Archive for the 'Vídeo' Category

(dois covardes e uma parede branca no meio)

2018, dezembro 31, segunda-feira

vou fazer coisas assim, um dia.

lista de videopoemas de cassiana maranha:

two cowards and a white wall between
the New Man and the Whale
a melhor pessoa que eu conheço
mais bicho que fruta
o tigre de Matilde (Matilde's tiger)
things we don't understand e que abraçaremos
o dorso da baleia solitaria (the back of the lonely whale)

e finalizo cá, com esta maravilha:

Matilde Campilho empresta sua voz a Alexandre O´Neill

UM ADEUS PORTUGUÊS

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal 

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

img055.0

Alexandre O’Neill, No Reino da Dinamarca, 1958

extraído daqui ó: http://folhadepoesia.blogspot.com/2013/08/um-adeus-portugues-alexandre-oneill.html

objetos verbais não identificados

2018, dezembro 26, quarta-feira

eu simplesmente estou tão pilhado… que não consigo dormir.

3h21-3h57 -> deitado, mas a mente voando.

Next Year // Two Door Cinema Club // I don’t know where I am going to rest my head tonight / So I won’t promise that I’ll speak to you today / But if I ever find / Another place / A better time / For that moment I was never what I am // Take me to where you are / What you’ve become / And what you will do when I am gone / I won’t forget, I won’t forget // Maybe someday you’ll be somewhere / Talking to me as if you knew me / Saying  I’ll be home for next year, darling / I’ll be home for next year // In between the lines is the only place you’ll find / What you’re missing but you didn’t know was there / So when I say goodbye you must do your best to try / And forgive me this weakness / This weakness // ‘Cause I don’t know what to say / Another day / Another excuse to be sent your way / Another day, another year // Maybe someday you’ll be somewhere / Talking to me as if you knew me /  Saying I’ll be home for next year, darling / I’ll be home for next year / And maybe sometime in a long time / You’ll remember what I had said there / I said I’ll be home for next year, darling / I’ll be home for next year / If You Think of me I will think of you…

9h46 o que: devo, preciso e quero. quando isso ñ bate e furo… com o outro e comigo. ñ é legal. ‘bora dormir novamente. pq ñ acordei… ñ fui. mas eu devia…

13h15 acordo com os dois gatos montando guarda diante do meu travesseiro. tentei tirar uma selfie para registrar… mas meu rosto vai por estes dias muito inchado e descascando… preciso de sol… de rua… de vida.

20h33 minha filha chegou.

continuo organizando os ficheiros… quase tudo ok. releio esse texto:

Objetos verbais não identificados: um ensaio de Flora Süssekind

repare que é a época das migrações

2018, dezembro 23, domingo

ontem depois do tédio movimentei as coisas de lugar… mexi em tudo. e comecei a mexer aqui também (trocar páginas por postagens).

e logo mais é juntar caixas e colocar todos os livros lá. para levar para a próxima casa. dois meses é o limite…

e que vontade de ter um livro, mas sem nenhum tostão. estou zerado.

Poema retirado do livro “Jóquei” (2014), primeiro livro da poeta portuguesa Matilde Campilho, lançado no Brasil pela Editora 34. p. 52

Alguém me avisou – Matilde Campilho

declamadora: Janaina Sales

«Ele falou que eu deveria voltar
porque eu era sua família
falou que os passarinhos
estavam começando de novo
com aquela entoação estranha
que poderia ser vista como triste
ou como bastante maravilhosa
você precisa voltar ele falou
algumas acácias estão se votando
ao abandono ou ao desespero
e a peixaria foi atacada
por uma enorme inundação
por favor volte veja se volta
esta manhã o taxista ficou
rodando todas as estações
de rádio até achar notícia
não tem notícia de você na cidade
faça-me um favor e volte
está acontecendo uma revolução
querem retirar o primeiro-ministro
de sua cadeira empedernida
querem tocar fogo nas estradas
querem melhorar a estrutura
do sino que marca o meio-dia
na garganta de Antoninho
ande veja se volta foi o que ele falou
você é minha família é impossível
assistir à transição do inverno
para a primavera sem família perto
e como faço para comprar lollypops
se você não estiver me esperando
lá fora do lado de fora em seu carro
brincando com as rotações do motor
enquanto eu fico tamborilando meus
dedos sobre a bancada de madeira
da mercearia onde sempre compro
lollypops de laranja ou de morango
você e eu sempre damos um jeito
de sincronizar nossos batimentos
eu toco quatro vezes na mesa
você acelera quatro vezes o motor
família é isso mesmo: dois caubóis
fintando a gravidade e a monotonia
vai me diga se volta ou se não volta
na semana passada eu reparei
que as plantações de milho
estão começando a se expandir
me diga que isso não te seduz
foi o que ele falou isso mesmo
a plantação que se expande te seduz
ele falou que eu precisava voltar
que talvez eu devesse arrumar
minha mala largar meu emprego
arrume tudo em sua mala
não esqueça sua camisa branca
não esqueça sua flauta de osso
não esqueça não corte seu cabelo
coloque tudo nessa mala
e se tiver tempo me traz sete búzios
volte me diga que volta
repare que é a época das migrações
e que você sempre acompanhou
os colibris e os pinguins
já chega de se inscrever
nesse campeonato de desapego
você sempre perde já deveria saber
ele falou que eu deveria voltar
que no restaurante de dona Célia
estavam servindo um tipo de pão
diferente do habitual
que no parque das diversões
estavam montando um novo esquema
que na cova dos leões já não mora
ninguém absolutamente ninguém
que estão começando uma revolução
você precisa voltar foi o que ele falou
volte por favor meu amor volte pra casa
então eu fiz a mala e foi por isso que eu
voltei — eu voltei porque me chamaram.»

***

ao fundo, matilda… declamando ou sendo declamada.

ps: esse sitio cá é animal…

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