Archive for the 'Sophia de Mello Breyner Andresen' Category

poema de helena lanari

[dom] 29 de abril de 2018

das aulas de literatura e poesia:

poema de helena lanari

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como fruto nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal.

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Geografia, 1.ª edição, Lisboa, Edições Ática, 1967
e pesquisando… encontro isto: Os versos falados de Sophia, por Eucanaã Ferraz 
***
e a série do dia: Poldark

Poldark – Demelza’s Song

I’d pluck a fair rose for my love / I’d pluck a red rose blowing / Love’s in my heart / A-trying so to prove / What your heart’s knowing. / I’d pluck a finger on a thorn / I’d pluck a finger bleeding / Red is my heart / Wounded and forlorn / And your heart needing. / I’d hold a finger to my tongue / I’d hold a finger waiting / My heart is sore / Until it joins in song / Wi’ your heart mating.

***

não fotografei o girassol. não sai de casa… almocei com meu pai, ele contou estórias de sua infância e adolescência. foi bonito. são raros os momentos… esses momentos. e como sempre… a tarde foi linda… olhando tudo aqui de cima, esse azul, esse mar, esses barcos, esse horizonte…  e poente, esse céu rosa e púrpura esvaecendo… indo do azul cobre até o indico… quase negro.

retroativo

[ter] 8 de novembro de 2016

Leia o poema de Adélia Prado

“Explicação de Poesia Sem Ninguém Pedir”.

“Um trem- de- ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.”

***

retroativo…

#umpoetaumpoemapordia #003

Lindolf Bell
(Timbó, 2 de novembro de 1938 – Blumenau, 10 de dezembro de 1998)

PROCURO A PALAVRA PALAVRA

Não é a palavra fácil
que procuro.
Nem a difícil sentença,
aquela da morte,
a da fértil e definitiva solitude.
A que antecede este caminho sempre de repente.
Onde me esgueiro, me soletro,
em fantasias de pássaro, homem, serpente.

Procuro a palavra fóssil.
A palavra antes da palavra.

Procuro a palavra palavra.
Esta que me antecede
E se antecede na aurora
De na origem do homem

Procuro desenhos
dentro da palavra.
Sonoros desenhos, tácteis,
Cheiros, desencantos e sombras.
Esquecidos traços. Laços.
Escritos, encantos re-escritos.
Na área dos atritos.

Dos detritos.
Em ritos ardidos da carne
e ritmos do verbo.
Em becos metafísicos sem saída.

Sinais, vendavais, silêncios.
Na palavra enigmam restos, rastos de animais,
Minerais da insensatez.
Distâncias, circunstâncias, soluços,
Desterro.

Palavras são seda, aço.
Cinza onde faço poemas, me refaço.

Uso raciocínio.
Procuro na razão.
Mas o que se revela, arcaico, pungente,
eterno e para sempre, vivo,
vem do buril do coração.

#umpoetaumpoemapordia #004
Oodgeroo Noonuccal
(3 November 1920 – 16 September 1993)

Aboriginal Charter Of Rights¹

We want hope, not racialism,
Brotherhood, not ostracism,
Black advance, not white ascendance:
Make us equals, not dependants.
We need help, not exploitation,
We want freedom, not frustration;
Not control, but self-reliance,
Independence, not compliance,
Not rebuff, but education,
Self-respect, not resignation.
Free us from a mean subjection,
From a bureaucrat Protection.
Let’s forget the old-time slavers:
Give us fellowship, not favours;
Encouragement, not prohibitions,
Homes, not settlements and missions.
We need love, not overlordship,
Grip of hand, not whip-hand wardship;
Opportunity that places
White and black on equal basis.
You dishearten, not defend us,
Circumscribe, who should befriend us.
Give us welcome, not aversion,
Give us choice, not cold coercion,
tatus, not discrimination,
Human rights, not segregation.
You the law, like Roman Pontius,
Make us proud, not colour-conscious;
Give the deal you still deny us,
Give goodwill, not bigot bias;
Give ambition, not prevention,
Confidence, not condescension;
Give incentive, not restriction,
Give us Christ, not crucifixion.
Though baptized and blessed and Bibled
We are still tabooed and libelled.
You devout Salvation-sellers,
Make us neighbours, not fringe-dwellers;
Make us mates, not poor relations,
Citizens, not serfs on stations.
Must we native Old Australians
In our land rank as aliens?
Banish bans and conquer caste,
Then we’ll win our own at last.

Nota 1: This poem was prepared for and presented to the 5th Annual General Meeting of the Federal Council for the Advancement of Aborigines and Torres Strait Islanders, held in Adelaide, Easter 1962.

more poems in http://www.poetrylibrary.edu.au/po…/noonuccal-oodgeroo/poems

#umpoetaumpoemapordia #005
Nico Fagundes
Antonio Augusto da Silva Fagundes (Alegrete, 4 de novembro de 1934 – Porto Alegre, 24 de junho de 2015)

Canto Alegretense

Não me perguntes onde fica o alegrete
Segue o rumo do teu próprio coração
Cruzarás pela estrada algum ginete
E ouvirás toque de gaita e de violão
Pra quem chega de rosário ao fim da tarde
Ou quem vem de uruguaiana de manhã
Tem o sol como uma brasa que ainda arde
Mergulhado no rio Ibirapuitã

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí

E na hora derradeira que eu mereça
Ver o sol alegretense entardecer
Como os potros vou virar minha cabeça
Para os pagos no momento de morrer
E nos olhos vou levar o encantamento
Desta terra que eu amei com devoção
Cada verso que eu componho é um pagamento
De uma dívida de amor e gratidão

Ouve o canto gauchesco e brasileiro
Desta terra que eu amei desde guri
Flor de tuna, camoatim de mel campeiro
Pedra moura das quebradas do Inhanduí

https://www.youtube.com/watch?v=S0IsJO61Tns

#umpoetaumpoemapordia #006
Ella Wheeler Wilcox
(Johnstown, Wisconsin, 5 de novembro de 1850 – 30 de outubro de 1919)

THE SPEECH OF SILENCE
The solemn Sea of Silence lies between us;
I know thou livest, and thou lovest me;
And yet I wish some white ship would come sailing
Across the ocean, bearing word from thee.

The dead-calm awes me with its awful stillness.
No anxious doubts or fears disturb my breast;
I only ask some little wave of language,
To stir this vast infinitude of rest.

I am oppressed with this great sense of loving;
So much I give, so much receive from thee,
Like subtle incense, rising from a censer,
So floats the fragrance of thy love round me.

All speech is poor, and written words unmeaning;
Yet such I ask, blown hither by some wind,
To give relief to this too perfect knowledge,
The Silence so impresses on my mind.

How poor the love that needeth word or message,
To banish doubt or nourish tenderness;
I ask them but to temper love’s convictions
The Silence all too fully doth express.

Too deep the language which the spirit utters;
Too vast the knowledge which my soul hath stirred.
Send some white ship across the Sea of Silence,
And interrupt its utterance with a word.

Poems of Passion by Ella Wheeler
Chicago : Belford, Clarke & Co, 1883.
http://www.ellawheelerwilcox.org/pindex.htm

#umpoetaumpoemapordia #007
Sophia de Mello Breyner Andresen
(Porto, 6 de novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

[“As ilhas”, VI, Navegações]
https://www.youtube.com/watch?v=V4C5IiL1QxM
http://purl.pt/19841/1/galeria/indice-poemas.html

#umpoetaumpoemapordia #008
Cecília Meireles
(Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 — Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964)

Timidez

Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve…

– mas só esse eu não farei.

Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes…

– palavra que não direi.

Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,

– que amargamente inventei.

E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando…

– e um dia me acabarei

http://www.escritas.org/pt/t/1727/timidez

#umpoetaumpoemapordia #009
Teófilo Dias (Caxias, 8 de novembro de 1854 — São Paulo, 29 de março de 1889)

Aspiração

No espaço, em cada ser, que um centro atraia e prenda,
Há sempre o despontar de uma asa, que o suspenda.
Ascender! Ascender! — dizem todas as cousas,
As estrelas nos céus, os vermes sobre as lousas.
É o hino, que tudo, em sôfregos suspiros,
Canta: — férvida a fonte, em sinuosos giros,
Sobre pedras quebrando o trépido carinho,
A ave, inquieta e meiga, em volta do seu ninho,
O ninho sob o ramo, o ramo sob as flores,
As flores no perfume, — e a gruta nos vapores
Que em frouxas espirais às amplidões alteia.
A vida não se esgota, e vai perpetuamente
Do esboço às perfeições, harmônica, ascendente.
O imóvel não existe. A floresta pompeia
O luxo exuberante, a gala festival,
A verdura febril, do mundo vegetal.
Fixo? Não. Ei-lo em flor; — e em êxtases secretos
Dispersa-se em aroma, e voa nos insetos.
Enfim, por toda parte há íntimos palpites,
Ímpetos de romper barreiras e limites.

Fatal gravitação tolha-me embora os pés.
Hei de também subir dos mundos através,
Hei de também transpor os tempos e os espaços,
Na esperança de além colher-te nos meus braços,
A ti, que és para mim a força ascensional,
Oh Glória! — A aspiração! O porvir! O ideal!

Publicado no livro Fanfarras (1882). Poema integrante da série Flores Funestas.

In: DIAS, Teófilo. Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196

http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/autores/?id=385

olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò

[sex] 5 de junho de 2015

Mar de Sophia – Faixas

#1 Canto de Oxum // Compositores: Pedro Amorim e Paulo Cesar Pinheiro

«Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar» Sophia De Mello Breyner

Yèyé e yèyé s’oròodò, yèyé o yèyé s’oròodò / Olóomi ayé s’óromon fée s’oròodò [Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / Nhem-nhem-nhem / Nhem-nhem ô xorodô / É o mar, é o mar / Fé-fé xorodô] / Oxum era rainha, / Na mão direita tinha / O seu espelho onde vivia á se mirar //

#2.1 Yemanjá Rainha do Mar. // Composição: Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro

Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Quanto nome tem a Rainha do Mar? / Dandalunda, Janaína, / Marabô, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, / Maria, Dona Iemanjá. / Onde ela vive? / Onde ela mora? / Nas águas, / Na loca de pedra, / Num palácio encantado,/ No fundo do mar. / O que ela gosta? / O que ela adora?/ Perfume,/ Flor, espelho e pente / Toda sorte de presente / Pra ela se enfeitar. / Como se saúda a Rainha do Mar? / Como se saúda a Rainha do Mar? / Alodê, Odofiaba, / Minha-mãe, Mãe-d’água, / Odoyá! / Qual é seu dia, / Nossa Senhora? / É dia dois de fevereiro/ Quando na beira da praia / Eu vou me abençoar./ O que ela canta?/ Por que ela chora?/ Só canta cantiga bonita / Chora quando fica aflita / Se você chorar./ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Quem é que já viu a Rainha do Mar?/ Pescador e marinheiro / que escuta a sereia cantar./ É com povo que é praieiro que Dona Iemanjá/ quer se casar. //

#2.2 Beira-Mar // Composição: Roberto Mendes / Capinan

Dentro do mar tem rio… / Dentro de mim tem o quê? / Vento, raio, trovão / As águas do meu querer /Dentro do mar tem rio… / Lágrima, chuva, aguaceiro / Dentro do rio tem um terreiro / Dentro do terreiro tem o quê? /Dentro do raio trovão / E o raio logo se vê / Depois da dor se acende / Tua ausência na canção /Deságua em mim a paixão / No coração de um berreiro / Dentro de você o quê? / Chamas de amor em vão /Um mar de sim e de não / Dentro do mar tem rio / É calmaria e trovão / Dentro de mim tem o quê? /Dentro da dor a canção / Dentro do guerreiro flor / Dama de espada na mão / Dentro de mim tem você /Beira-mar / Beira-mar / Ê ê beiramar / Cheguei agora / Ê ê beira-mar / Beira-mar beira de rio / Ê ê beira-mar //

#3.1 Marinheiro Só // Composição: Clementina de Jesus

Eu não sou daqui / Marinheiro só / Eu não tenho amor / Marinheiro só / Eu sou da bahia/ Marinheiro só/ De são salvador / Marinheiro só/ Lá vem, lá vem / Marinheiro só / Como ele vem faceiro/ Marinheiro só / Todo de branco/ Marinheiro só / Com o seu bonezinho / Marinheiro só/ Ô, marinheiro marinheiro / Marinheiro só / Ô, quem te ensinou a nadar / Marinheiro só / Ou foi o tombo do navio / Marinheiro só / Ou foi o balanço do mar/ Marinheiro só //

#3.2 O Marujo Português // Composição: Linhares Barbosa & Arthur Ribeiro

«Vem do mar azul o marinheiro
Vem tranquilo ritmado inteiro
Perfeito como um deus,
Alheio às ruas.» Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando ele passa, o marujo português / Não anda, passa a bailar, como ao sabor das marés / Quando se ginga, faz tal jeito, tem tal proa / Só pra que se não distinga / Se é corpo humano ou canoa /Chega a Lisboa, salta do barco e num saltoVai parar à Madragoa ou então ao Bairro Alto / Entra em Alfama e faz de Alfama um convés / Há sempre um Vasco da Gama num marujo português /Quando ele passa com seu alcache vistoso / Traz sempre pedras de sal, no olhar malicioso / Põe com malícia a sua boina marujaMas se inventa uma carícia, não há mulher que lhe fuja /Uma madeixa de cabelo descomposta / Pode até ser a fateixa de que uma varina gosta / Quando ele passa, o marujo portuguêsPassa o mar numa ameaça de carinhosas marés //

#4 Poema Azul //Composição: Sérgio Ricardo

O mar beijando a areia / O céu e a lua cheiaQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céuE a lua cheiaQue prateia os cabelos do meu bemQue olha o mar beijando a areiaE uma estrelinha solta no céuQue cai no marQue abraça a areiaQue mostra o céu e a lua cheiaum beijo meu //

«Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, / A tua beleza aumenta quando estamos sós / E tão fundo intimamente a tua voz / Segue o mais secreto bailar do meu sonho, / Que momentos há em que eu suponho / Seres um milagre criado só para mim.» Sophia de Mello Breyner Andresen

#5 Kirimurê // Composição: Jota Velloso

Espelho virado ao céu / Espelho do mar de mim/ Iara índia de mel / Dos rios que correm aqui / Rendeira da beira da terra / Com a espuma da esperança / Kirimurê linda varanda / De águas salgadas mansas / De águas salgadas mansas / Que mergulham dentro de mim / Meu Deus deixou de lembrança / Na história dos sambaquis / Na fome da minha gente / E nos traços que eu guardo em mim / Minha voz é flecha ardente / Nos catimbós que vivem aqui / Eira e beira / Onde era mata hoje é Bonfim / De onde meu povo espreitava baleias / É farol que desnorteia a mim / Eira e beira / Um caboclo não é Serafim / Salve as folhas brasileiras / Oh salvem as folhas pra mim / Se me der a folha certa / E eu cantar como aprendi / Vou livrar a Terra inteira / De tudo que é ruim / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui /Eu sou Tupinambá que vigiaEu sou o caboclo daqui / Eu sou Tupinambá que vigia / Eu sou o caboclo daqui / Eu sou o dono da terra / Eu sou o caboclo daqui //

#6 Grão de Mar  // Composição: Márcio Arantes e Chico César

«Através do teu coração passou um barco / Que não para de seguir sem ti o seu caminho» Sophia De Mello Breyner

Lá no meu sertão plantei / Sementes de mar / Grãos de navegar / Partir / Só de imaginar, eu vi / Água de aguardar / Onda a me levar / E eu quase fui feliz /Mas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei, perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dáNão dói, nem diz /E o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mimMas nos longes onde andei / Nada de achar / Mar que semeei,perdi / A flor do sertão caiu / Pedra de plantar / Rosa que não há / Não dá / Não dói, nem dizE o mar ficou lá no sertão / E o meu sertão em nenhum lugar / Como o amor que eu nunca encontrei / Mas existe em mim //

 #7.1 Quadrinha: O Mundo é Grande // Autor: Carlos Drummond de Andrade

O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar //

«O mar azul e branco e as luzidias/ Pedras – O arfado espaço / Onde o que está lavado se relava / Para o rito do espanto e do começo / Onde sou a mim mesma devolvida / Em sal espuma e concha regressada / À praia inicial da minha vida.» SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, in MAR [Antologia organizada por Maria Andresen de Sousa Tavares] (Ed. Caminho 1.ª ed., 2001, 7ª ed., 2009)

#7.2 Cirandas // Autora: Sueli Costa / Domínio Público

Cavalo marino / Dança no terreiro / Que a dona da casa / Tem muito dinheiro / Cavalo marinho / Dança na calçada / Que a dona da casa / Tem galinha assada // Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Peixinho marinho / Quem te ensinou a nadar? / Foi foi foi minha mãe  / A sereia do mar //A maré encheu / A maré vazou / Os cabelos da morena / O riacho carregou // Vadeia Dois-Dois / Vadeia no mar / A casa é sua Dois-Dois / Eu quero ver vadiar // O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / O vapor de Cachoeira não navega mais no mar / Arriba a prancha toca o búzio / Nós queremos navegar / Ai ai ai ai / Nós queremos navegar //

#8.1 Debaixo D´água / Agora // Autores: Arnaldo Antunes – Tony Bellotto/Charles Gavin/Branco Mello/Nando Reis/Marcelo Fromer

Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar // Debaixo d’água se formando como um feto / Sereno, confortável, amado, completo / Sem / chão, sem teto, sem contato com o ar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / Todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água por encanto sem sorriso e sem pranto / Sem lamento e sem saber o quanto / Esse momento poderia durar // Mas tinha que respirar / Debaixo d’água ficaria para sempre, ficaria contente / Longe de toda gente, para sempre no fundo do mar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Todo dia, todo dia / todo dia / Todo dia, todo dia // Debaixo d’água, protegido, salvo, fora de perigo / Aliviado, sem perdão e sem pecado / Sem fome, sem frio, sem medo, sem vontade de voltar / Mas tinha que respirar / Debaixo d’água tudo era mais bonito / Mais azul, mais colorido / Só faltava respirar / Mas tinha que respirar / Todo dia / Agora que agora é nunca / Agora posso recuar / Agora sinto minha tumba / Agora o peito a retumbar / Agora a última resposta / Agora quartos de hospitais / Agora abrem uma porta / Agora não se chora mais / Agora a chuva evapora / Agora ainda não choveu / Agora tenho mais memória / Agora tenho o que foi meu / Agora passa a paisagem / Agora não me despedi / Agora compro uma passagem / Agora ainda estou aqui / Agora sinto muita sede / Agora já é madrugada / Agora diante da parede / Agora falta uma palavra / Agora o vento no cabelo / Agora toda minha roupa / Agora volta pro novelo / Agora a língua em minha boca / Agora meu avô já vive / Agora meu filho nasceu / Agora o filho que não tive / Agora a criança sou eu / Agora sinto um gosto doce / Agora vejo a cor azul / Agora a mão de quem me trouxe / Agora é só meu corpo nu / Agora eu nasço lá de fora / Agora minha mãe é o ar / Agora eu vivo na barriga / Agora eu brigo pra voltar / Agora / Agora / Agora //

#9 Memórias do Mar // Composição: Vevé Calazans / Jorge Portugal

A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai /A água do mar na beira do cais / Vai e volta volta e meia vem e vai / Quem um dia foi marinheiro audaz / Relembra histórias / Que feito ondas não voltam mais /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá /Tempestades e ventos / Tufões violentos / E arrebentação / Hoje é calmaria / que dorme dentro do coração /Velhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é aqui / Maré mansa e morna / De Plataforma ou de Peri-PeriVelhos marinheiros do mar da Bahia / O mundo é o mar / Maré de lembranças / Lembranças de tantas voltas que o mundo dá //

#10 As Praias Desertas //Composição: Antonio Carlos Jobim

«Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e nos separa.» /Sophia de Mello Breyner Andresen / in ‘Poemas escolhidos’ 2004

As praias desertas continuam / Esperando por nós dois / A este encontro eu não devo faltar / O mar que brinca na areia / Está sempre a chamar / Agora eu sei que não posso faltar / O vento que venta lá fora / O mato onde não vai ninguém / Tudo me diz / Não podes mais fingir / Porque tudo na vida há de ser sempre assim / Se eu gosto de você / E você gosta de mim / As praias desertas continuam / Esperando por nós dois //

#11.1 O Vento // Composição: Dorival Caymmi

Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / (Vento que dá na vela / Vela que leva o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã ê, Curimã lambaio / Curimã / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento / Vento que dá na vela / Vento que vira o barco / Barco que leva a gente / Gente que leva o peixe / Peixe que dá dinheiro, Curimã) / Vamos chamar o vento / Vamos chamar o vento //

«É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo» Procelária (In.: Geografia, de Sophia Andresen)

#11.2 A Dona do Raio e do Vento // Composição: Paulo César Pinheiro

O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / A minha voz é o vento de maio / Cruzando os ares, os mares e o chão / E meu olhar tem a força do raio / que vem de dentro do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / Eu não conheço rajada de vento / Mais poderosa que a minha paixão / E quando o amor relampeia aqui dentro / Vira um corisco esse meu coração / Eu sou a casa do raio e do vento / Por onde eu passo é zunido é clarão / Porque Iansã desde o meu nascimento / Tornou-se a dona do meu coração / O raio de Iansã sou eu / Cegando o aço das armas de quem guerreia / E o vento de Iansã também sou eu / Que Santa Bárbara é santa que me clareia / O raio de Iansã sou eu / E o vento de Iansã também sou eu / O raio de Iansã sou eu //

#12 Lágrima // Composição: Roque Ferreira

Lágrima por lágrima hei de te cobrar / Todos os meus sonhos que tu carregaste, hás de me pagar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração, morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar / A flor dos meus anos, meus olhos insanos, de te esperar / Os meus sacrifícios, meus medos, meus vícios, hei de te cobrar / Cada ruga que eu trouxer no rosto, cada verso triste que a dor me ensinar / Cada vez que no meu coração morrer uma ilusão, hás de me pagar / Toda festa que adiei, tesouros que entreguei, a imensidão do mar / As noites que encarei sem Deus, na cruz do teu adeus, hei de te cobrar… / Lágrima por lágrima.

#13.1 Noiva: Cantiga da Noiva // Composição: Dorival Caymmi

É tão triste ver / Partir alguém / Que a gente quer / Com tanto amor / E suportar / A agonia / De esperar voltar… / Viver olhando / O céu e o mar / A incerteza / A torturar / A gente fica só / Tão só / A gente fica só / Tão só… / É triste esperar.

#13.2 Floresta do Amazonas // Composição: Heitor Villa Lobos

Sonhar na tarde azul / Do teu amor ausente / Suportar a dor cruel / Com esta mágoa crescente / O tempo em mim / Agrava o meu tormento, amor / Tão longe assim de ti / Vencida pela dor / Na triste solidão / Procuro ainda te encontrar / Ah amor, meu amor….

«Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.
Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.
A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.» Pirata – Sophia de Mello Breyner Andresen

#14 Portela: Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite //Composição: David Corrêa e Jorge Macedo

«O teu destino deveria ter passado neste porto
Onde tudo se torna impessoal e livre
Onde tudo é divino como convém ao real» Sophia de Mello Breyner Andersen, «Dual» in Obra Poética III, Lisboa, Caminho, 1999, 4.ª ed.

Deixa-me encantar / Com tudo teu e revelar la, ra,ra / O que vai acontecer / Nesta noite de esplendor / O mar subiu na linha do horizonte / Desaguando como fonte / Ao vento a ilusão teceu / O mar, ô o mar! / Por onde andei mareou, mareou! / Rolou na dança das ondas / No verso do cantador / Dança quem tá na roda / Roda de brincar / Prosa na boca do vento / E vem marear (BIS) / Eis o cortejo irreal / Com as maravilhas do mar / Fazendo o meu carnaval / É a vida a brincar / A luz raiou pra clarear a poesia / Num sentimento que desperta na folia / Amor! Amor! / Amor sorria, ô ô ô / Um novo dia, despertou / E lá vou eu, e lá vou eu / Pela imensidão do mar / Esta onda que borda a avenida de espuma / Me arrasta a sambar (BIS) /

#15 Canto de Nanã // Composição: Dorival Caymmi

Ê de noite ê / De noite até de manhã – iê / Ouvi cantá pra Nanã

l’homme qui plantait des arbres

[dom] 9 de março de 2014

hoje (9/3) : uma sugestão de jacinto noé kahler caro. O homem que plantava árvores ( “L’homme qui plantait des arbres”, de 1987), vencedor do Oscar de Melhor Animação de 1988. Baseado em um conto do romancista francês Jean Giono, de 1953, e dirigido por Fréderic Back, o desenho conta a história de Elzéard Bouffier, um pastor de ovelhas silencioso e persistente.

ontem (8/3) 20h55. enfim chega o ônibus que faz a linha córrego grande no ponto que estou, refugiando-me desta chuva fina que esperou que eu cumprisse todo o ritual/roteiro e chegasse ao ponto – o começo do retorno à solidão comunitária.

e na viagem, retomo a leitura – interrompida por quase um mês – de antes de nascer o mundo. livro que me levou à extremos, do riso ao choro, do contentamento à angústia, do fascínio ao estado de perplexidade…

abaixo um fragmento…

«Para atravessar contigo o deserto do mundo / Para enfrentarmos juntos o terror da morte / 
Para ver a verdade para perder o medo / Ao lado dos teus passos caminhei / Por ti deixei meu reino meu segredo / Minha rápida noite meu silêncio / Minha pérola redonda e seu oriente / Meu espelho minha vida minha imagem / E abandonei os jardins do paraíso / Cá fora à luz sem véu do dia duro / Sem os espelhos vi que estava nua / E ao descampado se chamava tempo / Por isso com teus gestos me vestiste / E aprendi a viver em pleno vento / Sophia de Mello Breyner Andersen [página 227]

[poema que abre o  antepenúltimo capítulo desta história de Mwanito, Marta, Silvestre, Dordalma e outros] […] E durante semanas, todos os dias à mesma hora, conduzi meu pai à escadaria da igreja, momentos antes das afinadas vozes subirem aos céus. De cada vez que fiz questão em me retirar, o seu braço me segurava. Calado e sem mover um dedo, queria partilhar aquele momento comigo. Queria refazer a varanda onde deitávamos o nosso silêncio. Até que, um dia, percebi que ele balbuciava as palavras dos hinos. Mesmo sem voz, Silvestre fazia coro com os cantantes. Sem que ninguém mais desse conta, as palavras de Vitalício subiam ao céu. Era um céu rasteiro, sem fôlego. Mas era o início de um infinito. *** Despertei com o ruído de vozes femininas. Pela janela espreitei. Dezenas de pessoas enchiam a rua e [página 232] paralisavam o trânsito. Gritavam palavras de ordem, empunhavam cartazes em que se lia: “Parem com a violência contra a mulher!”. Entre a multidão, vislumbrei Zacaria Kalash que abria caminho para se aproximar da nossa residência. Abri a porta e ele, sem pausa para licença, irrompeu casa adentro, como se buscasse abrigo. – O barulho que essas gajas fazem! Noci está lá, toda agitada. […] [página 233] […] Passaram-se dias em que não fui mais do que pai de meu pai. Cuidava dele, o conduzia por lugares para os quais ele sempre respondia como um cego. Até que um dia recebi um envelope. Reconheci a letra de Marta. Era a primeira carta que alguém, alguma vez, havia escrito para mim. [ página 237] […] [penúltimo capítulo] Escrevo-te esta carta, caro Mwanito, para que a nossa despedida se faça sem nenhum adeus.  No último dia em que estivemos juntos contaste-me o sonho em que o teu pai me salvava de morrer afogada no rio. Se pensarmos que a vida é um rio, o teu sonho é verdadeiro. Eu fui salva em Jesusalém. Silvestre me ensinou a encontrar Marcelo vivo em tudo o que nasce. […] Noci ofereceu-me essas fotos preto e branco. Não eram, como pensava, imagens de garças e paisagens. Era a reportagem do seu próprio fim, um diário pctórico da sua decadência. Por [ página 239] esse registro percebemos que ele desejava alonjar-se de si mesmo. Primeiro, andando desgrenhado e sem roupas. Depois cada vez mais próximo dos bichos, bebendo água de poças, comento carne crua. Quando abateram, Marcelo foi tomado por um animal bravio. Não foram os da guerra que o mataram. Foram caçadores. O meu homem, caro Mwanito, escolheu essas espécie de suicídio. Quando a morte chegasse ele já teria deixado de ser pessoas. E assim se sentiria morrer menos. Não foi um continente que engoliu Marcelo. Foram os seus demónios interiores que o devoraram. Esses demónios arderam quando, momentos antes do regresso a Lisbia, queimei todas as fotografias que Noci me tinha dado. *** A vida só sucede quando deixamos de entender. Nos últimos tempos, meu querido Mwanito, estou longe de qualquer entendimento. Nunca imaginei viajando para África. Agora, não sei como regressar à Europa. Quero voltar para Lisboa, sim, mas sem memória de alguma vez já ter vivido. Não me apetece reconhecer nem gente, nem lugares, nem sequer a língua que nos dá acesso aos outros. É por isso que me dei tão bem em Jesusalém: tudo era estranho e não prestava contas sobre quem era, nem que destino devia escolher. Em Jesusalém, a minha alma se tornava leve, desossada, irmã das garças. [página 240] Tudo isto devo a teu pai, Silvestre Vitalício. Condenei-o por ele vos ter arrastado para um deserto. A verdade, todavia, é que ele inaugurou o seu próprio território. Ntunzi responderia que Jesusalém se fundava num logro criado por um doente. Era mentira, sim. Porém, se temos que viver na mentira que seja na nossa própria mentira. Afinal, o velho Silvestre não mentia assim tanto na sua visão apocalíptica. Porque ele tinha razão: o mundo termina quando já não somos capazes de o amar. [grifos meus] E a loucura nem sempre é uma doença. Por vezes, é um acto de coragem. O teu pai, caro Mwanito, teve essa coragem que nos falta a nós. Quando tudo estava perdido, ele começou tudo de novo. Mesmo que esse tudo aos outros parecesse nada. Eis a lição que aprendi em Jesusalém: a vida não foi feita para ser pouca e breve. E o mundo não foi feito para ter medida. *** […] [página 241] […] Quem ama, ama para sempre. Nunca faças nada para sempre. Excepto amar. Contudo, não é para falar de mim que te escrevo. Mas de tu mãe Dordalma. Falei com Aproximado, com Zacaria, com Noci, com os vizinhos. Todos me contaram pedaços de uma história. É meu dever devolver-te esse passado que te foi roubado. Dizem que a história de uma vida se esgota no relato de sua morte. Esta é a história dos dias finais de Dordalma. De como ela perdeu a vida, depois de se ter perdido da vida. *** Era uma quarta-feira. Nessa manhã, Dordalma saiu de casa como nunca o fez em sua vida: para ser olhada e invejada. O vestido era de cegar um mortal e o decote era de fazer um cego ver o céu. Estava vistosa que poucos deram conta da pequena mala que transportava com o mesmo desamparo de uma criança no primeiro dia de escola. Começo assim porque tu, Mwanito, não fazes ideia de como a tua mãe era linda. Não era o rosto, nem a cintura, nem as pernas ágeis e torneadas. Era ela, toda inteira. Em casa, Dordalma nunca era mais do que cinza, apagada e fria. Os anos de solidão e descrença a habilitaram a ser ninguém, simples indígena do silêncio. Infinitas vezes, porém, em frente ao espelho ela se vingava. E ali, na penteadeira, se enchia de aparências. Parecia, sei lá, um cubo de gelo num copo. Disputando [página 242] a superfície, reinando no cimeiro lugar até o tempo voltar a ser água. E regresso aos inícios: nessa quarta-feira, a tua mãe saiu de casa, vestida para semear devaneios. Os olhares da vizinhança não eram de cumprimentos perante a beleza. E suspiravam: de inveja, as mulheres; de desejo, os homens. Raiavam nas pupilas dos machos as mesmas dilatadas veias que enchem os olhos dos predadores. Eis os factos, nus e crus. Nessas manhã a tua mãe entrou no chapa-cem e espremeu-se entre os homens que enchiam a viatura. O autocarro partiu, entre fumos, animado de estranha pressa. O chapa não seguiu o rumo habitual. O motorista desconduziu-se, distraído, quem sabe, pelo espelho que lhe entregava as retrovisões da bela passageira. Por fim, o autocarro parou num esconso e escuro baldio. O que se passou a seguir até me dói escrever. […] [página 243] […] [último capítulo] […] – Quero que procures uma caixa que está na minha bolsa. Trouxe essa caixa para ti. Entrei, a medo. Noci estava-se limpando na toalha e eu podia entrever ora o seu peito ora as suas longas pernas. Retirei uma caixa de metal e ergui, tremendo. Ela entendeu o meu gesto. – É essa mesma. Lá dentro está dinheiro. É todo teu. E ela foi explicando a origem daquele pequeno tesouro. Noci fazia parte de uma associação de mulheres que lutava contra a violência doméstica. Há uns meses silvestre interrompeu uma dessas sessões e atravessou a sala, em silêncio. – Foi muito estranho o que ele fez – lembrou Noci. – Não leve a mal – acudi eu. – Meu pai sempre teve uma ideia negativa sobre as mulheres, peço que lhe perdoe… – Ao contrário, eu… aliás, todas nós ficámos muito gratas. O que sucedera fora o seguinte: Silvestre curzara a sala e deixara sobre a mesa uma caixa com dinheiro. Era a sua contribuição para a causa daquelas mulheres. A associação, entretanto, fechara. Ameaças diversas semearam o medo entre as associadas. O que Noci fazia era devolver o gesto solidário de meu pai. […] [página 260] […] – quem te ensinou a amar as mulheres? Devia ter respondido: foi a falta de amor. Mas nenhuma palavra me acudiu. Desarmado, vi Noci abotoando o vestido em preparos de despedida. No último botão ela se deteve e disse: – Quando nos entregou a caixa de dinheiro o teu pai não sabia que, no meio das notas, havia um bilhete com ordens. – Ordens? De quem? – De tua mãe. Meu pai nunca percebera mas a falecida esposa deixara um bilhete explicando a origem e o propósito daquele dinheiro. Eram poupanças de Dordalma e ela legava essa herança para que nada faltasse aos seus filhos. – Foi a tua mãe. Foi ela quem te ensinou a amar. Dordalma esteve sempre aqui. E a sua mão aberta pousou sobre o meu peito. […][ página 261] »

E me faltaram sete páginas para terminar o livro. Ficará para amanhã. Em vários momentos do livro fiquei com aquele gosto de encantamento… É muito poética a escrita de Mia Couto. Mas em outros momentos é como se eu sentisse um nó no peito, um engasgo, um soco no estômago… Pelo sentimentos narrados… por serem tão próximos… por senti-los, cá. Um lágrima brotou da leitura de hoje, e me fez recordar uma canção que estava cantarolando na semana anterior a do carnaval…. A canção é Clarisse, Legião Urbana, e o trecho é este «Clarisse sabe que a loucura está presente / E sente a essência estranha do que é a morte / Mas esse vazio ela conhece muito bem / De quando em quando é um novo tratamento / Mas o mundo continua sempre o mesmo / O medo de voltar p’rá casa à noite / Os homens que se esfregam nojentos / No caminho de ida e volta da escola / A falta de esperança e o tormento / De saber que nada é justo e pouco é certo / De que estamos destruindo o futuro / E que a maldade anda sempre aqui por perto / A violência e a injustiça que existe / Contra todas as meninas e mulheres / Um mundo onde a verdade é o avesso / E a alegria já não tem mais endereço […] »

20h25. a chuva começa. chego no ponto. vejo o relógio. anoto teu endereço. e espero.

20h20 aproximadamente. tieta-preta me lambe, me late, num misto de felicidade e ferocidade. não decifro ela… talvez ela meu queira [ou a rua, que tenho] que chega a beira da loucura/revolta. mas enfim… te chamo.. uma, duas, três vezes… tudo fechado. de deixo um cartinha. é, eu ando bem enferrujado… pois foi por ti que meu coração bateu pela ultima vez… depois ele hibernou, me recolhi, me guardei para o futuro. aprendi a viver na solidão. mas viver muito tempo na solidão nos vai distanciando das coisas do mundo… vamos nos amalgamando ao silêncio dos seres sós, vamos afinando os silêncios

[No ínterim]«só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Te deixo meu número. Espero tua chamada. E narro um trecho do livro que tenho lido… «A família, a escola, os outros, todos elegem em nós uma centelha promissora, um território em que poderemos brilhar. Uns nasceram para cantar, outros para dançar, outros nasceram simplesmente para serem outros . Eu nasci para estar calado. Minha única vocação é o silêncio. Foi meu pai que me explicou: tenho inclinação para não falar, um talento para apurar silêncios. Escrevo bem, silêncios, no plural. Sim, porque não há um único silêncio. E todo o silêncio é música em estado de gravidez. Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhando, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios. – Venha, meu filho, venha ajudar-me a ficar calado. Ao fim do dia, o velho se recostava na cadeira da varanda. E era assim todas as noites: me sentava a seus pés, olhando as estrelas no alto do escuro. Meu pai fechava os olhos, a cabeça meneando para cá e para lá, como se um compasso guiasse aquele sossego. Depois, ele inspirava fundo e dizia: – Este é o silêncio mais bonito que escutei até hoje. Lhe agradeço, Mwanito. Ficar devidamente calado requer anos de prática. Em mim, era um dom natural, herança de algum antepassado. Talvez fosse legado de minha mãe, Dona Dordalma, quem podia ter a certeza? De tão calada, ela deixara de existir e nem se notara que já não vivia entre nós, os vigentes viventes.»

Talvez eu queira dizer que sou cria dos silêncios, mas que tua existência, tua força [desde lá… 2005], tua presença, foram e são fundamentais.. tua mãozinha e teu coraçãozão contribuíram  na modelagem deste homem-barro que sou… tão próximo daquele rapaz que eu era, mas ao mesmo passo tão distante, tão mais velho… assim, como imagino, talvez não tão docemente, eu tenha contribuído um cadinho… e me recordo da canção de caetano… somos e já não somos os mesmos de antes. e o novo é o aventura de nos descobrirmos… de praticarmos o carinho, de não deixarmos o mundo terminar – como dizia o texto de mia couto. enfim, lhe quero.

17h01. estou a 20 passos de sua casa. e recebo um telefonema [o que sempre é extraordinário, no meu caso] e suspeito que seja tu, mas não é… é o cara da loja de árvores avisando que ela chegou… que posso passar hoje ou segunda… quero te contar isto. tudo fechado. chamo… nada. eu demorei. eu sempre demoro. eu sou lento e atravessado nesta vida… mas vou dar uma volta e depois te deixo um recado.

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