Archive for the 'Valter Hugo Mãe – Valter Hugo Lemos' Category

o homem que engarrafava nuvens

[ter] 2 de junho de 2015

#1. lembrar transpor notas manuscritas sobre filme supracitado no título. [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#2. agora bem rápido… atrasado estou para reunião pela base e há assembleia da categoria em menos de uma hora e meia. o tempo voa… e eu deslizo como um caramujo. e o angustiante disto tudo é saber que a direção sindical cutista já armou o golpe contra a base. até o momento, contra a inúmeras faces do capital, entre elas a direção sindical, conseguimos contra-golpes que tem dado sobrevida a esta greve de resistência, e histórica. mas e agora josé? chapecó é para fud…

#3. corrigir falha da placa mãe – meus estresse da manhã.

#4. e estranhamento hoje estou sentindo-me humano. nem super, nem sub. apenas um sujeito repleto de defeitos que mais erra do que acerta, mas segue vivo, cheio de dúvidas, quase nenhuma certeza e atento aos olhares… e acenos.

#5. ir ao médico para ver essa alergia no nariz… estou a descascar-me.

#6. tomar nota/transcrever passagens das páginas 125 até 135 do livro «a desumanização» [ps:ficará para quando eu regressar de chapecó]

#7. sabe por que meus relacionamentos cedo ou tarde não dão certo?! porque em algum dado momento fecho-me em copas com alguma coisa que não consigo resolver – normalmente vinculado a algum sentimento de inferioridade. que tem sua origem lá na infância… nos abusos, no abandono… na violência física e verbal sofrida. é preciso romper isto que é da ordem do insconsciente trazendo para a ordem do autoconsciente… mas mesmo racionalizando ainda assim não impede-me de mergulhar na minha escuridão abissal.

engraçado como este pensamento hoje me veio de forma tão clara e exata: “eu sou um cara bacana, as pessoas gostam de mim… e eu noiando tudo”.

essa síntese deve-se a retomada da leitura – e abri aqui uma digressão para dizer que gosto e não gosto deste livro… porque me parece absurdo pensamentos tão profundos e complexos, na elaboração de referências e imagens, num ambiente tão esdrúxulo como local e idade dos personagens… mas isto pode ser apenas preconceito cultural. atentei-me para isto hoje. a possibilidade de ser apenas preconceito meu, e relaxei desta encanação…

mas voltando agora da digressão, eu dizia que: – a retomada da leitura e somada ao fato de estar a remoer há dias essa sensação de que… a vida, por mais que seja triste, é ainda absurdamente tão bela e surpreendente… mas eu sempre nessa dificuldade de aceitar… o que vem e, sobretudo, o que posso dar aos outros,

e a mim.

relaxa bicho. se deixe levar… afinal, como pensaste hoje pela manhã: nem super, nem sub.

#8. eu vou para chapecó.

#9. não esquecer do livropoema do gullar: Um gato chamado Gatinho.

***

a desumanização

[ter] 28 de abril de 2015

lendo esta aqui… caiu a ficha. já que eu estou cansado de não fazer nada porque chove direto ou porque durmo durante metade do dia… e busco desesperadamente fugas que me entorpeçam (tv, war online, leituras sobre coisas aleatórias e inúteis…). chegou a hora de ler algo interessante, e nada melhor do que revisitar valter hugo mãe.

então fiz assim, já que eu era obrigado a sair de casa e ir até a escola assinar uns documentos e sabedor que haveria fila, pela interminável duplicação da sc-403, decidi ler. a ida e a volta, algo totalizando duas horas, e lá se foram 40 páginas. como o anterior, o filho de mil homens, a leitura/escrita de valter é muito boa. vontade de devorar o livro rápido. aproveitei e fiz notas de algumas passagens que me chamaram atenção.

a desumanização mae

,

«o inferno não são os outros, pequena halla. eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. a humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti. ser-se pessoa implica a tua mãe, as nossas pessoas, um desconhecido ou a sua expectativa. sem ninguém no presente nem no futuro, o individuo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes. dura pelo engenho que tiver e perece como um atributo indiferenciado do planeta. perece como uma coisa qualquer. [p.15]

(…) aprender a solidão não é senão  capacitarmo-nos do que representamos entre todos. talvez não representemos nada, o que me parece impossível. qualquer rasto que deixemos no eremitério é uma conversa com os homens que, cinco minutos ou cinco mil anos depois, nos descubram a presença. dificilmente se concebe um homem não motivado para deixar rasto e, desse modo, conversar. e se houver um eremita assim, casmurro, seguro que terá pelo chão e pelo céu uma ideia de companhia, espiritualizando cada elemento como quem procura portas para chegar à conversa com deus. estamos sempre à conversa com deus. a solidão não existe. é uma ficção das nossas cabeças.  [p.15]

(…) quando for grande, halla, não quero ser cozinheira das baleias. não vou ficar aqui encalhada a fazer doces para que elas se consolem. quando for grande, quer ser de outra maneira. quero ser longe. eu respondia: ninguém é longe. as pessoas são sempre perto de alguma coisa e perto delas mesmas. a minha irmã dizia: são. algumas pessoas são longe. quando for grande quero ser longe. [p. 22]

(…) sobre a beleza o meu pai também explica: só existe a beleza que se diz. só existe a beleza se existir interlocutor. a beleza da lagoa é sempre alguém. porque a beleza da lagoa só acontece porque a posso partilhar. se não houver ninguém, nem a necessidade de encontrar a beleza existe nem a lagoa será bela. a beleza é sempre alguém, no sentido em que ela se concretiza apenas pela expectativa da reunião com o outro. ele afirmava: o nome da lagoa é halla, é sigridur. ainda que as palavras sejam débeis. as palavras são objetos magros incapazes de conter o mundo. usamo-lo por pura ilusão. deixámo-nos iludir assim para não perecermos de imediato conscientes da impossibilidade de comunicar e, por isso, a impossibilidade da beleza. todas as lagoas do mundo dependem de sermos ao menos dois. para que um veja e o outro ouça. sem um diálogo não há beleza e não há lagoa. a esperança na humanidade, talvez por ingénua convicção, está na crença de que o indivíduo a quem se pede que ouça o faça por confiança.é o que todos almejamos. que acreditem em nós. dizermos algo que se toma como verdadeiro porque o dizemos simplesmente. [p.27]

(…) quando falo, não entrego nada. deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. quando falo, o que faço é perto de não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. como se falando pudéssemos fazer tudo. o que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. não podemos navegar numa palavra. não podemos ir embora. falar é ficar. se falo é porque ainda não fui. ainda aqui estou. preciso de me calar, pai. preciso de aprender a calar-me. quero muito fugir. [p. 34]»

leia o livro você também: a desumanização. valter hugo mãe. editora cosac naify. 2014.

***

a trilha de fundo desta postagem é o disco Kassin+2 – Futurismo.

o filho de mil homens

[ter] 29 de julho de 2014

comecei na sexta-feira. aproveitando o recesso escolar… e os intervalos entre fazer café, almoço, lavar louça e roupa, limpar a casa, fazer compras para casa e para obra, cuidar das marias e mexer nas coisas necessárias da casa e do terreno… devorei as duzentas páginas… e cito [abaixo] algumas passagens finais do texto de valter hugo mae. belo texto, dialogou tanto com minhas ausências, silêncios e precipícios que de meus olhos verteram lágrimas em certos momentos…

 

«A Isaura surpreendia-se com esse pensamento. O Antonino por casa a contar-lhe como estavam as peripécias da sua vida e aquela emoção constante, e ela a achar que ele era delicado, a escolher sofrer meticulosamente por cada assunto (…) A Isaura chegou-se perto dele e investigou a expressão honesta do seu rosto. O modo como se expunha diante dela e a tratava como uma amiga. Ela nunca fora amiga de ninguém. Vivera encurralada entre os pais, o gado, as hortaliças e o amor dos infelizes. Via agora como se tornavam estranhas as pessoas que falavam de si, as pessoas que formulavam um discurso, as que diziam isto ou aquilo. Via agora como parecia elementar àquele homem que desabafasse aqueles segredos, que livrasse a boca das palavras, porque ao menos as palavras partiam e partiam de dentro do peito, aliviando o peito, fazendo-o pesar cada vez menos, como num certo milagre da confissão. Ao menos as palavras iam embora, desapareciam a cada instante, talvez metidas para uma liberdade que merecessem por terem tido a coragem de comparecer. [p. 157] (…) Mas não era um tristeza, era exatamente uma saudade de ter sofrido o que sofrera, o necessário para lhe ensinar a usufruir mais tarde, agora, a felicidade. Achava ele que se devia nutrir carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade. Deve nutrir-se carinho por um sofrimento sobre o qual se soube construir a felicidade, repetiu muito seguro. Apenas isso. Nunca cultivar a dor, mas lembrá-la com respeito, por ter sido indutora de uma melhoria, por melhorar quem se é. Se assim for, não é necessário voltar atrás. A aprendizagem estará feita e o caminho livre para que a dor não se repita. Estava a crescer. O pescador crescia para ser um homem tremendo. [p. 172] (…) E ele riu-se muito, por que o mar era para toda a gente e ninguém haveria de o guardar só para si, e ele não imperava sobre coisa nenhuma e não daria herança mais do que uma casa pintada de azul. E ela serviu um pouco mais de chá e achou Crisóstemo delicado, feito de uma virilidade equilibrada pelos sentimentos mais humanos. A mulher disse: quem tanto pede o que lhe pertence assim o mundo convence. Ele saiu, voltou ao seu canto e esperou. Alguma melhor ideia teria de surgir. Algum sinal de que o seu instinto sabia o que estava a fazer. Aos quarenta anos, o Crisóstomo, com o seu inusitado entusisamo, mudou o mundo. [p.184] (…) O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se os nossos mil pais e mais nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tante gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós. [p. 188] (…). A Isaura, que ainda não sabia quase nada sobre o amor, achou que era já feliz, mais feliz do que havia sido os seus pais. Talvez pudesse começar a perder o medo. Talvez pudesse mudar. Poderia perder a tristeza lentamente. Disse que começaria a falar mais vezes sozinha até aprender a falar. Até aprender a verbalizar o que sentia. [p.196] (…)  De qualquer modo, já não precisavam falar. Pertenciam-se e comunicavam entre si pela intensidade dos sentimentos. Tinham inventado uma família. O Crisóstomo abraçou o Camio e repetiu: amo-te muito, meu filho. Era o que mais queria dizer: meu filho [p. 199]».

fim.

citações na contracapa do livro:

«you can buy me for the price of a sparrow» baby dee

«the pact – sharon olds

We played dolls in that house where Father staggered with the
Thanksgiving knife, where Mother wept at noon into her one ounce of
cottage cheese, praying for the strength not to
kill herself. We kneeled over the
rubber bodies, gave them baths
carefully, scrubbed their little
orange hands, wrapped them up tight,
said goodnight, never spoke of the
woman like a gaping wound
weeping on the stairs, the man like a stuck
buffalo, baffled, stunned, dragging
arrows in his side. As if we had made a
pact of silence and safety, we kneeled and
dressed those tiny torsos with their elegant
belly-buttons and minuscule holes
high on the buttock to pee through and all that
darkness in their open mouths, so that I
have not been able to forgive you for giving your
daughter away, letting her go at
eight as if you took Molly Ann or
Tiny Tears and held her head
under the water in the bathinette
until no bubbles rose, or threw her
dark rosy body on the fire that
burned in that house where you and I
barely survived, sister, where we
swore to be protectors.»

mas a solidão não é viver só, a solidão é não sermos capazes de fazer companhia para alguém ou alguma coisa que está dentro de nós.

[seg] 28 de julho de 2014

que tal um mergulho no tempo? nesse vazio, que no fundo não é tão vazio assim… senti vontade de uma trilha sonora dos meus dezesseis… ouça no volume máximo.

«quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui»

***

estou a ler o filho de mil homens – como a casa está mais vazia, já que meu primo viajou pois sua mãe está hospitalizada e algum dos filhos precisa cuidar dela. e estou de recesso. entre cuidar das marias (filha e sobrinha) – e como é profundo o abraço e o riso de uma criança. é tempo sem pressão… calmo estou a esperar… e nenhuma das passagens [selecionadas nos livros] anotarei por cá… nem do findo saramago ou do veloz hugo-mae. colo abaixo imagens retiradas da rede. ótima história.

as minúsculas

[seg] 5 de maio de 2014

ps:

há contradições entre as minúsculas.

há contradições inúmeras nesta vida.

neste músculo há contrações ainda…

_________________________________________

os horários caducam… os dias caducam. hoje descobri valter hugo mae, um dos tantos outros como eu que vão de minúsculas. e foi cá, esta descoberta que gerou a vontade de escrever aqui… e assim, minha loucura não é só minha. nas nossas solidões há mais sintonia que consigamos imaginar. as letras minúsculas de valter também serão o presente à minha mãe. que em uma de suas falas aleatórias sobre o porquê de ler livros me fez recorda disto cá: socorro. agora, um breve relato dos dias: ,,,, domingo foi um dia solitário… deste que nos matam de fome, nos desnutrem, nos deixam em fastio – me sinto meio entediado e solitário, sem vontade de fazer o que tenho que fazer e sem coragem de movimentar-me… talvez voltar à terapia, talvez yoga, talvez… e dos poucos contatos humanos que tive posso dizer que foram raivosos, tensos, com uma certa agressividade – sou rodeado por, e imitador desta, família frustada. domingo foi a antítese do sábado. este foi um dia carinhoso, pacífico… um tanto resignado pelo desencontro de sexta, mas liberto por ter por ter tido a coragem de ir de peito aberto. pois sexta foi um dia daqueles que nos jogamos para a vida sem saber ou esperar o que virá… ingênuos, libertos. sexta foi o inverso de quinta, que foi um dia para arrumar a casa (física e simbolicamente), dia de ficar só, berrar ao volume máximo do som de alguma banda de rock bacana. dia só… dia de alimentar-se de solidão.

hoje também foi dia descoberta disto: marx selvagem.

e agora já é quase outro dia… dia de trabalho.

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