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IX

[qua] 9 de fevereiro de 2011

Imerso na chuva, na madrugada e nas canções… Retomo a leitura de Gorki.

[Gorki, Maksim, 1868-1936. Pequenos burgueses; Mãe / Máximo Gorki; traduções de Fernando Peixoto, José Celso Martinez Correa, Shura Victorovna. – São Paulo: Abril Cultural, 1979. Capítulos IX e X. Trecho entre as páginas 257-266]

IX

Surgiram rumores no bairro sobre socialistas que jogavam panfletos escritos a tinta azul. Nesses panfletos falava-se mal das leis da fábrica, sobre as greves operárias em Petersburgo e no Sul da Rússia, os operários eram convocados à reunião e à luta pelos seus interesses!

As pessoas mais velhas, que tinham bons salários na fábrica, ficavam indignadas:

– Desordeiros! Os que se metem nisso merecem um soco na cara!

E os panfletos foram distribuídos nas repartições. A juventude lia as declarações com interesse:

– É verdade!

A maioria, dilacerada pelo trabalho e indiferença a tudo reagia preguiçosamente:

– Não vai haver nada!

Contudo, os panfletos inquietavam as pessoas e, se não apareciam durante uma semana, já começavam a falar entre si:

– Parece que desistiram de imprimir…

Mas na segunda-feira os manifestos voltavam a surgir, e novamente agitavam-se os operários.

No bar e na fábrica, começavam a aparecer caras novas que ninguém conhecia. Estes interrogavam, revistavam, farejavam e eram facilmente identificados; uns, por excessiva e suspeita cautela, outros, por excessivo interesse.

A mãe compreendia que aquele barulho era obra de seu filho. Ela via como as pessoas cercavam-se, e o temor pelo destino de Pavel confundia-se com o sentimento de orgulho pelo filho.

Certa noite, Maria Corssunova bateu à janela e, quando a mãe abriu-a, a outra murmurou veemente:

– Cuidado, Pelaguéa, a brincadeira dos engraçadinhos terminou! Decidiram dar uma busca, esta noite, em sua casa, na de Masin e Vessovtchivov…

Os grossos lábios de Maria batiam depressa um no outro, seu nariz carnudo ofegava, os olhos piscavam e reviravam de uma lado para outro, lançando olhares furtivos para a rua.

– Mas eu não sei de nada e nada te disse e não estive com você hoje, está ouvindo?

Ela desapareceu.

A mãe, após fechar a janela, deixou-se cair na cadeira. Mas a consciência do perigo que ameaçava o filho, fê-la levantar-se rapidamente, vestiu-se com energia, enrolando a cabeça no chale e correu para casa de Fédia Masin; este estava doente e não ia ao trabalho. Quando ela chegou, ele estava perto ja janela lendo, e balançava a mão direita com a esquerda, esticando muito o polegar. Ao saber da novidade, deu un salto na cadeira e seu rosto empalideceu.

– Essa agora! – murmurou.

– Que dvemos fazer? – perguntava Vlassova linpando o suor do rosto, com mão trêmula.

– Espere, não tenha medo! – respondeu Fédia, alisando seu cabelo crespo, com mão enorme.

– Mas o senhor próprio está com medo! – exclamou ela.

– Eu? – suas bochechas ficaram vermelhas e, com sorriso encabulando, disse: – sim, diabo… Temos de avisar Pavel. Vou já mandar-lhe alguém! É melhor a senhora ir embora. Não vai haver nada. Não vão bater, vão?

Ao voltar para casa ela reuniu todos os livros e, apertando-os contra o peito, vagou pela casa, examinando o fogão, embaixo deste, e até mesmo a tina de água. Parecia-lhe que Pavel deixaria imediatamente, o trabalho e voltaria para casa, e nada de ele aparecer. Finalmente, exausta, sentou-se no banco da cozinha, sobre os livros, e assim permaneceu, com medo de levantar-se até o momento em que Pavel e o ucraniano retornassem da fábrica.

– Já sabem? – exclamou, sem levantar-se.

– Sabemos! – disse Pavel, sorrindo. – Tem medo?

– Claro que tenho medo!

– Não precisa ter receio! – disse o ucraniano. – Isto não adianta nada.

– Nem preparou o samovar! – obersou Pavel.

A mãe ficou em pé e, apontando os livros, explicou com ar de culpa:

– É que fiquei com eles o tempo todo…

O filho e o ucraniano caíram na risada e isso encorajou-a. Pavel separou alguns livros e levou-os para o quintal, para escolhê-los, enquanto que o ucraniano, colocando o samovar no fogão, dizia:

– Nada há de terrível, mãezinha, só que é vergonhoso que as pessoas se preocupem com mesquinharias. Virão adultos com sabre na cintura, esporas nas botas e vão bisbilhotar e rebuscar em toda a parte. Vão olhar embaixo da cama e do fogão; se houver adega, vão se enfiar lá; se houver sotão, vão até lá também. Lá, uma teia de aranha vai-lhes cair no focinho e vão grunhir. Estão chateados, envergonhados e é por isso que fingem, como se fosses pessoas más e com raiva da senhora. Trabalho porco, eles mesmos sabem! Uma vez reviraram tudo na minha casa, ficaram confusos e saíram, simplesmentem; mas de outra feita, levaram-me com eles. Colocaram-me na prisão, onde fiquei uns quatro meses. Mofava, mofava, às vezes chamavam-me, davam uma volta comigo, perguntavam coisas. São meio burros, falam tanta besteira e, depois de falarem comigo, ordenavam aos soldados levarem-me de volta à cadeira. E ficam nisso: pra lá e pra cá. Precisam justificar o salário! Depois acabam soltando a pessoa e pronto!

– Fala tão bem sempre, Andriucha! – exclamou a mãe.

Ajoelhado perto do samovar, ele soprava com força, mas agora levantou o rosto, vermelho pelo esforço, e, alisando o bigode com ambas as mãos, perguntou:

– E como é que falo?

– Assim, como se nunca ninguém o ofendesse…

– Ele ficou de pé e, sacudindo a cabeça, começou a dizer, com um sorriso nos lábios:

– Há, por acaso, no mundo uma alma que nunca tenha sido humilhada ou ofendida? Já fui ultrajado, magoado, que já me cansei de ficar sentindo. Que fazer se os homens não podem proceder de outro forma? As ofensas atrapalham o trabalho, o dever, e deter-se por causa delas é perder tempo à toa. É a vida! Antigamente, havia momentos em que odiava as pessoas. Mas, pensando melhor, vi que não valia a pena. Qualquer um teme que o vizinho dê um golpe e, por isso, apressa-se a dar um golpe de primeiro. É a vida, mãezinha!

As palavras dele fluíram calmamente, afugentando a angústia da espera, os olhos saltados sorriam, e todo ele, ainda que desajeitado, transmita flexibilidade, leveza.

A mãe suspirou e desejou-lhe ardentemente:

– Que Deus lhe traga felicidade, Andriucha!

O rapaz deu longa passada em direção ao samovar, agachaou-se novamente, e murmurou:

– se derem a felicidade, não vou recusar; mas pedir, jámais!

Vindo do quintal, Pavel disse com veemência:

– Não vão achar! – e começou a lavar as mãos.

Depois, enxugando-as bem, disse:

– Se a senhora, mãe, mostrar-lhes que fiou asustada, vão pensar: quer dizer que exite algo nesta casa, já que treme tanto. A senhora entende: não queremos de ruim, a verdade está do nosso lado, e vamos trabalhar por ela a vida toda. Eis nossa culpa e pecada! Então, para que ter medo?

– Pacha, terei coragem – prometeu ela. Mas, logo, escapou-lhe um queixume: – Se ao menos não demorassem!

Mas eles não vieram e, ao amanhecer, antecipando-se às piadas por causa do seu medo, a mãe smbou de sim mesma.

Assustei-me antes do medo!

[pp. 257-260]

***

X

[Trecho entre páginas 260-261 e Trecho entre páginas 262-266, abaixo]

Súbito, a voz de ferir o ouvido, de Nicolai, quebrou o silêncio:

– Pra que isto? Pra que jogar os livros no chão?

A mãe estremeceu. Teriakov sacudiu a cabeça como se tivesse levado um empurrão na nuca, ao passo que Rybin tossiu e olhou, atento, para Nicolai.

O oficial semicerrou os olhos e cravou-os, por um segundo no rosto bexiguento, imóvel. Seus dedos folhearam as páginas do livro com maior rapidez. Por instantes, abria tanto seus olhos cinzentos como se sentisse uma dor insuportável e pronto a soltar um berro de raiva impotente contra aquela dor.

– Soldado! – disse novamente Vessovtchikov. – Apanhe os livros…

Todos voltaram-se para ele, depois olharam para o oficial. Ele voltou a erguer a cabeça e, percorrendo a longa figura de Nicolai como olhar perscrutador, disse entre dentes:

– Apanhem… vá…

Um dos policiais abaixou-se e, olhando enviesado para Vessovtchikov, começou a recolher os livros amassados…

– Era melhor que Nicolai ficasse calado! – sussurou a mãe a Pavel.

Ele encolheu os ombros. O ucraniano baixou a cabeça.

– Quem está lendo a Bíblia?

– Eu! – disse Pavel.

– De quem são esses livros?

– Meus! – respondeu Pavel.

– Certo! – disse o oficial, apoiando-se à cadeira. Estalou os dedos das mãos finas, esticou as pernas sob a mesa, endireitou o bigode e perguntou a Nicolai:

– Você é que é Andrei Nakhodka?

– Eu – respondeu Nicolai, adiantando-se. O ucraniano estendeu a mão, pegou-o pelo ombro, obrigando-o a recuar!

– Enganou-se! Andrei sou eu!…

O oficial, ameaçando Vessovtchikov com seu pequeno dedo, disse:

– Vê lá, hein!

Começou a remexer sua papelada.

A noite clara de luar espiava pela janela com seus olhos indiferentes. Alguém caminhava devagar pela rua, rangendo na neve.

– Você, Nakhodka, já foi fichado por crimes políticos? – perguntou o oficial.

– Em Rostov e em Saratova… Só que lá os policiais chamavam-me de “senhor”…

O oficial piscou o olhos direito, esfregou-o e, arreganhando os dentes miúdos, disse:

– Talvez o senhor saiba, Nakhodka, precisamente o senhor, quem são os miseráveis que andam espanhando, pela fábrica, manifestos criminosos, hein?

O ucraniano vacilou sobre as pernas e, com largo sorriso, quis dizer algo, mas a voz irritante de Nicolai ressou na sala:

– É a primeira vez que vemos canalhas…

Fez-se silêncio, todos ficaram imóveis por uma fração de segundo.

A cicatriz no rosto da mãe empalideceu, e sua sombrancelha direito ficou repuxada para cima. A barba negra de Rybin teve estranho estremecimento; baixando os olhos, começou a cofiá-la vagarosamente.

– Levem daqui essa besta! – ordenou o oficial.

Dois policiais agarraram Nicolai pelos braços, e levaram-no brutalmente à cozinha. Lá, ele parou, e com os pés fincados no chão gritou:

– Esperem… vou vestir-me!

O comissário entrou na casa e disse:

– Não há nada. Rebuscamos tudo!

– É lógico! – exclamou, irônico, o oficial. – Aqui está um homem experiente…

A mãe ouvia sua voz débil, trêmula e insegura e, fitando o rosto amarelo, com terror, pressentia naquele homem um inimigo implacável, com o coração repleto de desprezo burguês ás pessoas. Ela raramente via pessoas assim e quase esqueceu que elas existiam.

“Eis a quem perturbamos!” – pensava ela.

– O senhor, Andrei Onissimov Nakhodka, filho ilegítimo está preso!

– Por quê? – perguntou tranquilo o ucraniano.

– Isso eu lhe direi depois! – respondeu o oficial, mal se contendo de raiva. E, voltando-se para Vlassova, perguntou: – Você sabe escrever?

– Não! – respondeu Pavel.

– Não estou perguntando a você! – disse o oficial com severidade e voltou a perguntar: – Velha, responda!

A mãe, deixando-se dominar pelo ódio, endireitou o corpo, rápido, como se tivesse levado uma ducha gelada, estremeceu, sua cicatriz injetou-se de sangue, e a sobrancelha caiu:

– O senhor não grite! – começou ela, estendendo a mão em sua direção. – O senhor é moço ainda e não conhece a dor…

– Acalme-se, mãe! deteve-a Pavel.

– Espere Pavel! – gritou a mãe, investindo para a mesa. – Por que prendem as pessoas?

– Isso não é da sua conta. Cale-se! – gritou o oficial, ficando de pé. – Tragam o preso Vessovtchikov!

E passou a ler um papel qualquer, aproximando-o muito dos olhos.

Nicolai foi trazido.

– Tire o chapéu! – gritou o oficial, interrompendo a leitura.

Rybin aproximou-se de Vlassova, e cutucando-a com seu ombro, disse baixinho:

– Calma, mãe…

– Como posso tirar o chapéu, se me seguram as mãos? – perguntou Nicolai, abafando a leitura do protocolo.

O oficial jogou o papel na mesa.

– Assinem!

A mãe olhava enquanto assinaval o protocolo, sua excitação extinguiu-se, o coração caiu, lágrimas de ofensa e impotência brotaram em seus olhos. Com estas lágrimas chorou vinte anos de seu asamento, mas nos últimos tempo havia esquecido seu gosto amargo; o oficial olhou-a e, fazendo careta de nojo, comentou:

– Ainda é cedo para tanto alarde, minha cara! Cuidado, que as lágrimas vão faltar depois!

Novamente enfurecida, disse:

– Qualquer mãe tem lágrimas para tudo. Para tudo! Se o senhor tem mãe, ela sabe disso!

O oficial guardou apressado a papelada numa pasta nova, com cadeado reluzente.

– Em marcha! – comandou.

– Até logo, Andrei, até logo, Nicolai! – disse Pavel com voz baixa e quente, apertando as mãos dos companheiros.

– É isso mesmo: até logo! – repetiu o oficial, zombeteiro.

Vessovtchikov respirava com dificuldade. O sangue afluiu para seu grosso pescoço, os olhos faiscavam de fúria. O ucraniano era todos sorrisos, sacudia a cabeça e dizia algo à mãe que o benzia e também dizia:

– Deus conhece os justos…

Finalmente o bando de homens de cinzento investiu para o vestíbulo, e, tinindo com as esporas, desapareceu. O último a sair foi Rybin, que percorreu Pavel com o olhar atento de seus olhos escuros, e disse com ar pensativo:

– Então, até a vista!

E, tossindo para dentro da barba, saiu sem pressa.

Com as mãos às costas, Pavel andava devagar pela sala, sem pisar nos livros e nas roupas espalhadas pelo chão, dizendo sombrio:

– Está vendo como se faz isso?…

Olhando atônita o quarto em desordem, a mãe murmurou aflita:

– POr que Nicolai tinha que ser tão grosseiro?…

– Deve ter sido o medo – disse Pavel, baixinho.

– Vieram, agarraram e levaram – balbuciou a mãe, agitando os braços.

O filho ficou em casa, se coração começou a pulsar mais devagar, ao passo que a mente imobilizava-se diante do fato, sem poder abraça-lo.

– Aquele amarelo zomba, faz ameaças…

– Bem, mãe! – disse Pavel, de repente, com determinação. – Vamos arrumar isso tudo…

Ele disse-lhe “mãe” e “você”, o que só acontecia quando estava mais próximo dela. Adiantou-se para ele e, perscrutando-lhe o rosto, perguntou baixinho:

– Eles machucaram você?

– Sim – respondeu. – Isso é duro! Seria melhor se fosse com eles…

Julgou ver lágrimas em seus olhos e, desejando confortá-lo, vagamente intuindo sua dor, disse suspirando:

– Paciência, vão levá-lo também!

– Levarão! – retrucou.

Após breve silêncio, a mãe observou com tristeza:

– Como você é cruel, Pacha! Se me consolasse ao menos uma vez! Mas não, se digo horrores, você diz algo mais terrível ainda.

Olhou-a de relance, aproximou-se e disse baixinho:

– Eu não sei fazer isso, mamãe! Você precisa acostumar-se.

Ela suspirou, calada, depois disse, reprimindo o tremor do medo:

– Pode ser que eles torturem as pessoas? RAsgam o corpo, quebram os ossos? Só de pensar, Pacha, meu querido, sinto pavor!…

– Eles quebram a alam… Isso dói mais, quando com mãos imundas…

x

[qui] 27 de janeiro de 2011

1:29. as roupas estão na máquina. logo irão ao varal – quando acabar este texto. rigoberta, a gata, desliza sobre meus pés. a noite é calma e a brisa é boa. e amanhã – ou para ser exato, logo mais – o destino é lagoa do peri. um pequeno pedal pela ilha. algo em torno de setenta e cinco quilômetros somando a ida e volta é o sinaliza o google maps – bem que poderia haver uma opção bike no calculo de distância do google.

nesta quarta-feira oscilei entre a tranquilidade e angustia. cavei a terra, podei as plantas, tomei um mate, brinquei com izabel e… estar tão perto da família, no mesmo terreno ainda – já que não há uma delimitação exata ainda e o que há é apenas o esboçamento de relações materiais e espirituais que turvamente sinalizam quais são, e serão, as responsabilidades e possibilidades – e nesta situação ainda precária tanto econômica quanto profissionalmente e a falta de atenção emocional por vezes me levam me enredar nas armadilhas do sofrimento. é preciso lembrar e relembrar que não posso e nem devo tentar resolver as frustações e limitações alheias. preciso, e posso, dar o exemplo de como eu resolvo ou lido com as neuroses – que são pessoais, no sentido psicofisico, mas são sobretudo produtos das relações sociais… todas as neuroses são sociais. são frutos das relações desiguais tanto estruturais quanto dinamicas produzidas e reproduzidas pelo sistema. cuidar de mim, é só isso. É só desta forma que posso cuidar dos outros. e cuidar de mim já é um desafio enorme… casamentos frustrados; infâncias de agressões físicas e, sobretudo, psicológicas; falta de carinho e respeito; ausência de perspectivas econômicas, profissionais, espirituais etc. enfim, problemas de familia… e onde um olha torto… e quando percebemos todos já descarregaram sua raiva e frustração sobre os outros sem entender porque agridem-se… porque competem.

nesta terça-feira tomei muita cerveja, revi amigos e adentrei a madrugada ouvindo’ causos’ e morrendo de rir – às gargalhadas.

neste mês… encerrei a conta na BU entregando “Las estructuras elementales del parentesco”; “Viva vaia:  poesia 1949-1979”; “Poesia concreta brasileira:  as vanguardas na encruzilhada modernista”; e “Potencialidade de uso de fontes alternativas de água para fins não potáveis em uma unidade residencial”. Leio Gorki.

***

X

Eles só apareceram cerca de um mês depois daquela noite angustiante. Pavel, Nicolai Vessovtchikov e Andrei discutiam sobre seu jornal. Era tarde, quase meia-noite. A mãe já estava deitada e, adormeceu, no torpor da sonolência, ouvia as vozes roucas e preocupadas. Ouviam-se os passos de Andrei que, de mansinho, atravessou a cozinha, fechando cuidadosamente a porta atrás de si. O balde de ferro caiu com estrondo no vestíbulo. E súbito; a porta abriu-se com violência: era o ucraniano que, da porta da cozinha, murmurou:

– Batem as esporas!

A mãe pulou da cama, agarrando o vestido, mas veio Pavel que disse tranquilo:

– A senhora continua deitada. Está doente!

Ruídos estranhos vinham do vestíbulo. Pavel aproximou-se da porta e, empurrando-a com a mão, interpelou:

– Quem está aí?

Uma figura cinzenta surgiu imediatamente à porta, depois outra; dois policiais  cercaram Pavel e ouviu-se uma voz possante e zombateira:

– Não é quem esperavam, hein?

Quem falava era um oficial alto e magro, com bigode preto e ralo. O guarda do bairro, Fediakin, surgiu diante da cama da mãe e, levando uma das mãos ao quepe, com a outra apontando para o rosto dela, declarou, com um olhar terrível:

– Esta é a mãe dele, Vossa Excelência! – E, apontando Pavel, acrescentou: – Aquele é o próprio!

– Pavel Vlassov? – perguntou o oficial, franzindo os olhos, e quando Pavel concordou, ele declarou, torcendo o bigode: – Devo fazer uma busca em sua casa. Velha, levante-se! Quem está ali? – perguntou, procurando ver o quarto, para onde dirigiu-se bruscamente:

– Seu sobrenome? – ouviu-se sua voz.

Vieram do vestíbulo duas testemunhas voluntárias: o velho mestre de fundição Tveriakov e seu inquilino, o foguista Rybin, um mujique sólido e moreno. Este declarou em voz possante e sonora:

– Salve, Nilovna!

Ela estava se vestindo e para imprimir coragem a si mesma dizia baixinho:

– Que é isso! Chegam no meio da noite. As pessoas estão dormindo e eles vão entrando!…

A sala ficou apertada e com inexplicável forte cheiro de graxa. Dois policiais e o comissário do bairro, Ryskin, pisando forte tiravam os livros da estante, empilhando-os na mesa, diante do oficial. Os outros dois davam socos nas paredes, examinavam sob as cadeiras, um deles trepava, desajeitado, no fogão. O ucraniano e Vessovtchikov, apertados um contra o outro, estavam num dos cantos da sala. O rosto bexiguento de Nicolai cobriu-se de manchas vermelhas, e seus pequenos olhos cinzentos não se desperegavam do oficial. O ucraniano torcia o bigode, e quando a mãe entrou no quarto, fez-lhe sinal carinhoso com a cabeça, sorrindo.

Esforçando-se por reprimir o terror, ela não se movimentava de lado, como de costume, mas firme, com o peito erguido, o que lhe emprestava um ar engraçado e de forçada dignidade. Batia forte com os pés, mas suas sombrancelhas tremiam…

O oficial folheava, apressado, os livros com os dedos finos de suas mãos brancas; sacudia-os, com gesto hábil da mão, jogava-os para o lado. Havia momentos em que algum dos livros caía no chão. Ninguém falava, ouvia-se a respiração difícil dos policiais cobertos de suor, tiniam as esporas, às vezes irrompia uma voz:

– Já olhou aqui?

A Mãe aproximou-se de Pavel, à parede, cruzou os braços no peito, como ele, e também ficou olhando o oficial. Seus joeçhos tremiam, e seco nevoeiro embaraçava-lhe os olhos.

[Gorki, Maksim, 1868-1936. Pequenos burgueses; Mãe / Máximo Gorki; traduções de Fernando Peixoto, José Celso Martinez Correa, Shura Victorovna. – São Paulo: Abril Cultural, 1979. Trecho entre as páginas 260-261]

{PS: Capítulo IX e continuação do Capítulo X aqui}

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