / Looking for some other explanation. The Indian, her back was poised for an attack. / She said ‘a tattoo is a badge of validation’. / But the truth of the matter is far more revealing. / It’s a permanent reminder of a temporary feeling. / Permanent reminder of a temporary feeling / Amnesic episodes that never go away. / It’s no complex momento, it’s no subtle revealing. / Just a permanent reminder of a temporary feeling. / Vegas in the rain, drunk on cheap champagne / He hears out of tune synthesized chapel bells / Painfully ringing. / Where’s his limo ride? Who’s this foreign bride? / Is this really Elvis spinning round the ceiling? / Permanent reminder of a temporary feeling, / Forgotten fabrications in the chapels of love. / What is this ring on his finger? Why is he kneeling? / She’s just a permanent reminder of a temporary feeling. Chromosomes and genes, / spawn these fateful scenes. / Evolution can be mean, there’s no ‘dumb ass’ vaccine. / Blame your DNA, you’re a victim of your fate. / It’s human nature to miscalculate. To make up for the fight they go out for the night. / Sex, drugs and rock ‘n’ roll seems like the easiest answer. / But a short nine months later, there’s no way of concealing, / That permanent reminder of a temporary feeling. / Permanent reminder of a temporary feeling / Amnesic episodes that never go away. / Complex momentos, not subtle revealings. / Just a permanent reminder of a temporary feeling.»

O ato de tatuar-se e sua relação com o eu / Sybele Macedo. – 2014.

«(…) os mal-estares da modernidade provinham de uma espécie de segurança que
tolerava uma liberdade pequena demais na busca da felicidade individual. Os malestares da pós-modernidade provêm de uma espécie de liberdade de procura do
prazer que tolera uma segurança individual pequena demais.» (p. 10) BAUMAN, Z. (1998). O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar

***

ganhei uma bala dalva, doce de coco em tabletes.

contei sete papagaios.

colhi um girassol.

fiz apenas uma refeição no dia.

hoje consegui respirar. foi um dia melhor.

manoel

são 4 anos sem manoel. mas ele sempre está presente!

a fantasia de suicídio

[qui] 14 de junho de 2018

«Eu tive uma namorada que via errado. O que ela via não era uma garça na beira do rio. O que ela via era um rio na beira de uma garça. Ela despraticava as normas. Dizia que seu avesso era mais visível do que um poste. Com ela as coisas tinham que mudar de comportamento. Aliás, a moça me contou uma vez que tinha encontros diários com as suas contradições. Acho que essa freqüência nos desencontros ajudava o seu ver oblíquo. Falou por acréscimo que ela não contemplava as paisagens. Que eram as paisagens que a contemplavam. Chegou de ir no oculista. Não era um defeito físico falou o diagnóstico. Induziu que poderia ser uma disfunção da alma. Mas ela falou que a ciência não tem lógica. Porque viver não tem lógica – como diria a nossa Lispector. Veja isto: Rimbaud botou a Beleza nos joelhos e viu que a Beleza é amarga. Tem lógica? Também ela quis trocar por duas andorinhas os urubus que avoavam no Ocaso de seu avô. O Ocaso de seu avô tinha virado uma praga de urubu. Ela queria trocar porque as andorinhas eram amoráveis e os urubus eram carniceiros. Ela não tinha certeza se essa troca podia ser feita. O pai falou que verbalmente podia. Que era só despraticar as normas. Achei certo.» Manoel de Barros – Um olhar

 

há alguns rascunhos que não verão a luz tão cedo porque algumas palavras e pensamentos são patéticos demais. ando a sentir-me patético, preciso escrever para não implodir, por dentro, mas o que sai, é torpe, é besta, é ridículo. isto basta, escrevo e escondo, e pronto.

e a dúvida, de ontem, era, que argumento encontraria para justificar essa vontade de não sair de casa, de não fazer nada. da falta…

e eis, que acordo não conseguindo respirar direito… com uma dor física terrível… que ótima solução para não ir trabalhar, ficar doente fisicamente. e pouco importa se há atestado ou não, basta apenas que os outros saibam que você sofre por dentro. que a vida dói.

***

A fantasia de suicídio

«A fantasia de suicídio é indispensável. Nenhum ser humano pode prescindir dela, sobretudo na adolescência e naqueles que conservaram as qualidades da adolescência por toda a vida. Mas o fato de passar ao ato do suicídio é coisa completamente diferente, algo de neurótico, uma doença aguda e repentina, um pedido de socorro não atendido. Isso é o suicídio. É verdade que, se eu não tivesse tido idéias suicidas, não estaria plenamente viva. Todo o mundo, num momento ou noutro, tem idéias suicidas; quem não as teve ainda não passou a adolescência; mas terão, fiquem tranquilos… talvez com cinquenta anos! É necessário passar por isso; é um modo de entender os outros, que também passam por isso; um modo de não passar ao largo daqueles que clamam por socorro. 

É importante que os jovens que tiveram idéias suicidas possam contar aos outros. Não se deve dizer: ‘Faça o favor de não falar desse jeito, que está dizendo asneiras!’, mas sim: ‘É mesmo? Conte essa.’ Felizmente há avós (eles se angustiam menos que os pais) capazes de dizer: ‘É mesmo! Conte essa! Sabe, isso me lembra…’ Há mesmo os que se lembram de romances em que alguém acaba se suicidando. Há transferência, ou seja, uma relação muito rica com uma avó, por exemplo, que nos faça ler um bom texto sobre suicídio de Werther ou de outro, por que não? O suicídio faz parte dos condicionamentos do pensamento humano por causa de nosso orgulho em nos dar vida, e nos dar morte. Somos feitos assim, queremos dominar tudo. Enfrentar a fantasia de suicídio e sobreviver é fazer o luto da onipotência.

Às vezes um filho, descontente com os pais, diz só para contrariá-los: ‘Pois bem, vou me matar!’ Os pais ficam desvairados, em vez de dizerem ao filho: ‘Desse jeito você não vai ter ninguém mais para reclamar!’ Cabe à mãe responder: ‘Conte-me, o que vai acontecer quando você morrer?’ O filho: ‘Você vai ficar bem chateada.’ A mãe: ‘Vou ficar triste.’ Há mães que acham que é esperteza responder: ‘Que bom! Vou ficar livre.’ Elas estão erradas por não levarem a sério. Nem é sério nem deixa de ser. É uma fantasia tentadora no ser humano, que a criança pode expressar em se sentir culpada. Vai ver que essa fantasia existe em todo o mundo. Ajuda-se uma pessoa mostrando-lhe que não é um pária por pensar nisso. Ela achava que isso era ruim, mas vê que faz parte da cultura, que é exprimível, é o drama humano de todos.

A solidão é inevitável, a angústia não é tão evitável, as fantasias de suicídio não são evitáveis. Todos temos de passar por isso. Não é nem bom nem mau. É a condição humana. Então, podemos colaborar uns com os outros. É viver. Que nem sempre se consegue, é verdade.» DOLTO, Françoise. Solidão. Ed. Martins Fontes, SP; 1998

textos para leitura posterior… algum dia, quando houver calma.

Quando estamos sós e deprimidos, não conseguimos ir em direção aos outros
A eterna dança da solidão
Um caso de histeria. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade e outros trabalhos – Sigmund Freud
O que eu me tornei para mim mesmo? O homem sem qualidades, e o caráter predatório da modernidade tardia / Maria Thereza Waisberg. – 2008
,

tedn’t right. tedn’t friendly. tedn’t good enough.

[qua] 2 de maio de 2018

«tedn’t law. tedn’t right. tedn’t just. tedn’t sense. tedn’t friendly.» «Tedn’t reet, tedn’t fitty, tedn’t proper» «tedn’t right. tedn’t tidy. tedn’t fair. tedn’t clean. tedn’t good enough.» «’tedn’t right. ‘tedn’t fit. ‘tedn’t fair. ‘tedn’t proper.»

dialeto córnico.

na fala de jud paynter, da série poldark.

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10h00. parte de mim recusa-se determinantemente a seguir a rotina… acumulei uma sequência de tarefas que nessas próximas duas horas mesmo que me dispusesse executá-las, ainda assim não conseguiria. fiz uma lista do inadiável… para a parte que tenta ser racional talvez, quiça, oxalá, quem dera, tentar desembrulhar.

***

12h05. entre a ideia de ir, porque é a obrigação, e porque dali que tiro a renda, o sustento, e a outra… que acha uma perda de tempo, sua e dos outros, que julga-se por dar aquém, e de certa forma, apenas cumprir tabela, entrar num jogo que não vale campeonato, apenas para empurrar a bola, de forma ordinária, e improvisada…

ah, eu não penso direito, e a solidão faz tudo piorar, como uma espiral abaixo… vou tropeçando, deslizando, escorregando, despencando em queda livre.

12h40. não fui, não irei. ou fico aqui encontrando narrativas que desculpem e suporte essa disfunção, ou apenas uma dissonância?

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Ernesto Caivano, Code and Entropy 2010

Ernesto Caivano, Code and Entropy, 2010

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Paulo Zerbato, Knowledge Without Wisdom III, 2011

imagens acima e texto abaixo extraído do sitio: https://outro.pt

«Viver com uma farpa alojada no corpo é desconfortável»

«Mentimos a nós próprios para nos convencermos de algo que justifica o nosso comportamento, alterando sem remorso as nossas crenças, atitudes e opiniões — a suposta residência da “verdade individual” — só para que não nos possam apontar o dedo ou chamar hipócritas. A verdade não deveria ser tão fácil de abandonar, e o lugar da crença torna-se volátil e prescindível. Os nossos alicerces, se os tivermos, devem ser feitos de outra coisa.»

Festinger & Carlsmith – dissonância cognitiva

Título original: “A Lesson In Cognitive Dissonance”

«Se nos lembrássemos de contar todas as nossas incongruências, rapidamente nos desdobraríamos na mais perfeita personificação da hipocrisia. Entende-se por hipocrisia a não-correspondência entre o comportamento e a atitude — “não fazer aquilo que se apregoa” — ou fazer justamente aquilo a que se é manifestamente contra. Sentir-se hipócrita é incompatível com a imagem positiva colada-a-cuspo que nos esforçamos tanto por manter. Se esta integridade for ameaçada, sentimo-nos motivados a restaurá-la num processo semelhante ao da redução da dissonância.

Esta simples premissa, aliada ao conhecimento de que o comportamento pode alterar a atitude, revolucionou não só a psicologia como outras áreas, e tem conhecido aplicações pro-sociais como a socialização de crianças, cura de fobias e vícios, conservação de água e práticas de sexo seguras; mas como nem só do bem vive o homem, a dissonância também foi (e é) aplicada de formas mais perversas. A dissonância aplicada é eficaz sobretudo porque a persuasão e motivação vêm de dentro do indivíduo e da sua necessidade de manter a coesão interna.»

Silvio Vieira, do belíssimo sítio outro.pt

FESTINGER, Leon, CARLSMITH, James, 1957, Cognitive consequences of forced compliance, Califórnia: Universidade de Stanford

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So needless to say / I’m odds and ends / But that’s me stumbling away / Slowly learning that life is ok / Say after me / It’s no better to be safe than sorry // Take On Me // Compositores: Pal Waaktaar, Morten Harket e Magne Furuholmen

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13h36 e ainda continuo despencando cada vez mais veloz… começou a chover. nada conforta… cada decisão tomada leva a uma insatisfação maior. é como se houvesse um buraco negro por dentro devorando tudo.

Paul-W.-Ruiz

Paul W. Ruiz

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21h46… Perdoo-me.

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«Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos que a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”. E o monge se calou descabelado. Manoel de Barros.  “Poesia completa” (pp. 385-386)»

Maria Bethânia em “Ruína“, curta metragem de Gabriel Sanna

seres extraños

[ter] 27 de março de 2018

«Você vai encher os vazios com as suas peraltagens.
E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos.»
.
— Manoel de Barros, no livro “Poesia completa”. São Paulo: Leya, 2010

hoje pensei tantas coisas… no pouco tempo em que me mantive acordado. ontem, enquanto ela falava, eu mentalizava que aquilo era o tema da aula, não era diretamente para mim, e que a minha escolha por começar a minha fala daquela forma incompreensível foi só o acaso, fruto de uma leitura equivocada do momento… de ter tentado improvisar e não ter seguido o script que eu mesmo havia preparado… mas cada fala dela era um puta soco, porque fazia sentido, eu estava me enxergando no texto, minha nudez ali… senti-me como se tivesse levando uma surra e estava nu e ensanguentado bem na frente de todos aqueles calouros, e isto ficou martelando minha cabeça… o que (e para quem, e por que e se) estou tentando provar?… qual é o meu lugar? sei que é assim quase o tempo todo… nos envolvimentos amorosos, no trabalho, na primeira e nessa segunda graduação… por que existo?

há uma vontade enorme de quedar por cá, mas isto aqui não tem peso literário. são apenas recortes, de um sujeito obscuro e fantasioso. e por falar em sujeito, um aluno, ex-aluno, hoje, fazendo cinema, me convidou para participar do filme que o grupo dele está preparando em uma disciplina, para contar alguma história minha… ser um sujeito, um dos sujeitos no filme. e bem na verdade, é o segundo convite que recebo, via ex-alunos. e alguns alunos me fazem olhar de forma diferente para mim mesmo… principalmente estes que encontro depois de um tempo, distantes do território escolar… já seguindo suas vidas noutros campos, e posso redimensionar o impacto [mútuo] causado. no fim, todo os humanos valem, e como humano, eu valho algo, muitas vezes mais do que imagino. mas o que valho? por que outros percebem coisas em mim que eu insisto em não perceber. quase sempre vejo a parte obscura… essa que dialogo todo instante… essa que está aqui… e me faz neste instante um pouco suicida, não letal (neste momento), mas moral… pensando seriamente em não ir pra aula amanhã, em dar um foda-se em tudo… e nem fiz nada que deveria ter feito (obrigatórias, ou mínimas… eram quatro: corrigir os trabalhos dos alunos, preparar o roteiro das aulas de amanhã; ler o texto para teoria literária e fazer o exercício de linguística)…eu não fiz nada. estou cansado… e ainda há toda uma quarta-feira e uma quinta-feira pela frente. e ainda sobre o quanto valho, me recordo dos papos da outra semana… no bar, eu com um puta tesão, mas me segurando… contendo meus demônios, porque o sexo, o prazer é libertador… mas eu sou uma caixa de pandora… melhor estar só, deixar fluir, seguir, aparentemente, calmo. não me machucar e nem machucar ninguém. e isto é uma das vantagens da solidão… mas como é bom expressar isto, na mesa… não abertamente esse lance do sexo, mas falar sobre outros sentimentos, como estar só, de ter medo de ir afrente nas relações (amorosas e outras), medo de voltar atrás, de ser contraditório e imperfeito, de ser frágil, ansioso…

ir se desnudando na mesa do bar é gostoso. queria beber agora, alguém?

queria sentir qual é o meu aroma?

e antes de ir dormir… porque estou cansado demais e para lembrar depois… e  estudar um pouco mais… e quem sabe aprender

***

bora montar a trilha sonora do dia:

Y empezar a ver mejor que están buscando esos seres extraños

Caetano Veloso – Um ComunistaCaetano Veloso – Milagres Do PovoBomba Estereo – Pa’ RespirarBomba Estéreo – El Alma y el CuerpoCaetano Veloso – TigresaBob Dylan – Mr Tambourine ManPerotá Chingó – Seres ExtrañosPerota Chingo – El tiempo está despuésPerota chingo – Ando Ganas;

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um sítio de livros e um cartão… minha obsessão:

Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem – Marshall McLuhan
Lógica do Sentido – Col. Estudos 35 – Gilles Deleuze
Mimesis – Col. Estudos 002 – Erich Auerbach
Cinematógrafo de Letras – Literatura , Técnica e Modernização no Brasil – Flora Süssekind
A Amiga Genial – Série Napolitana – Elena Ferrante
História de Quem Foge e Quem Fica – Elena Ferrante
Cosmos – Carl Sagan

 

***

ps: alguns notas que estavam nos rascunho

12h00 nota #1. ressaca, física e moral. estou desorientado.

tenho que sair já. tenho um monte de coisas por fazer. se não der… não deu bicho. take easy.

faltei hoje.

coletei isto – de Rupi Kaur

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e o oráculo (vênus na casa doze) está dizendo para eu sumir… e me amar.

e outra citação para fechar [ou iniciar] a jornada

«No soy pobre, soy sobrio, liviano de equipaje, vivir con lo justo para que las cosas no me roben la libertad.» Pepe Mujica

 

 

 

ruína

[sáb] 12 de agosto de 2017

«Um monge descabelado me disse no caminho: “Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha ideia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro (O olho do monge estava perto de ser um canto). Continuou: digamos a palavra amor. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria construir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo”.

E o monge se calou descabelado.»

Manoel de Barros | “Poesia completa”

lento pero avanzo

[qui] 11 de junho de 2015

há apenas uma tênue noção de que as coisas estão serenas… mesmo quando tu miras ao redor e tudo está completamente caótico – tuas contas, tua casa, teus planejamentos futuros, a fila de notas soltas esperando serem publicadas… as aulas por serem dadas, os teus horários.

talvez a grande sacada é que neste momento o que importa realmente não é ter tudo exatamente planejado, e catalogado… o que importa é o vir a ser sendo… o estar aqui agora de forma aberta.

o enfrentar o medo de viver… vivendo.

as vezes tu passas tempo demais duvidando de ti mesmo… e as pessoas batem a tua porta e dizem: acorda! e tu estás cansado demais.

neste momento eu estou desperto.

e para esta tarde, dois canções de renato que brotaram enquanto escrevia este verbo e um poema de brecht – que me inspirou a abrir uma janelinha e a escrever aqui.

«Se fiquei esperando meu amor passar
Já me basta que estava então longe de sereno
E fiquei tanto tempo duvidando de mim
Por fazer amor fazer sentido
Começo a ficar livre
Espero, acho que sim
De olhos fechados não me vejo
E você sorriu pra mim» Se fiquei esperando o meu amor passar. In: As quatro estações. 1989. Composição: Dado Villa-Lobos / Renato Russo

***

«Meu coração está desperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom (…)
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado» Soul Parsifal.  In: A tempestade ou O livro dos dias. 1996. Composição: Marisa Monte / Renato Russo.

***

«Ouvimos dizer. Por Bertold Brecht

Ouvimos dizer: Não queres continuar a trabalhar connosco.
Estás arrasado. Já não podes andar de cá para lá.
Estás muito cansado. Já não és capaz de aprender.
Estás liquidado. Não se pode exigir de ti que faças mais.

Pois fica sabendo:
Nós exigimo-lo.

Se estiveres cansado e adormeceres
Ninguém te acordará nem dirá:
Levanta-te, está aqui a comida.
Porque é que a comida havia de estar ali?
Se não podes andar de cá pra lá
Ficarás estendido. Ninguém
Te irá buscar e dizer:
Houve uma revolução. As fábricas
Esperam por ti.
Porque é que havia de haver uma revolução?
Quando estiveres morto, virão enterrar-te
Quer tu sejas ou não culpado da tua morte.

Tu dizes:
Que já lutaste muito tempo. Que já não podes lutar mais.

Pois ouve:
Quer tu tenhas culpa ou não:
Se já não podes lutar mais, serás destruído.

Dizes tu:
Que esperaste muito tempo. Que já não podes ter esperanças.
Que esperavas tu?
Que a luta fosse fácil?

Não é esse o caso:
A nossa situação é pior do que tu julgavas.

É assim:
Se não levarmos a cabo o sobre-humano
Estamos perdidos.
Se não pudermos fazer o que ninguém de nós pode exigir
Afundar-nos-emos.
Os nossos inimigos só esperam
Que nós nos cansemos.
Quando a luta é mais encarniçada
É que os lutadores estão mais cansados.
Os lutadores que estão cansados demais perdem a batalha.

extraído daqui: http://ocheirodailha.blogspot.com.br/2009/03/brecht-ainda-e-sempre.html

***

lento-pero-avanzo

esta imagem me sintetiza bem. quando eu era pequeno uma forma que meu pai tinha de atacar-nos, e a mim, principalmente, era verbalmente chamando-me de lento, é claro que ele não utilizava a palavra lento… mas sinônimos agressivos e extremamente nocivos para uma criança e adolescente. até o hoje, ele tenta, mas depois de anos de terapia, um faculdade de ciências sociais, de militar em movimentos políticos, e da poesia de manoel de barros… aprendi que a “lentidão” dos caracóis é sábia. e se as vezes, quase o tempo todo, eu sou como estes caracóis… esta é minha dádiva,

«Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas
na beira do rio até duas horas da tarde, ali
também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia
de ver aquele moço a catar caracóis na beira do
rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça
de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse
com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço
ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo
a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa
era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que
sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E
separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é
sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é
uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de
conversar bobagens profundas com as águas. Bocó
é aquele que fala sempre com sotaque das suas
origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É
alguém que constrói sua casa com pouco cisco.
É um que descobriu que as tardes fazem parte de
haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que
olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.
Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi
o que o moço colheu em seus trinta e dois
dicionários. E ele se estimou.» Bocó, por Manoel de Barros.

e vale a leitura deste texto aqui: Diálogo entre seres uma aproximação ontológica ao animal na poesia de Manoel de Barros, por Claudia Quiroga Cortez

***

notas soltas: Como Cortar um Chip Para Que Vire um MicroSIM; comentar também sobre o hambúrguer vegetariano de grão-de-bico. e montei minha cama… depois de cinco anos acampando dentro de meu humilde barraco, por opção emocional… agora tenho uma cama. estou me desentocando.

o homem que engarrafava nuvens

[ter] 2 de junho de 2015

#1. lembrar transpor notas manuscritas sobre filme supracitado no título. [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#2. agora bem rápido… atrasado estou para reunião pela base e há assembleia da categoria em menos de uma hora e meia. o tempo voa… e eu deslizo como um caramujo. e o angustiante disto tudo é saber que a direção sindical cutista já armou o golpe contra a base. até o momento, contra a inúmeras faces do capital, entre elas a direção sindical, conseguimos contra-golpes que tem dado sobrevida a esta greve de resistência, e histórica. mas e agora josé? chapecó é para fud…

#3. corrigir falha da placa mãe – meus estresse da manhã.

#4. e estranhamento hoje estou sentindo-me humano. nem super, nem sub. apenas um sujeito repleto de defeitos que mais erra do que acerta, mas segue vivo, cheio de dúvidas, quase nenhuma certeza e atento aos olhares… e acenos.

#5. ir ao médico para ver essa alergia no nariz… estou a descascar-me.

#6. tomar nota/transcrever passagens das páginas 125 até 135 do livro «a desumanização» [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#7. sabe por que meus relacionamentos cedo ou tarde não dão certo?! porque em algum dado momento fecho-me em copas com alguma coisa que não consigo resolver – normalmente vinculado a algum sentimento de inferioridade. que tem sua origem lá na infância… nos abusos, no abandono… na violência física e verbal sofrida. é preciso romper isto que é da ordem do insconsciente trazendo para a ordem do autoconsciente… mas mesmo racionalizando ainda assim não impede-me de mergulhar na minha escuridão abissal.

engraçado como este pensamento hoje me veio de forma tão clara e exata: “eu sou um cara bacana, as pessoas gostam de mim… e eu noiando tudo”.

essa síntese deve-se a retomada da leitura – e abri aqui uma digressão para dizer que gosto e não gosto deste livro… porque me parece absurdo pensamentos tão profundos e complexos, na elaboração de referências e imagens, num ambiente tão esdrúxulo como local e idade dos personagens… mas isto pode ser apenas preconceito cultural. atentei-me para isto hoje. a possibilidade de ser apenas preconceito meu, e relaxei desta encanação…

mas voltando agora da digressão, eu dizia que: – a retomada da leitura e somada ao fato de estar a remoer há dias essa sensação de que… a vida, por mais que seja triste, é ainda absurdamente tão bela e surpreendente… mas eu sempre nessa dificuldade de aceitar… o que vem e, sobretudo, o que posso dar aos outros,

e a mim.

relaxa bicho. se deixe levar… afinal, como pensaste hoje pela manhã: nem super, nem sub.

#8. eu vou para chapecó.

#9. não esquecer do livropoema do gullar: Um gato chamado Gatinho.

***

cousas que vem em silêncio…

[qui] 16 de abril de 2015

Maria Bethânia Nossa Senhora Do Silêncio Fernando Pessoa

low profile. uma incógnita, uma variável invariável, irracional. e longarinas. (ednardo) mas eu queria tanto uma daquelas canções de belchior, mas não está dando… parece que o inverno chegou cedo e estamos escondidos, meu canto não é torto e corta só a mim. por isto, amigo manoel, «ando muito completo de vazios / meu órgão de morrer me predomina, estou sem eternidades / não posso mais saber quando amanheço ontem (…) / enfiei o que pude dentro de um grilo o meu destino / essas coisas me mudam para cisco. a minha independência tem algemas». pessoa… «seja o que for, é o que tenho. tudo mais é tudo só» e deve ser porque eu não ando bem da cabeça… deve ser porque «éblouie par la nuit à coup de lumière mortelle… faut-il aimer la vie ou la regarder juste passer?»

ZAZ – Eblouie par la nuit 

*

Alan Watts – O Que Há de Errado Com a Nossa Cultura

 

e manoel se foi…

[qui] 13 de novembro de 2014

e manoel se foi.

aos noventa e sete, esse menino virou borboleta. seguirá, assim, renovando o mundo, fazendo o “verbo pegar delírio”

***

ps: ontem, primeira oficina do grupo de teatro da escola. compareceram doze alunos, eu, como professor, e os colegas da udesc que ministram a oficina. fazer parte deste grupo foi/é/será tão gratificante… educação passar por ai… potencializar seres humanos para que voem… libertem-se…

ps dois: as avaliações sobre o projeto tema livre… aquele em que tentei me desfazer dos meus medos e deixá-los mais soltos, mais envoltos… foi positiva em alguns aspectos e angustiantes em outros. salutar foi a liberdade sentida por alguns, e como isto potencializa seus exercícios de curiosidades… por outros, muitos grupos acabaram optando por permanecer na zona de conforto, não arriscando-se e fazendo o mais do mesmo. e outros… nem. mas aprendo com meus erros e vacilos. isto não significa que eu não voltarei a comete-los…

pas de problème

[seg] 9 de junho de 2014

3:30 por que esse ofício? a escolha é um abismo. e são tantas dúvidas… tantas questões. e cadê as citações do marshall sahlins? e o texto do pierre clastres? e aquela passagem perdida de saramago sobre a pele? e no plano pragmático falta a grana… e opera-se assim no negativo. e nesse turbilhão oscilante, às vezes, quase o tempo todo, o mundo e as escolhas aparentam uma “absurdidade”, aleatórias, caóticas.

*

«e não existe problema que não tenha solução e se não tiver solução não é problema» sotigui kouyaté.

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14:08 agora, horas depois do texto acima. identificando que tenho pelo menos dois cistos sinoviais, que o pelos brancos diários já sinalizam juba a fora, e fico cá a pensar: e se me faltassem as mãos ou os olhos? se me faltasse o que suponho ter? e lá do fundo da memória me salta a ideia de um potlach… e no meio do caminho da tarde à deriva um poema [exercício de ser criança] de manoel de barros.

«No aeroporto o menino perguntou:
– E se o avião tropicar num passarinho?
O pai ficou torto e não respondeu.
O menino perguntou de novo:
– E se o avião tropicar num passarinho triste?
A mãe teve ternuras e pensou:
Será que os absurdos não são as maiores virtudes da poesia?
Será que os despropósitos não são mais
carregados de poesia do que o bom senso?
Ao sair do sufoco o pai refletiu:
Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças.
E ficou sendo.» BARROS, Manoel de. Exercícios de Ser Criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

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