Archive for the 'Poesia' Category

via espessa… consoantes líquidas.

2019, abril 18, quinta-feira

02:30 vibrantes / laterais / tapes.

14:04 deitado na cama penso: como eu consigo dar tantas voltas sem sair do lugar… por que me afundo tanto em pensamentos? até banho eu já tomei, basta apenas colocar uma camiseta, escovar os dentes e ir lá devolver o livro na biblioteca, pagar a multa por quase uma semana de atraso, pegar a negativa da bu e do ru e trancar a porra do curso. é tão simples… tão simples.

fico pensando milhões de coisas, algumas são nitidamente fugas aleatórias… outras são os tais pensamentos negativos. porra cabeça, ajuda. se mexe rapaz…

me distraio com o cão. ouço peter broderick. respondo a mensagem que me questionava: por que odiei a poesia do mural?

II

Se te pertenço, separo-me de mim.
Perco meu passo nos caminhos de terra
E de Dionísio sigo a carne, a ebriedade.
Se te pertenço perco a luz e o nome
E a nitidez do olhar de todos os começos:
O que me parecia um desenho no eterno
Se te pertenço é um acorde ilusório no silêncio.

E por isso, por perder o mundo
Separo-me de mim. Pelo Absurdo.

Via Espessa (1989) In: Da poesia Hilda Hilst.


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II

Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Amavisse (1989) In: Da poesia Hilda Hilst.

15:09 foi um ato falho. talvez eu quisesse chamar atenção?! ou apenas não me dei conta do lapso.

mas agora preciso ir… preciso ir. deixarei o passeio pelo bósforo inconcluso. nosso contato em suspensão… o cão que rói tudo trancado no quarto. e a casa sozinha, com os animais.

e agora, rose!

2019, abril 4, quinta-feira

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ler mário, seu conto, dialogando com totem/tabu (freud 1913). o banquete totêmico… os dois mortos (o pai cinzento e o peru de natal) sobre a mesa.

mas ir além, além da sensibilidade, sacar a estrutura… o foco/forma narrativa. o conto é curto… e o artíficio temporal… a dobra crítica (a boa narrativa tem a capacidade de comentar a si mesma)… etc… etc… e agora, rose!

e há o amor em clarice… sua iluminação profana (o não-sagrado)… ñ a divina, nem a racional… mas a epifânica… a da ordem do ordinário, onde a chave, se há, é do ordinário extraodinário. e o ponto da angústia é o vazio (a maquinaria exposta)… e diante da liberdade, a declinação… e a onisciência seletiva em ana… o nuance… o narrador (demiurgo – sr. da personagem) x narrador (sendo conduzido na dança da personagem).  importante sacar como é feito o efeito.

A Máquina do Mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Carlos Drummond de Andrade
In Claro Enigma
Ed. Record, 1951
© Graña Drummond

 

 

are you trying to f—ing kill me?

2019, março 19, terça-feira

Bluebird
there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,

I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be
sad.

then I put him back,
but he’s singing a little
in there, I haven’t quite let him
die

and we sleep together like
that
with our
secret pact

and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?
– Charles Bukowski, in “The Last Night of the Earth Poems”. Santa Rosa CA: Black Sparrow, 1992.

***

chutei tudo pro alto e fiquei trancado dentro de casa, hoje, só hoje. e a única diversão do dia, foi sair para caminhar com dora.

ps: faltei no trabalho… faltei na faculdade… pelo segundo dia consecutivo. por fora, tudo aparentemente está ‘normal’, por dentro, nada faz sentido.