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2019, janeiro 31, quinta-feira

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e um bocado de poesia:

O Rei das Espadas – T. S. Eliot

I

A primavera em pleno inverno é por si própria uma estação
Sempiterna embora encharcada rumo ao ponte,
Suspensa no tempo, entre polo e trópico.
Quando o breve dia mais cintila, com geada e fogo,
Um sol fugaz inflama o gelo dos açudes e canais,
No frio sem vento que aquece o coração
Refletindo num espelho aquoso
Clarões que em cegueira se transmudam ao raiar da tarde.
E um fulgor mais flamejante que o gládio dos galhos em brasa
Fustiga o espírito entorpecido: vento algum, mas fogo pentecostal
Na quadra escura do ano. Entre degelo e gelo em riste
Tremeluz a seiva anímica. Nenhum odor de terra
Ou sequer de coisa viva. Este é o tempo primaveril
Embora avesso às convenções do tempo. Agora, a sebe
Por um momento alveja em transitória floração
De neve, um viço mais súbito
Que o do verão, sem rútilos botões ou flores murchas,
Alheios aos desígnios da germinação.
Onde o verão, o inconcebível
Verão-zero?

Se viesses por aqui,
Tomando o itinerário que provavelmente tomarias
Desde o lugar de que sem dúvida partirias,
Se viesses por aqui nos tempos de maio, encontrarias as sebes
Brancas outras vez, em maio, com voluptuosa doçura.
O mesmo ocorreria ao fim de tua jornada,
Se viesses à noite como um rei em ruínas,
Se de dia viesses sem saber por que vinhas,
Ocorreria o mesmo quando abandonasses o áspero caminho
E rumasses, rodeando o chiqueiro, à obscura fachada
E à pedra tumular. E aquilo por que supunhas vir
É somente uma concha, uma casca de significado
Cujo propósito desponta apenas ao cumprir-se,
Se acaso isto acontece. Ou seja que nenhum proposito tivesses
Ou que o proposito ultrapassa o fim que imaginaste
E se altera ao ser cumprido. Outros lugares há
Também no fim do mundo, alguns entre as mandíbulas do mar,
Ou sobre um lago em trevas, num deserto ou numa cidade
– Mas este é o mais próximo, no espaço e no tempo,
Agora e na Inglaterra.

Se viesses por aqui,
Tomando qualquer itinerário, partindo do ponto que quisesses,
A qualquer hora em qualquer estação,
O mesmo sempre ocorreria: terias que despir
Sentido e noção. Não estás aqui para averiguar,
Ou te instruíres a ti próprio, ou satisfazer a curiosidade
Ou redigir um informe. Aqui estás para te ajoelhar
Onde eficaz tem sido a oração. E a oração é mais
Que uma simples ordem de palavras, a consciente ocupação
Do espírito que reza, ou o som da voz durante a prece.
E o que não puderam transmitir os mortos, quando os vivos,
Podem eles dizer-te, enquanto morto: a comunicação
Dos mortos se propaga – língua de fogo – além da linguagem dos vivos.
Aqui, a interseção do momento atemporal
É a Inglaterra e parte alguma. Nunca e sempre.

II

A cinza sobre um velho é toda a cinza
Que nos deixaram as rosas incendiadas,
A poeira no ar suspensa determina
O sítio onde uma história teve fim.
A poeira aspirada era uma casa,
A parede, o lambril, o rato escasso.
A morte do esperar e do desesperar,
Esta é a morte do ar.

Inundação e seca desabrocham
Dentro da boca, sobre os olhos.
Água morta e morta areia tentam
Levar vantagem na contenda.
O ressequido solo desventrado
Boquiabre-se ante o vão trabalho
E ei sem alegria dessa guerra.
Esta é a morte da terra.

Água e fogo sucederam
A vila, o pasto, a urze anônima.
Água e fogo escarneceram
Do sacrifício que repudiamos.
Água e fogo escarvarão
Os podres fundamentos que olvidamos
Do santuário e do seu coro.
Está e a morte da água e do fogo.

A uma hora incerta que antecede a aurora
Vizinha ao término da noite interminável
No recorrente fim do que jamais se finda
Após o negro pombo de flamante língua
Perder-se no horizonte de sua fuga
Enquanto as folhas mortas se moviam
Vibrando ainda como lâminas de zinco
Sobre o asfalto onde outro som nenhum se ouvia
Entre três bairros de onde a fumaça emergia
Alguém notei que andava, trôpego e apressado,
Como se vindo a mim tal as folhas metálicas
Que a brisa urbana da alvorada embala.
E ao mergulhar naquele rosto cabisbaixo
Esse pontiagudo olhar inquisidor
Com que desafiamos o primeiro estranho
Surgindo na penumbra agonizante
Captei o olhar fugaz de algum extinto mestre
A quem outrora houvesse conhecido,
Esquecido, lembrado após sem nitidez,
Como um só e a muitos de uma vez;
Sob o castanho sazonado das feições
Os olhos de um complexo e familiar espectro
A um tempo só distinto e incognoscível.
Gritei, cumprindo assim o duplo papel,
E uma outra voz ouvi bradar: “O quê!
Tu por aqui?” Conquanto ali não estivéssemos.
Contudo eu era o mesmo, embora um outro fosse
– E ele um rosto ainda em formação;
Mas bastaram as palavras para que aceitássemos
O que já precedido elas haviam.
E assim, obedientes ao vento comum,
Demais estranhos para não nos entendermos,
Concordes nesse instante de erma interseção,
De em parte alguma estarmos, antes e depois,
Em ronda morta e calçamento percorremos.
Disse-lhe então: “É natural o espanto
Que sinto, embora a naturalidade
Seja causa de espanto. Fala, pois: talvez
Eu não possa entender, ou recordar sequer”.
E ele: “Não quero repetir o que esqueceste
Sobre meus pensamentos e doutrinas.
Tais coisas já cumpriram seu destino: deixa-as.
Faze o mesmo com as tuas, e roga aos outros
Que as perdoem, como te rogo que perdoes
A maus e bons. Comido foi o fruto
Da última estação, e a besta empanzinada
Há de atirar seus coices contra o cocho.
Pois as palavras do ano findo só pertencem
A linguagem do ano findo, e as palavras
Do ano próximo outra vez aguardam.
Mas, assim, como agora a estrada se abre limpa
Ao intranquilo e peregrino espírito
Entre dois mundos que chegaram a parecer
Demasiado iguais, assim descubro agora
Palavras que jamais pensei dizer
Em ruas que jamais pensei revisse
Quando meu corpo abandonei sobre uma praia.
Posto que nosso fim era a linguagem,
E a linguagem desde sempre nos levara
A purificar o dialeto da tribo
E a instigar a mente para a antevisão
E a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
À velhice reservadas, para que seja
Corado o esforço de tua vida inteira.
Primeiro, o enregelado atrito dos sentidos
Que expiram sem magia e nada prometer,
Senão a amarga insipidez de um fruto umbroso
Quando a alma e o corpo, espedaçados, principiam
A tombar cada qual para seu lado.
Segundo, a lúcida impotência do ódio
Ante a loucura humana, e laceração do riso
Perante aquilo que cessou de divertir-nos.
Enfim, a lacerante dor de reviver
O que já terminaste, e o que foste; a vergonha
De motivos tarde apenas revelados
E a memória de todas as coisas mal feitas
Ou feitas simplesmente em prejuízo alheio
Que antes tomaste por virtuosas práticas.
Nesse momento é que se arranca o aplauso
De tolos, e a honra se macula.
O erro após erro, o exasperado espírito
Prosseguirá, se revigorando não for
Por esse fogo purificador
Onde mover-te deves como um bailarino”.
Raiava o dia. Na desfigurada rua
Ele deixou-me, como um esquiva despedida,
E evaporou-se ao brônzeo som da trompa.

III

Três condições existem que amiúde iguais parecem
Embora difiram por completo, na mesma sebe florescem:
Apego a si próprio e das coisas e das pessoas; e, entre ambas germinando, indiferença
Que às outras se assemelha tal a morte se assemelha à vida
E que entre duas vidas se enraíza – enflorescida, entre
A urtiga viva e a morta urtiga. Esta é a função da memória:
Libertação – não menos amor, mas expansão
De amor para além do desejo, como também libertação
Do passado e do futuro. Assim, o amor é um país
Começa como apego à nossa própria esfera de ação
E acaba por jugar que tal ação seja de pouca importância
Conquanto nunca indiferente. A História pode ser escravidão,
A História pode ser liberdade. Vê, tudo agora se dissolve,
As faces e os lugares, com o eu que, tal como pôde, os amou
– Para se renovarem, transfigurados, em outro modelo.

O Pecado é Inelutável,
Mas tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem.
Se ainda me lembro desta terra,
E desta gente, não de todo elogiáveis,
Sem parentesco nem bondade próximos,
Exceto alguns de gênio singular,
Todos marcados por um só gênio comum,
Unidos na discórdia que os sangrava;
Se me lembro de um rei à noite vindo,
De três homens, ou mais, sobre o patíbulo
E de muitos que morreram deslembrados
Em outros lugares, aqui e no estrangeiro,
E daquele que morreu cego e tranquilo,
Por que haveríamos então de celebrar
A estes mortos mais que aos moribundos?
Não que se trate aqui de exorcizar
O som de um tímpano retrospectivo
Como tampouco de sortilégio
Para invocar o espectro de uma Rosa.
Não podemos reviver velhas tendências
Não podemos restauras velhas políticas
Ou dar ouvidos a um tambor antigo.
Estes homens, como os que a eles se opuseram,
E todos aos quais se opuseram aqueles,
Aceitam a constituição do silêncio
E se congregam num partido único.
Tudo quanto herdamos dos afortunados
Tomado foi por nós aos derrotados
Seu único legado – um símbolo:
Um símbolo de morte temperado.
E tudo irá bem e toda sorte de coisa irá bem
Pela purificação do impulso,
Nas raízes de nossa súplica.

IV

A pomba mergulhando rasga o espaço
Com flama de terror esbraseado
Cujas línguas arrojam sem cessar
Um jorro apenas de erro e de pecado.
Toda esperança, ou mais desesperar,
Está na escolha de uma ou de outra pira
– Para que o fogo pelo fogo nos redima.

Quem, pois, urdia tanto suplício? Amor.
Amor é Nome de furtiva chama
Sob as mãos que teceram com rancor
A intolerável túnica de flama
A que poder algum se pode opor.
Apenas suspiramos, ainda vivos,
Por esse ou outro fogo consumidos.

V

O que chamamos de princípio é quase sempre o fim
E alcançar um fim é alcançar um princípio.
Fim é o lugar de onde partimos. E cada frase
Ou sentença de rigor (onde cada palavra se ajusta,
Assumindo seu posto para suportar as demais,
A palavra sem pompa ou timidez,
Um natural intercâmbio do antigo e do novo,
A palavra de cada dia, correta e sem vulgaridade,
A palavra exata e formal, mas não pedante,
O completo consórcio de um bailado simultâneo)
Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio,
Cada poema um epitáfio. E qualquer ação
É um passo rumo ao todo, ao fogo, a uma descida à garganta do mar
Ou à pedra indecifrável – e daí é que partimos.
Morremos com os agonizantes:
Vê, eles nos deixaram e com eles vamos nós.
Nascemos com os mortos:
Vê, eles retornam, e consigo nos trazem.
O momento da rosa e o momento do teixo
Igual duração possuem. Um povo sem História
Não está redimido do tempo, pois a História é o modelo
Dos momentos sem tempo. Assim, enquanto a luz se extingue
Num tarde de inverno, numa capela reclusa
A História é agora e Inglaterra.

Com o impulso desde Amor e a voz deste Chamado

Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da vez primeira que o vimos.
Pela desconhecida, relembrada porta
Quando o último palmo de terra
Deixado a nós por descobrir
Aquilo for que era o princípio.
Nas vertentes do mais longo rio
A voz da cascata escondida
E as crianças na macieira
Não percebidas, porque não buscadas
Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre
– Uma condição de absoluta simplicidade
(Cujo custo é nada menos que tudo)
E tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem
Quando as línguas de chama estiveram
Enrodilhadas no coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa se tornarem um.

«

T.S. Eliot
Quatro Quartetos
Tradução de Ivan Junqueira

I

A primavera em pleno inverno é por si própria uma estação
Sempiterna embora encharcada rumo ao ponte,
Suspensa no tempo, entre polo e trópico.
Quando o breve dia mais cintila, com geada e fogo,
Um sol fugaz inflama o gelo dos açudes e canais,
No frio sem vento que aquece o coração
Refletindo num espelho aquoso
Clarões que em cegueira se transmudam ao raiar da tarde.
E um fulgor mais flamejante que o gládio dos galhos em brasa
Fustiga o espírito entorpecido: vento algum, mas fogo pentecostal
Na quadra escura do ano. Entre degelo e gelo em riste
Tremeluz a seiva anímica. Nenhum odor de terra
Ou sequer de coisa viva. Este é o tempo primaveril
Embora avesso às convenções do tempo. Agora, a sebe
Por um momento alveja em transitória floração
De neve, um viço mais súbito
Que o do verão, sem rútilos botões ou flores murchas,
Alheios aos desígnios da germinação.
Onde o verão, o inconcebível
Verão-zero?

Se viesses por aqui,
Tomando o itinerário que provavelmente tomarias
Desde o lugar de que sem dúvida partirias,
Se viesses por aqui nos tempos de maio, encontrarias as sebes
Brancas outras vez, em maio, com voluptuosa doçura.
O mesmo ocorreria ao fim de tua jornada,
Se viesses à noite como um rei em ruínas,
Se de dia viesses sem saber por que vinhas,
Ocorreria o mesmo quando abandonasses o áspero caminho
E rumasses, rodeando o chiqueiro, à obscura fachada
E à pedra tumular. E aquilo por que supunhas vir
É somente uma concha, uma casca de significado
Cujo propósito desponta apenas ao cumprir-se,
Se acaso isto acontece. Ou seja que nenhum proposito tivesses
Ou que o proposito ultrapassa o fim que imaginaste
E se altera ao ser cumprido. Outros lugares há
Também no fim do mundo, alguns entre as mandíbulas do mar,
Ou sobre um lago em trevas, num deserto ou numa cidade
– Mas este é o mais próximo, no espaço e no tempo,
Agora e na Inglaterra.

Se viesses por aqui,
Tomando qualquer itinerário, partindo do ponto que quisesses,
A qualquer hora em qualquer estação,
O mesmo sempre ocorreria: terias que despir
Sentido e noção. Não estás aqui para averiguar,
Ou te instruíres a ti próprio, ou satisfazer a curiosidade
Ou redigir um informe. Aqui estás para te ajoelhar
Onde eficaz tem sido a oração. E a oração é mais
Que uma simples ordem de palavras, a consciente ocupação
Do espírito que reza, ou o som da voz durante a prece.
E o que não puderam transmitir os mortos, quando os vivos,
Podem eles dizer-te, enquanto morto: a comunicação
Dos mortos se propaga – língua de fogo – além da linguagem dos vivos.
Aqui, a interseção do momento atemporal
É a Inglaterra e parte alguma. Nunca e sempre.

II

A cinza sobre um velho é toda a cinza
Que nos deixaram as rosas incendiadas,
A poeira no ar suspensa determina
O sítio onde uma história teve fim.
A poeira aspirada era uma casa,
A parede, o lambril, o rato escasso.
A morte do esperar e do desesperar,
Esta é a morte do ar.

Inundação e seca desabrocham
Dentro da boca, sobre os olhos.
Água morta e morta areia tentam
Levar vantagem na contenda.
O ressequido solo desventrado
Boquiabre-se ante o vão trabalho
E ei sem alegria dessa guerra.
Esta é a morte da terra.

Água e fogo sucederam
A vila, o pasto, a urze anônima.
Água e fogo escarneceram
Do sacrifício que repudiamos.
Água e fogo escarvarão
Os podres fundamentos que olvidamos
Do santuário e do seu coro.
Está e a morte da água e do fogo.

A uma hora incerta que antecede a aurora
Vizinha ao término da noite interminável
No recorrente fim do que jamais se finda
Após o negro pombo de flamante língua
Perder-se no horizonte de sua fuga
Enquanto as folhas mortas se moviam
Vibrando ainda como lâminas de zinco
Sobre o asfalto onde outro som nenhum se ouvia
Entre três bairros de onde a fumaça emergia
Alguém notei que andava, trôpego e apressado,
Como se vindo a mim tal as folhas metálicas
Que a brisa urbana da alvorada embala.
E ao mergulhar naquele rosto cabisbaixo
Esse pontiagudo olhar inquisidor
Com que desafiamos o primeiro estranho
Surgindo na penumbra agonizante
Captei o olhar fugaz de algum extinto mestre
A quem outrora houvesse conhecido,
Esquecido, lembrado após sem nitidez,
Como um só e a muitos de uma vez;
Sob o castanho sazonado das feições
Os olhos de um complexo e familiar espectro
A um tempo só distinto e incognoscível.
Gritei, cumprindo assim o duplo papel,
E uma outra voz ouvi bradar: “O quê!
Tu por aqui?” Conquanto ali não estivéssemos.
Contudo eu era o mesmo, embora um outro fosse
– E ele um rosto ainda em formação;
Mas bastaram as palavras para que aceitássemos
O que já precedido elas haviam.
E assim, obedientes ao vento comum,
Demais estranhos para não nos entendermos,
Concordes nesse instante de erma interseção,
De em parte alguma estarmos, antes e depois,
Em ronda morta e calçamento percorremos.
Disse-lhe então: “É natural o espanto
Que sinto, embora a naturalidade
Seja causa de espanto. Fala, pois: talvez
Eu não possa entender, ou recordar sequer”.
E ele: “Não quero repetir o que esqueceste
Sobre meus pensamentos e doutrinas.
Tais coisas já cumpriram seu destino: deixa-as.
Faze o mesmo com as tuas, e roga aos outros
Que as perdoem, como te rogo que perdoes
A maus e bons. Comido foi o fruto
Da última estação, e a besta empanzinada
Há de atirar seus coices contra o cocho.
Pois as palavras do ano findo só pertencem
A linguagem do ano findo, e as palavras
Do ano próximo outra vez aguardam.
Mas, assim, como agora a estrada se abre limpa
Ao intranquilo e peregrino espírito
Entre dois mundos que chegaram a parecer
Demasiado iguais, assim descubro agora
Palavras que jamais pensei dizer
Em ruas que jamais pensei revisse
Quando meu corpo abandonei sobre uma praia.
Posto que nosso fim era a linguagem,
E a linguagem desde sempre nos levara
A purificar o dialeto da tribo
E a instigar a mente para a antevisão
E a pós-visão, deixa-me revelar as dádivas
À velhice reservadas, para que seja
Corado o esforço de tua vida inteira.
Primeiro, o enregelado atrito dos sentidos
Que expiram sem magia e nada prometer,
Senão a amarga insipidez de um fruto umbroso
Quando a alma e o corpo, espedaçados, principiam
A tombar cada qual para seu lado.
Segundo, a lúcida impotência do ódio
Ante a loucura humana, e laceração do riso
Perante aquilo que cessou de divertir-nos.
Enfim, a lacerante dor de reviver
O que já terminaste, e o que foste; a vergonha
De motivos tarde apenas revelados
E a memória de todas as coisas mal feitas
Ou feitas simplesmente em prejuízo alheio
Que antes tomaste por virtuosas práticas.
Nesse momento é que se arranca o aplauso
De tolos, e a honra se macula.
O erro após erro, o exasperado espírito
Prosseguirá, se revigorando não for
Por esse fogo purificador
Onde mover-te deves como um bailarino”.
Raiava o dia. Na desfigurada rua
Ele deixou-me, como um esquiva despedida,
E evaporou-se ao brônzeo som da trompa.

III

Três condições existem que amiúde iguais parecem
Embora difiram por completo, na mesma sebe florescem:
Apego a si próprio e das coisas e das pessoas; e, entre ambas germinando, indiferença
Que às outras se assemelha tal a morte se assemelha à vida
E que entre duas vidas se enraíza – enflorescida, entre
A urtiga viva e a morta urtiga. Esta é a função da memória:
Libertação – não menos amor, mas expansão
De amor para além do desejo, como também libertação
Do passado e do futuro. Assim, o amor é um país
Começa como apego à nossa própria esfera de ação
E acaba por jugar que tal ação seja de pouca importância
Conquanto nunca indiferente. A História pode ser escravidão,
A História pode ser liberdade. Vê, tudo agora se dissolve,
As faces e os lugares, com o eu que, tal como pôde, os amou
– Para se renovarem, transfigurados, em outro modelo.

O Pecado é Inelutável,
Mas tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem.
Se ainda me lembro desta terra,
E desta gente, não de todo elogiáveis,
Sem parentesco nem bondade próximos,
Exceto alguns de gênio singular,
Todos marcados por um só gênio comum,
Unidos na discórdia que os sangrava;
Se me lembro de um rei à noite vindo,
De três homens, ou mais, sobre o patíbulo
E de muitos que morreram deslembrados
Em outros lugares, aqui e no estrangeiro,
E daquele que morreu cego e tranquilo,
Por que haveríamos então de celebrar
A estes mortos mais que aos moribundos?
Não que se trate aqui de exorcizar
O som de um tímpano retrospectivo
Como tampouco de sortilégio
Para invocar o espectro de uma Rosa.
Não podemos reviver velhas tendências
Não podemos restauras velhas políticas
Ou dar ouvidos a um tambor antigo.
Estes homens, como os que a eles se opuseram,
E todos aos quais se opuseram aqueles,
Aceitam a constituição do silêncio
E se congregam num partido único.
Tudo quanto herdamos dos afortunados
Tomado foi por nós aos derrotados
Seu único legado – um símbolo:
Um símbolo de morte temperado.
E tudo irá bem e toda sorte de coisa irá bem
Pela purificação do impulso,
Nas raízes de nossa súplica.

IV

A pomba mergulhando rasga o espaço
Com flama de terror esbraseado
Cujas línguas arrojam sem cessar
Um jorro apenas de erro e de pecado.
Toda esperança, ou mais desesperar,
Está na escolha de uma ou de outra pira
– Para que o fogo pelo fogo nos redima.

Quem, pois, urdia tanto suplício? Amor.
Amor é Nome de furtiva chama
Sob as mãos que teceram com rancor
A intolerável túnica de flama
A que poder algum se pode opor.
Apenas suspiramos, ainda vivos,
Por esse ou outro fogo consumidos.

V

O que chamamos de princípio é quase sempre o fim
E alcançar um fim é alcançar um princípio.
Fim é o lugar de onde partimos. E cada frase
Ou sentença de rigor (onde cada palavra se ajusta,
Assumindo seu posto para suportar as demais,
A palavra sem pompa ou timidez,
Um natural intercâmbio do antigo e do novo,
A palavra de cada dia, correta e sem vulgaridade,
A palavra exata e formal, mas não pedante,
O completo consórcio de um bailado simultâneo)
Cada frase e cada sentença são um fim e um princípio,
Cada poema um epitáfio. E qualquer ação
É um passo rumo ao todo, ao fogo, a uma descida à garganta do mar
Ou à pedra indecifrável – e daí é que partimos.
Morremos com os agonizantes:
Vê, eles nos deixaram e com eles vamos nós.
Nascemos com os mortos:
Vê, eles retornam, e consigo nos trazem.
O momento da rosa e o momento do teixo
Igual duração possuem. Um povo sem História
Não está redimido do tempo, pois a História é o modelo
Dos momentos sem tempo. Assim, enquanto a luz se extingue
Num tarde de inverno, numa capela reclusa
A História é agora e Inglaterra.

Com o impulso desde Amor e a voz deste Chamado

Não cessaremos nunca de explorar
E o fim de toda nossa exploração
Será chegar ao ponto de partida
E o lugar reconhecer ainda
Como da vez primeira que o vimos.
Pela desconhecida, relembrada porta
Quando o último palmo de terra
Deixado a nós por descobrir
Aquilo for que era o princípio.
Nas vertentes do mais longo rio
A voz da cascata escondida
E as crianças na macieira
Não percebidas, porque não buscadas
Mas ouvidas, semi-ouvidas, na quietude
Entre duas ondas do mar.
Depressa agora, aqui, agora, sempre
– Uma condição de absoluta simplicidade
(Cujo custo é nada menos que tudo)
E tudo irá bem e toda
Sorte de coisa irá bem
Quando as línguas de chama estiveram
Enrodilhadas no coroado nó de fogo
E o fogo e a rosa se tornarem um.»

***

11:38 e tenho 20 minutos para amadurecer uma ideia… ir ou não ir.

15:04 e gosto de estar só, mas sou bem melhor quando acompanhado… isso eu sei. eu fui… não deu nada certo, mas não foi tempo perdido… caminhar e conversar faz bem. o médico da filha ficou pra amanhã, o meu também. e as madeira… vou tentar comprar por telefone…

15:08 ps: lembrar de alterar o telefone em todos os cadastros.. não é que a tim cancelou o meu antigo número, me furtaram 15 pila nessa brincadeira…

15h44 ok, eu não li todo mário quintana pra saber… mas achei bonito uma passagem atribuída a ele. que vai abaixo, mas pesquisando para saber de qual obra… descubro que é  de autoria desconhecida.

«Na convivência, o tempo não importa.
Se for um minuto, uma hora, uma vida.
O que importa é o que ficou deste minuto,
desta hora, desta vida…
Lembra que o que importa
… é tudo que semeares colherás.
Por isso, marca a tua passagem,
deixa algo de ti,…
do teu minuto,
da tua hora,
do teu dia,
da tua vida.»

 (…) 

mas achei esse blogue bacaninha: blogentreaspas:   «sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim»

Editora Nova Fronteira 1979«O apartamento me reflete. À no último andar, o que é considerado uma elegância. Pessoas de meu ambiente procuram morar na chamada “cobertura”. À bem mais que uma elegância. À um verdadeiro prazer: de lá domina-se uma cidade. Quando essa elegância se vulgarizar, eu, sem sequer saber por que, me mudarei para outra elegância? Talvez. Como eu, o apartamento tem penumbras e luzes úmidas, nada aqui é brusco; um aposento precede e promete o outro. Da minha sala de jantar eu via as misturas de sombras que preludiavam o living. Tudo aqui é a réplica elegante, irínica e espirituosa de uma vida que nunca existiu em parte alguma: minha casa é uma criação apenas artí­stica.

Tudo aqui se refere na verdade a uma vida que se fosse real não me serviria. O que decalca ela, então? Real, eu não a entenderia, mas gosto da duplicata e a entendo. A cópia é sempre bonita. O ambiente de pessoas semi-artí­sticas e artí­sticas em que vivo deveria, no entanto, me fazer desvalorizar as cópias: mas sempre pareci preferir a paródia, ela me servia. Decalcar uma vida provavelmente me dava ” ou dá ainda? até que ponto se rebentou a harmonia de meu passado? -, decalcar uma vida provavelmente me dava segurança exatamente por essa vida não ser minha: ela não me era uma responsabilidade.

O leve prazer geral ” que parece ter sido o tom em que vivo ou vivia ” talvez viesse de que o mundo não era eu nem meu: eu podia usufruí­-lo. Assim como também aos homens eu não os havia feito meus, e podia então admirá-los e sinceramente amá-los, como se ama sem egoí­smos, como se ama a uma idéia. Não sendo meus, eu nunca os torturava.

Como se ama a uma idéia. A espirituosa elegância de minha casa vem de que tudo aqui está entre aspas. Por honestidade com uma verdadeira autoria, eu cito o mundo, eu o citava, já que ele não era nem eu nem meu. A beleza, como a todo o mundo, uma certa beleza era o meu objetivo? eu vivia em beleza?

Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira ” como naquele momento em que ontem de manhã estava sentada à mesa do café ” quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e outra à direita de mim. De algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se fosse ” uma inexistente me possuí­a toda e me ocupava como uma invenção. Somente na fotografia, ao revelar-se o negativo, revelava-se algo que, inalcançado por mim, era alcançado pelo instantâneo: ao revelar-se o negativo também se revelava a minha presença de ectoplasma. Fotografia é o retrato de um cíncavo, de uma falta, de uma ausência?» extraí­do da sexta edição publicada pela Editora Nova Fronteira em 1979 – págs. 26/27.

sobre exílios íntimos e outras ideias

2017, março 1, quarta-feira

a água do mate esquentou.

a arrumação de ontem trouxe uma inesgotável ranheira…

dormi as 4h30 (ou algo assim, porque acordei no meio disso com um grilo alucinando dentro do meu ouvido, literalmente). acordei era quase 8hoo. assim, pra começar o ano bem.

colo passagens minhas e alheias:

«Um homem que não teve seus silêncios,
o que teve na vida? É preciso
ter estado entre os outros, sozinho.» —  Geraldino Brasil

«Sempre que se começa a ter amor a alguém, no ramerrão, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na idéia, querendo e ajudando, mas quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer, e é um só facear com as surpresas. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois.”  — João Guimarães Rosa, no livro “Grande Sertão: veredas» . Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988

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«No piloto automático… olheiras nas aulas… dormindo em qualquer ônibus… precisando respirar… isso de 5 terceiros anos, 6 segundos e 11 primeiros vai me exigir um bocado. E a segunda semana de aula nem começou direito ainda…»   — Eu, há exatos um ano.

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«O território é primeiramente a distância crítica entre dois seres de mesma espécie: marcar suas distâncias. O que é meu é primeiramente minha distância. Não possuo senão distâncias. Não quero que me toquem, vou grunhir se entrarem em meu território, coloco placas. A distância crítica é uma relação que decorre das matérias de expressão. Trata-se de manter à distância as forças do caos que batem à porta.»   — (DELEUZE, p. 127, 1997)

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«Fixou o olhar em uma diminuta mancha escura na ponta dos dedos que tesouravam um cigarro. Deu um generoso trago aspirando a fumaça para os pulmões e lentamente a expirou, ainda olhando para os dedos: – Se vai continuar fotografando a minha vida, é preciso saber que eu estava feliz naquele quartinho. Porque, na verdade, eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas.»  (Mario Quintana em entrevista)

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tarefas para logo mais: fixar porta e janela, limpar o outro quarto. // dar fim nos resíduos não orgânicos // peladar // preparar as aulas de logo mais // preencher professoronline? // …

kalu

2015, junho 6, sábado

sabe quando você demora para dormir porque tua cabeça está girando sem parar em muitos pensamentos… coisas que não deviam estar lá as três da manhã… algo do tipo que caminho seguir? como dizer as palavras? se sigo em silêncio ou se aceno?

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e ai pela manhã, cedo, tu é acordado pelo toque do telefone. alguém te acordou e não foi teu despertador. você estragou tudo. você ferrou o dia… os planos, os compromissos. você se desencontrou de alguém. você dormiu demais no ponto. você perdeu. e desapontou… você furou algo que poderia ter sido bacana… certamente seria.

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e então, de forma indolor, pragmática… já que não vou sair mais. e terei mesmo que pedir desculpas pessoalmente mais tarde. não vou ficar na fossa por cá não. vou é escrever este textinho, registrar isto. ter claro… que, as vezes, por querer ou não, eu sou esse cara que deixa as pessoas na mão… em furadas. mas sem me apenar… vou tirar para mim este dia, e por tudo em ordem… tudo que deixei de lado nestes tempos de greve. e tentar fazer desse dia algo mais pragmático e menos sonhador…

mesmo que minha cabeça insista em ficar girando e haja esse monte de coisas engasgadas aqui que precisam ser ditas…

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tentei encontrar aquele trecho em que chico buarque canta humberto teixeira… para falar sobre as coisas tácitas, sobre nossas palavras ditas, não ditas, esperadas, e por serem ditas…

Kalu /// Composição: Humberto Teixeira // Kalu, Kalu / Tira o verde desses óios di riba d’eu / Não me tente se você já me esqueceu / Kalu, Kalu / Esse oiá despois do que se assucedeu / Com franqueza só não tendo coração / Fazê tar judiação / Você tá mangando di eu / Com franqueza só não tendo coração / Fazê tar judiação / Você tá mangando di eu /.

e lembrei desta canção aqui também: Que Nem Kalu.

ps: vou ali fora dar um giro no mundo… e quando voltar termino as notas que ficaram por publicar. e cada verbo encapsulado dentro de uma garrafa lançarei ao mar, desde esta ilha de única árvore, e seguirão, os verbos engarrafados rumo ao desconhecido… para o diálogo futuro com os seres de outros mares, doutras ilhas…

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129054

o sobre o diálogo gatuno {que tem me instigado um bocado}:

O GATO, poema de Mário Quintana

«O gato chega à porta do quarto onde escrevo.
Entrepara…hesita…avança…

Fita-me.
Fitamo-nos.

Olhos nos olhos…
Quase com terror!

Como duas criaturas incomunicáveis e solitárias
Que fossem feitas cada uma por um Deus diferente.»

ODA AL GATO, poema de Pablo Neruda

«Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde bigote a cola,
desde presentimiento a rata viva,
desde la noche hasta sus ojos de oro.

No hay unidad
como él,
no tienen
la luna ni la flor
tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea en su contorno
firme y sutil es como
la línea de la proa de una nave.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño
emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento del amor
en la intemperie
reclamas
cuando pasas
y posas
cuatro pies delicados
en el suelo,
oliendo,
desconfiando
de todo lo terrestre,
porque todo
es inmundo
para el inmaculado pie del gato.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnástico
y ajeno,
profundísimo gato,
policía secreta
de las habitaciones,
insignia
de un
desaparecido terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te sabe y perteneces
al habitante menos misterioso,
tal vez todos lo creen,
todos se creen dueños,
propietarios, tíos
de gatos, compañeros,
colegas,
discípulos o amigos
de su gato.

Yo no.
Yo no suscribo.
Yo no conozco al gato.
Todo lo sé, la vida y su archipiélago,
el mar y la ciudad incalculable,
la botánica,
el gineceo con sus extravíos,
el por y el menos de la matemática,
los embudos volcánicos del mundo,
la cáscara irreal del cocodrilo,
la bondad ignorada del bombero,
el atavismo azul del sacerdote,
pero no puedo descifrar un gato.
Mi razón resbaló en su indiferencia,
sus ojos tienen números de oro.»

***

e os próximos poemas?