dossiê maiakovski

nacos de nuvens

[vladimir vladimirovich maiakóvski. poeta fundamental. abaixo, algumas informações coletadas na rede sobre este poeta. textos de dois tradutores do russo à língua portuguesa, borís schnnaiderman e augusto de campos. demais referências no final da postagem].

«Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.»
Vladimir Maiakóvski

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Досье Маяковский

Dossiê Maiakóvski – CRONOLOGIA DE MAIAKÓVSKI

Por Boris Schnnaiderman

1893 — Vladímir Vladímirovitch Maiakóvski nasce na aldeia de Bagdádi, nos arredores de Kutaíssi (hoje Maiakóvski), na Geórgia, filho do inspetor florestal Vladimir Constantinovith Maiakóvski e de Aleksandra Aleksiéievna.

1902 — Adoece gravemente de tifo. Segundo reminiscências de sua mãe, A. A. Maiakóvskaia1, foi então que ele se tornou um defensor ardoroso da água fervida.

1902-1904 — Cursa o ginásio de Kutaíssi, para onde se transferiu a família. É um leitor apaixonado de romances de aventuras. Começa a estudar desenho e pintura.

1905 — Lê discursos, jornais e folhetos socialistas. Participa de manifestações que são o reflexo local da Revolução de 1905.

1906 — Morte do pai de Maiakóvski. A família transfere-se para Moscou, em condições de extrema penúria. O menino é matriculado no quarto ano de um ginásio moscovita, onde estuda mal. Continua suas leituras socialistas. Escreveria mais tarde na autobiografia “Eu mesmo”,2 lembrando aqueles dias: “Eu simplesmente não aceitava a literatura. Filosofia. Hegel. Ciências naturais. Mas sobretudo o marxismo. Não existe obra de arte que me tenha entusiasmado mais que o ‘Prefácio’ de Marx”.3

1908 — Abandona o ginásio e ingressa no Partido Operário Social-Democrático Russo, ligando-se à sua ala bolchevique. Executa algumas tarefas, como propagandista nos meios operários. Em março, é preso numa tipografia clandestina. Pouco depois, é solto sob fiança. No outono, ingressa numa escola de Artes e Ofícios.

1909 — Segunda prisão, seguida de uma terceira, desta vez como participante num plano de evasão de mulheres presas.

1910 — O encarceramento se prolonga, e o jovem completa onze meses na prisão de Butirki. Ali se atira a uma leitura febril de romances e da poesia russa da época, sobretudo da escola simbolista. Faz versos. “Obrigado aos guardas: ao soltar-me, tiraram aquilo. Senão, era capaz de publicar!” Saindo da prisão, abandona o ginásio. Dedica-se novamente à pintura, desta vez num estúdio. “Fiquei pintando serviços de chá prateados, em companhia de não sei que damazinhas. Depois de um ano percebi: estava estudando prendas domésticas”.

1911 — Torna-se aluno do pintor P. I. Kélin, cuja arte realista elogiaria mais tarde. Ingressa na Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura, “o único lugar onde me aceitaram sem exigir atestado de bons antecedentes.”… “Fiquei espantado: protegiam-se os imitadores e perseguiam-se os independentes. Lariônov4, Máchkov. O instinto revolucionário me colocou do lado dos que eram expulsos”. Na escola torna-se amigo de seu colega, o pintor e poeta David Burliuk. O próprio Maiakóvski se referiria depois à amizade entre ambos, com alguma ironia, como ponto de partida do futurismo russo. “É com um amor de todos os momentos que penso em David. Um amigo magnífico. Meu verdadeiro mestre. Burliuk me fez poeta. Lia-me franceses e alemães. Empurrava-me livros. Andando, falava sem parar. Não me soltava um instante sequer. Dava cinqüenta copeques por dia. Para que escrevesse sem passar fome.”

1912 — O poema “Noite” se torna seu primeiro texto publicado. Participa do grupo dos cubo-futuristas, que passa a editar o almanaque “Bofetada no gosto público”. Este sai com uma declaração assinada por Maiakóvski, ao lado de Burliuk, A. Krutchônikh e V. Khliébnikov. Maiakóvski toma parte em discussões públicas, leituras de poemas e outras atividades no gênero, que marcaram a deflagração do movimento futurista russo.

1913 — Violentas polêmicas. Maiakóvski assume atitudes de desafio e usa a famosa blusa amarela. Publica o artigo “Teatro, cinema, futurismo”, com ataques ao realismo da época. Apresentação da tragédia “Vladímir Maiakóvski”, que rompe totalmente as convenções teatrais em voga e resulta em tremenda assuada.1914 — Maiakóvski e Burliuk são convidados pela diretoria da Escola de Pintura, Escultura e Arquitetura a abandonar a violenta campanha de agitação a favor do futurismo. Em conseqüência da recusa, expulsam-nos do estabelecimento. Viagens pela Rússia em companhia dos demais cubo-futuristas, aos quais se uniu o poeta V. V. Kamiênski. Deflagrada a Primeira Guerra Mundial, Maiakóvski passa por um momento de entusiasmo patriótico. Depois, predomina a repugnância pela carnificina, conforme se constata pelos versos, pela autobiografia e por outros escritos. Mas, “para falar da guerra, é preciso tê-la visto”. Apresenta-se como voluntário, sendo recusado, por suspeição política. É característico desse período o poema “A mãe e o crepúsculo morto pelos alemães”.

1915 — Passa algum tempo em Kuokala, no Golfo da Finlândia, local de veraneio de artistas e escritores. Ali continua a escrever o poema “Uma nuvem de calças”. Faz uma visita a Górki. “M. Gorki. Li para ele partes da ‘nuvem’. Num repente de sensibilidade, cobriu-me de lágrimas todo o colete. Comovera-o com os meus versos. Fiquei um tanto orgulhoso. Pouco depois, tornou-se claro que ele chorava em todo colete de poeta. Assim mesmo, guardei, o colete. Posso cedê-lo a algum museu da província”. Depois da estadia em Kuokala, estabelece-se em Petrogrado. Conhece o estudioso de literatura Óssip Brik, cuja mulher, Lília Brik, torna-se o grande amor de Maiakóvski. Conclui os poemas “Uma nuvem de calças” e “A flauta vértebra”. Submetido à censura, o primeiro desses poemas sai com “uma seis páginas cobertas de pontos”. Convocado para as fileiras em outubro, desta vez não quer ir para a linha de frente e se faz passar por desenhista, a fim de não sair de Petersburgo. Assiste a aulas noturnas sobre desenho de automóveis. Sua condição de convocado dificulta a atividade literária, pois os soldados são proibidos de publicar materiais.

1916 — Colabora na revista “Liétopis” (Anais), dirigida por Górki e de tendência pacifista. Conclui os poemas “A guerra e o mundo” e “O homem”.

1917 — Deflagrada a Revolução de Fevereiro (27 de fevereiro; 12 de março pelo Calendário Gregoriano, introduzido depois de Outubro), toma parte ativa nos acontecimentos e assume por alguns dias o comando da Escola de Motoristas. Nos meses do governo de Kerênski, sua posição política assemelha-se à dos bolcheviques. A exemplo dos demais membros do grupo cubo-futurista, aceita plenamente a Revolução de Outubro. “A minha revolução. Fui ao Smólni5. Trabalhei. Fiz tudo que vinha às mãos.”

1918 — Escreve “Ode à Revolução”, “Marcha de Esquerda” e outros poemas revolucionários. Desempenha o papel principal em diversos filmes (muitos contemporâneos exaltaram seus dotes como ator) e escreve argumentos para cinema. Em 25 de outubro, montada em Petrogrado, em comemoração do aniversário da Revolução de Outubro, a peça de Maiakóvski “Mistério-bufo”, sob a direção de V. Meyerhold e com cenários de Casimir Maliévitch, fundador do Suprematismo e um dos expoentes da pintura moderna russa. A obra provoca forte oposição nos meios teatrais. Os atores são reunidos por meio de anúncios em jornais, e o próprio Maiakóvski precisa desempenhar três papéis. O espetáculo é suspenso depois de apenas três sessões. Não obstante a divergência de concepções estéticas, Maiakóvski e o grupo cubo-futurista encontram apoio no Comissário da Instrução Pública, A. V. Lunatchárski. Editam “A arte da Comuna”, órgão do Comissariado.

1919 — Transfere-se para Moscou. Realiza muitas viagens, para conferências e leituras de poemas. Ingressa na ROSTA (sigla de Rossíiskoie Tieliegráfnoie Aguentstvo — Agência Telegráfica Russa), onde redige versos para cartazes e freqüentemente os desenha também.

1920 — Atividade muito intensa na ROSTA. Acaba de escrever o poema “150.000.000” e publica-o anônimo, “para que cada um pudesse completá-lo e melhorar. Ninguém o fez, em compensação todos sabiam quem era o autor”. Nas difíceis condições da Guerra Civil, Maiakóvski se considera um combatente, conforme se pode constatar pela sua obra da época. Reelabora o “Mistério-bufo”.

1921 — Depois de vencer inúmeras dificuldades burocráticas, apresenta uma versão nova do “Mistério-bufo”, ainda sob a direção de Meyerhold, e que tem perto de cem representações. A mesma peça é levada em alemão, para os participantes do III Congresso do Comintern, realizado em Moscou. Maiakóvski passa a escrever no jornal “Izviéstia” (Notícias).

1922 — Aparecem as últimas “vitrinas” da ROSTA. Maiakóvski organiza a editora MAF, que lançará as obras dos futuristas. Trabalha no poema “Quinta Internacional”, que não será concluído. Viaja pelo Ocidente, visitando a Letônia, Berlim e Paris. Escreve a autobiografia “Eu mesmo”.

1923 — Organiza com seus amigos futuristas a revista “Lef” (de Liévi front” — frente de esquerda), que, segundo a intenção declarada de Maiakóvski, deveria aliar arte revolucionária e luta pela transformação social. Na revista, colaboram Eisenstein, Pasternak, Dziga-Viértov, Isaac Bábel, Óssip Brik, Assiéiev, Ródtchenko, etc. Escreve o poema “A respeito disso”, além de poemas didáticos, propaganda política e propaganda de produtos comerciais. Publica versos inspirados pela viagem ao Ocidente e um livro de impressões em prosa.

1924 — Viaja intensamente pela Rússia: conferências, discussões, leitura de poemas. Escreve um dedicado ao jubileu de Púchkin. Termina o longo poema “Vladímir Ilitch Lênin”. Faz uma viagem a Berlim e outra a Paris.

1925 — Publica um livro de versos inspirados pela sua estada em Paris, além de trabalhos em prosa. Conclui o poema “O proletário voador”. Inicia uma longa viagem ao exterior: pretende dar volta ao mundo, mas, depois de seis meses, tendo estado sobretudo em França, Espanha, México e Estados Unidos, regressa apressadamente à pátria. Organiza o livro em prosa “Minha descoberta da América” e publica poemas inspirados pela viagem.

1926 — Dedica-se intensamente à colaboração, em prosa e verso, na imprensa cotidiana. Intensifica também suas viagens pela União Soviética. “Continuo a tradição interrompida dos trovadores e menestréis”. Escreve o ensaio “Como fazer versos?”. Publica o poema “A Sierguéi Iessiênin”. Escreve cenários de cinema.

1927 — Aparece o primeiro número da revista “Nóvi Lef” (Novo Lef). Outra viagem pela Europa: Berlim, Paris, Praga, Varsóvia. Escreve o poema “Bem!”. Publica impressões de viagem (em prosa). Continua sua atividade de cenarista, mas os cenários mais importantes não são aproveitados. O cenário “Esquece a lareira!” daria origem à peça “O percevejo”.

1929 — Estréia de “O percevejo”. Nova estada em Paris. Escreve “Os banhos”.

1930 — Estréia de “Os banhos”. O poeta adere à RAPP (Associação Russa dos Escritores Proletários), num período de grande polêmicas. Inaugura-se a exposição “Vinte anos de atividade de Maiakóvski”, o que suscita novos debates e ataques ao poeta, enquanto outros preferem simplesmente silenciar sobre a exposição. Maiakóvski e seus amigos ficam evidentemente chocados com a ausência, na inauguração, de representantes das agremiações literárias e da imprensa. Numa discussão pública, que tem lugar no auditório do Instituto Plekhânov de Economia Popular, sofre ataques de estudantes, que repetem as velhas acusações: “incompreensível para as massas”, “usa palavras indecentes”, etc. Maiakóvski replica: “Quando eu morrer, vocês vão ler meus versos com lágrimas de enternecimento”. Na ata da sessão consta: “Alguns riem”6. A fase de depressão que atravessa é agravada por sucessivas afecções da garganta, particularmente penosas para quem procurava sempre falar em público, e cuja poesia está marcada pela oralidade. Termina o poema “A plenos pulmões”. Suicida-se com um tiro (14 de abril).

MANHÃ

A chuva lúgubre olha de través.
Através
da grade magra
os fios elétricos da idéia férrea –
colchão de penas.
Apenas
as pernas
das estrelas ascendentes
apóiam nele facilmente os pés.
Mas o destroçar dos faróis,
reis
na coroa de gás,
se faz
mais doloroso aos
buquêshostisdasprostitutasdotrotoar.
No ar
o troar
do riso-espinho dos motejos –
das venenosas
rosas
amarelas se propaga
em zig-zag.
Agrada olhar de
trás do alarde
e do medo:
ao escravo
das cruzes
quieto-sofrido-indiferentes,
e ao esquife
das casas
suspeitas
o oriente
deita no mesmo vaso em cinza e brasas.

1912
(Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Augusto de Campos e Boris Schnaiderman. Tempo Brasileiro, 1967, pp. 47-8)

ALGUM DIA VOCÊ PODERIA?

Manchei o mapa quotidiano
jogando-lhe a tinta de um frasco
e mostrei oblíquoas num prato
as maçãs do rosto do oceano.

Nas escamas de um peixe de estanho,
li lábios novos chamando.

E você? Poderia
algum dia
por seu turno tocar um noturno
louco na flauta dos esgotos?

1913
(Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Haroldo de Campos. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53)

QUADRO COMPLETO DA PRIMAVERA

Folhinhas.
Linhas. Zibelinas sozinhas.

1913 (Poemas – Vladímir Maiakóvski. Trad. Haroldo de Campos. Tempo Brasileiro, 1967, p. 53)

NOTAS
1 “Dietstvo i iunost Vladimira Maiakóvskovo” “Infância e juventude de Vladimir Maiakóvski”, na coletânea de depoimentos já citada.
2 “Iam sam”, Vol. I, ob. cit.
3 Foram tiradas da mesma autobiografia as demais citações que aqui aparecem sem indicação de fonte.
4 Mikhail Lariônov, pintor russo, fundador do movimento pictórico denominado “raionismo”; considerado geralmente um dos pioneiros da pintura abstrata.
5 O internato para moças da nobreza onde se instalara o quartel-general dos bolcheviques.
6 Há uma narração desses fatos baseada na própria ata da sessão, feita pelo secretário desta, V. I. Slavínski, e incluída no livro de reminiscências sobre Maiakóvski, já citado. O poeta Nicolai Assiéiev recorda-os também no livro “Zatchém i komu nujná poésia” (Para que e para quem a poesia é necessária), Editora Soviétski Pissátiel (Escritor Soviético), Moscou, 1961.

Boris Schnnaiderman é professor de Literatura Russa da USP; e tradutor de poetas russos

[vladimir vladimirovich maiakóvski. poeta fundamental. abaixo, algumas informações coletadas na rede sobre este poeta. textos de dois tradutores do russo à língua portuguesa, borís schnnaiderman e augusto de campos. demais referências no final da postagem].

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Dossiê MaiakóvskiMAIAKÓVSKI, 50 ANOS DEPOIS

Por Augusto de Campos

Passou despercebido, entre nós, o cinquentenário da morte de um grande poeta, um dos maiores do nosso tempo, o russo Vladimir Maiakóvski. Em 14 de abril de 1930, Maiakóvski, que tinha então 36 anos, suicidou-se com um tiro no peito. No momento, não há nenhum livro de poemas dele, em tradução brasileira, circulando por aqui. Miséria do nosso contexto cultural. Na União Soviética, as obras reunidas do poeta, editadas em 13 tomos, de 1955 a 1961, chegaram a ter 200 mil cópias de tiragem. No Brasil, porém, uma antologia de sua poesia, publicada pela editora Tempo Brasileiro, em 1967, com 3 mil, exemplares, levou 13 anos para se esgotar! Maiakóvski merece isso? A poesia merece isso? E dizem que são os poetas os responsáveis pelo afastamento do público! É. Os poetas são sempre os culpados.
A oficialização literária de Maiakóvski, após a conhecida intervenção de Stálin, provocada por uma carta a ele dirigida por Lília Brik em 1935, se, por um lado, contribuiu decisivamente para a divulgação da obra do poeta, por outro deformou-lhe a imagem e o transfigurou, veiculado em péssimas traduções, num retórico propagandista do regime burocrático e autoritário que se instalou na URSS. O verdadeiro Maiakóvski, o poeta, o rebelde, o anti-burocrata por excelência, não se reconheceria nas numerosas estátuas homônimas erigidas em sua homenagem.
Ele, que escreve: “A mim,/ a meu posto,/ uma estátua é devida./ Dinamite: / – eu a explodo em detritos!”, e também “Cuspo sobre o mármore viscoso” (traduções de Haroldo de Campos). Ou talvez se encarnasse num monumento, rígido, à espera do degelo, como Prissípkin, o personagem de sua peça O Percevejo, o qual congelado pelo jato d’água dos bombeiros num incêndio em 1929, desiberna 50 anos depois no dia 12 de maio de 1979, para encontrar-se sozinho, numa sociedade asséptica e puritana. Prissípkin, tendo por únicos companheiros um percevejo (congelado e descongelado com ele), o violão, o cigarro e a vodca, acaba sendo exibido, num jardim zoológico, para uma multidão de curiosos de todas as partes do mundo, entre os quais – expressamente mencionados no texto – alguns brasileiros. Viva, Maiakóvski não estaria menos despaisado no monólito de conservadorismo em que se converteu a Revolução que outrora, apaixonadamente, defendera. Talvez nós, brasileiros, que ele convocou para ver Prissípkin, o philisteus vulgaris, e o percevejo sobrevivente, cimex normalis, devêssemos procurar conhecer melhor esse poeta invulgar, 50 anos depois.

Enfim, o reconhecimento

Só recentemente o estudo de sua poesia, a partir dos textos originais, e incorporando aos seus poemas experimentais cubo-futuristas sempre excluídos das primeiras divulgações, veio a propiciar o reconhecimento do sério trabalho de Maiakóvski com a linguagem, das inovações de sua poética, do seu laborioso processos compositivo, enfim, da face oculta do poeta, capaz de conferir qualidade artística à sua obra e de redimi-la até de seus erros e excessos. Nem Maiakóvski, nos momentos de maior lucidez, pretendeu outra coisa: “Sou poeta. É por isso que sou interessante”, diz ele nas primeiras linhas de sua autobiografia (e não, como etsá numa tradução portuguesa há pouco lançada: “Sou poeta. Este é o fulcro dos meus interesses”). Entre nós, Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos, especialmente, se encarregaram de recuperar a face do poeta, que o sectarismo político ousou reduzir a uma caricatura de oratória. Leiam, a propósito, “O texto como produção” (Maiakóvski), de Haroldo de Campos, divulgado pela primeira vez em 1961, e ora incluído no livro A operação do texto (1976) e A poética de Maiakóvski (1971), de Boris Schnaiderman, além de Maiakóvski e O Teatro de Vanguarda (1971), de A. M. Ripellino, todos publicados pela editora Perspectiva (Coleção Debates).
Um livro que saiu no ano passado – I LOVE, The story of Vladimir Maiakóvski and Lili Brik, de autoria de Anna e Samuel Charters (New York, Farrar Strauss Girous) – que veio trazer luz sobre um outro aspecto mais ou menos obscuro da vida do poeta: seu complexo relacionamento amoroso com Lília Brik, mulher de Ossip Brik, o crítico literário, amigo e companheiro de lutas artísticas de Maiakóvski! Com eles viveu, durante 15 anos, um ménage à trois que até hoje aflige e incomoda o catecismo das autoridades soviéticas.
Não se trata de sensacionalismo. O livro dos Charters é sério e sensível. Ann Charters é estudiosa da beat generation, com ensaios publicados sobre Jack Kerouac e Charles Olson. Samuel, poeta e tradutor, é um especialista em jazz, vários volumes sobre o blues e uma monografia a respeito do grande e esquecido blues singer Roberts Johnson, assassinado em 1937 em San Antonio. A biografia que assinam em conjunto é o resultado de mais de seis anos de pesquisa, que incluem viagens à União Soviética e entrevistas com Lília Brik, Veronika (Nora) Polonskaia e Tatiana Lacovlieva, as tres principais personagens femininas, além de contarem com a colaboração e a revisão de Rita Rait, amiga do poeta e dos Brik e conhecida tradutora.
Que importância terá a problemática reconstituição da tumultuada vida amorosa do poeta? Talvez pouca, talvez nenhuma para a avaliação da sua poesia. Mas, de qualquer forma, os biografemas levantados pela pesquisa dos Charters certamente auxiliam a interpretação de muitos textos do poeta e nos ajudam a compreender melhor o fascinante período dos anos heróicos da Rússia revolucionária pré-Stalin, assim como os desencontros do artista e da sociedade, desde que este, solidário social, não queria abdicar da sua própria rebeldia, enquanto artista e enquanto indivíduo.
Além das entrevistas, realizadas de 1967 a 1974 – no mesmo período, em julho de 1972, em que foi entrevistada por Boris Schnaiderman (ver o artigo “Lília Brik, uma alma encantadora na vida de Maiakóvski”, publicado neste jornal em 25.8.79) – Lília forneceu aos Charters fotografias, manuscritos de suas memórias e das de sua irmã, Elsa Triolet, e outros materiais inéditos, e ainda propiciou-lhes um encontro com Nora Polonskaia, a atriz que estivera com Maiakóvski pouco antes de seu suicídio.
A própria Lília viria a suicidar-se, aos 86 anos, em 4 de agosto de 1978, ingerindo uma dose excessiva de comprimidos para dormir. Uma nota encontrada por V. A. Katanián, seu último marido, datada de 1968, revelouq eu ela já pensara em suicídio, após ter recebido dois artigos insultuosos de um jornal literário soviético, denegrindo a sua participação na vida de Maiakóvski.

Imoralidade?

Na introdução do seu livro, os Charters acentuam o esforço das autoridades soviéticas para desvincularem dos Brik a biografia do poeta. Por muitos anos situado na travessa Guendrikov, no último apartamento em que os três viveram juntos, em Moscou, o Museu Maiakóvski acabou sendo transferido, em 1972, para outro local. Agora, está mais distante da presença de Lília. Quando referida aos visitantes, pelos guias, ela já é tratada como uma vizinha, ou uma das muitas mulheres às quais o poeta se ligou. O fato de Lília, amante de Maiakóvski, ser casada e de terem vivido, ela, marido e poeta, sob o mesmo teto, parece inconciliável com a moralidade oficial soviética (“As pessoas agora não entendem nada da minha vida com Maiakóvski e Brik. Elas pensam que foi um terrível pecado”, declarou Lília aos Charters.) Além disos, os Brik eram judeus, e não agradaria aos preconceitos anti-semitas das autoridades reconhecer a sua influência sobre o poeta oficializado. Influência que julgam corruptora e responsável pelo fato de Maiakóvski jamais ter aceito a nova sociedade com a passividade exigida, pelo Governo, de seus escritores e artistas. O livro dos Charters, tão desmistificador quanto aquela outra biografia, The Charmed Circle, de James R. Mellow, sobre Gertrude Stein e Alice B. Toklas, procura recuperar, sem falsos pudores, a atmosfera da conturbada vida afetiva de Maiakóvski. Deste retrato sensível, mas sem retoques, o poeta sai, não idolizado, mas engrandecido; um gênio, mas humano. Lília e Ossip, também. Pessoas comuns, comparadas a Maiakóvski, mas até certo ponto mais sólidas e estranhamente mais avançadas que ele em matéria de ideologia amorosa. Lília jamais aceitou o amor possessivo de Maiakóvski. Amava-o. Mas, fiel aos preceitos do livro O que fazer?, de Tchernichévski (marido e mulher deveriam ser pessoas individualmente livres, nenhuma possuindo a outra), não aceitava ter de privar-se do convívio com Ossip, vinculando-se os três por profunda amizade e companheirismo. Irredutível em sua liberdade, Lília teve outros amantes. Seus fugazes ataques de ciúme, especialmente de Tatiana Lacovlieva, a russa branca com quem Maiakóvski quase se casou em 1929, não lhe abalaram as convicções.

O “urso do ciúme”

Maiakóvski tentou silenciar o “urso do ciúme” (como chamou no poema “Jubileu”, de 1924), mas nunca o conseguiu. Aparentemente se acomodou à vida a três, ainda mais depois que ele e Lília deixaram de ser amantes em fins de 1925. Mas buscou outros relacionamentos, insistindo em casar-se, primeiro com Tatiana, depois com Nora Polônskaia. Com a primeira chegou a marcar casamento em outubro de 1929, em Paris. A bela Tatiana tinha 22 anos, ele 35, quando se conheceram, no ano anterior, naquela cidade. Impedido de sair da URSS (provavelmente por não aprovarem a ligação com a russa branca), Maiakóvski não pôde cumprir o compromisso. Tatiana casa-se, em dezembro, com um diplomata francês, o Visconde Du Plessix. O poeta se volta, então para outra jovem, de vinte e poucos anos, a atriz Nora Polônskaia, casada, e que nem ao menos aceita tornar público seu caso com Maiakóvski, quanto mais casar-se com ele. Na noite precedente e na manhã do suicídio, Nora estava com o poeta. Discutiram. Maiakóvski já havia escrito a carta em que pede a Lília que o ame e inclui Nora entre seus parentes. Nora saiu do quarto do poeta, na Travessa Lubiânski, estava no corredor dirigindo-se para a porta do prédio, quando ouviu o tiro dado com a mão esquerda dirigido ao coração, onde se alojou a única bala que havia no revólver. Lília e Ossip achavam-se em Londres, desde 18 de fevereiro.
Dois meses e meio antes do suicídio, em 1 de fevereiro de 1930, abrira-se em Moscou a exposição “Vinte anos de trabalho” (sobre a obra de Maiakóvski), boicotada pelo grupo de escritores oficiais. Só estudantes e amigos compareceram. Alguns dias depois o poeta entraria para a RAPP (Associação Pan-Russa de Escritores Proletários) que, a despeito disso, continuou a se omitir na reapresentação da mostra, em princípio de março, em Leningrado. Uma Exposição que, segundo Maiakóvski, “não era um jubileu, mas um relato de suas atividades”, compreendendo livros (quase cem edições), revistas, rascunhos (sob o título de Laboratório), cartazes de propaganda, as “janelas” (cartazes de guerra com legendas e desenhos do poeta) para a agência telegráfica Rostas e documentação de atividades, conferências, cinema e teatro.
Causas possíveis do suicídio? Os Charters resumem: o tratamento dado a Maiakóvski pelos “escritores proletários”; a desilusão política; o fracasso do seu caso com Tatiana; a recusa de Nora em casar-se com ele; problemas físicos com a sua voz. Mas a idéia do suicídio sempre o perseguira. O tema remonta,mais uma vez, em sua obra poética. Em “A flauta vértebra!” (1915): “seria melhor talvez / pôr o ponto final de um balaço” (Trad. De Haroldo de Campos). Em “Lilitchka!” – em algum lugar de uma carta (1915): “e não me lançarei no abismo,/ e não beberei veneno / e não poderei apertar na têmpora o gatilho”. Em “O homem” (1917), na seção “Maiakóvski para os séculos”, imagina-se retornando, após o suicídio, milhares de anos depois, ao apartamento de Lília, na Rua Jukovaki (então Rua Maiakóvski), para inteirar-se de que sua amada teria saltado atrás dele pela janela. Lília era, obviamente, a motivadora desses suicídios imaginários, que o poeta ameaçava transformar em realidade. Certa vez, telefona a ela, dizendo que ia matar-se. Puxa o gatilho. O revólver falha. Sem a coragem de dar o segundo tiro, desiste. Depois, dá a bala de presente a Lília.
O poema que discute o suicídio de Iessênin, em 1926, terminando com as linhas “nesta vida, morrer não é difícil / o difícil / é a vida e seu ofício” (na esplêndida recriação de Haroldo de Campos), parecia prevenir qualquer recidiva. O poeta lutava consigo mesmo? Como Iessênin, seu antípoda, Maikóvski deixa versos no seu bilhete de despedida. Menos patéticos, por certo: “Como se diz / o caso está encerrado / a canoa do amor se quebrou no cotidiano / estou quite com a vida / inútil o apanhado / da mútua dor / mútua quota de dano”. Patética, na sua singeleza esta linha da carta: “Lília – Liub mienià” (Lília – ama-me).

Liubliu (amo)

Todas as homenagens que o poeta rendeu a Lília (Em poemas como “Lilitchka!”, “A Flauta-vértebra”, “O Homem”, “Disto”) se resumem numa única palavra que ele transformou no que hoje chamaríamos de poema concreto. Maiakóvski fez gravar num anel, que deu a ela de presente, as letras L, IU e B – as iniciais do nome completo da sua amada, Lília Iúrevna Brik. Em disposição circular elas formam a palavra LIUBLIÚ (amo). Também no título do poema de 1922 as letras são gravadas separadamente (L I U B L I Ú), embutindo na palavra “amo” o nome Lília. Em 1923 saiu em Berlim uma extraordinária coletânea de poemas de Maiakóvski, Dliá Golossa (Para voz). Desenhado por El Lisstski, o livro contém admiráveis soluções visuais, integrando texto e formas gráficas. Nele as letras reaparecem, numa única página, em disposição circular, respondendo no plano gráfico à estrutura do poema anel de Maiakóvski. Lília Brik sempre o teve perto de si. A par da vida amorosa do poeta, o livro dos Charters narra fatos curiosos e pouco conhecidos da vida de Maiakóvski. O poeta era atacado não só por idéias estéticas (futuristas, no dizer da época) mas por sua conduta pessoal. Os “escritores proletários” estranhavam que ele se vestisse bem. Ou que usasse um anel de ouro (presente de Lília). “Porque o uso no dedo?”, defendia-se. “Para não pô-lo no nariz”. Ou que ostentasse a caneta de luxo que ganhou de Tatiana. Por fim, comprou um carro em Paris, um Renaud cinza, que trouxe para Moscou. Não gostava de guiar, por isso tinha um motorista. O “poeta proletário” Demian Biédni o recriminou: “Você está ficando pequeno-burguês”. “Mas você sempre andou de carro”, retrucou Maiakóvski. “Mas o meu carro é do Estado, e não particular”, concluiu Biédni, triunfante.
Aspecto controvertido hão de assumir as revelações dos Charters sobre o crescente envolvimento dod Brik com funcionários do governo, inclusive membros da Tcheká, a polícia secreta, contato esse que teria se intensificado após a morte de Maiakóvski. Tais afirmações são corroboradas por um curioso testemunho, que não é citado pelo casal de biógrafos, o do poeta norte-americano E.E.Cummings que, em 1931, visitou Lília e Óssip Brik, em Moscou, ao que parece sem saber exatamente de que pessoas se tratavam.
De fato, assim como Maiakóvski esteve nos EUA, em 1925, numa viagem frustrante em matéria de contatos culturais, já que ele não fala inglês (o monolinguismo do poeta o fazia sentir-se tremendamente isolado no exterior, mesmo em Paris, onde contava com o auxílio da escritora Elsa Triolet, irmã de Lília). Cummings fez uma viagem à URSS, entre 10 de maio e 14 de junho de 1931, armado de um mínimo de vocábulos russos e de uma carta de apresentação de Elsa, então casada com Louis Aragon, amigo dele e de Pound. A carta de Elsa, acompanhada de muitos presentes (uma pletora de perfumes, uma escova de dentes, gravatas e revistas), era endereçada à sua irmã e, ao que tudo indica, nem Cummings tinha idéia da poesia de Maiakóvski, nem Lília conhecia a poesia de Cummings.

Camarada suicida

O encontro é narrado por Cummings ans páginas 61-72 do livro EIMI (“eu sou”, em grego), publicado em 1933 – um insólito diário de viagem, a que aplica todos os recursos de sua peculiar “tortografia”. No quadro cinzento descrito pelo poeta como o “subumano superestado comunista onde os homens são sombras & as mulheres não homens”, Lília (camuflada sob o ferino pseudônimo de “Madame Putifar”) emerge em tintas fortes: “Uma mulher alta mas não muito; não jovem mas não velha, e bonita, muito feminina e eu sinto que ela é imediatamente franca, ela é viva, ela é enérgica”. Óssip (le mari) é visto com menos simpatia: “pequeno, com a cabeça (calva) raspada, óculos de aros pretos, o andar de um bancário e algo de muito sério (de modo algum algo que ele não é) nele”. Maiakóvski, também não referido pelo nome, apena sum retrato na parede. Lamentável desencontro de “eu sou” com “eu amo”. Cummings: “Na parede, diversos estudos artísticos fotográficos de um demasiado intrépido, com pelo menos 3 punhos, pateticamente E Quão teatralesco tovarich temerário; num fundo de pseudopotentes caricaturas. I. é um camarada suicida” Os “estudos” fotográficos a que Cummings alude parecem ser uma série de fotos, tiradas em 1928, por A . Tamerin, em que o poeta russo aparece declamando seus poemas, em três delas com o punho cerrado; e aquele retrato sombrio feito por Steremberg na Exposição 20 anos de trabalho – a última foto de Maiakóvski, vivo, tendo como fundo o stand das “Janelas Rosta”, “a estatura poderosa do poeta como que sublinhada pelas silhuetas caricaturais dos inimigos, que careteiam em torno dele”, como assinalou E. Bromberg.
Cummings não entendeu o que viu (como poderia?). Mas talvez tenha captado, intuitivamente, o vazio e a decadência do apartamento da Travessa Guêndrikov, depois da morte de Maiakóvski e a ascensão de Stálin. A certa altura, entra num apartamento um herói de guerra, e pouco depois, um oficial da polícia política; a GPU. E Cummings mostra-se perplexo porque o “herói”, depois de fazer as honras da casa, servindo vinhos, desaparece com Madame Putifar, enquanto a sós com o poeta, le mari tenta doutrina-lo e convence-lo da legitimidade da Ditadura stalinista. Pelo livro dos Charters, fica-se sabendo que Lília, um ano após a morte de Maiakóvski, se tornara amante de um herói de guerra civil, o general Vitáli Markóvitch Primákov. Foi certamente com ele que Cummings se deparou no apartamento dos Brik. Segundo a biografia, Lília viveu com Primákov em Leningrado por diversos anos. Manteve-se a fórmula Tchernichésvki: no apartamento deles, havia um quarto para Óssip e sua secretária. Em 1935 foi Primákov quem levou a carta de Lília para Stálin. Vítima de um dos expurgos do ditador, Primákov foi preso e fuzilado com outros generais em 1937. Lília foi poupada. “Mulher de Maiakóvski”, anotou Stálin riscando sue nome da lista de “suspeitos”. Algum tempo depois, ela se unia a V.Katanián, amigo dos Maiakóvski e dos Brik.Viveram juntos por 40 anos, ambos dedicados ao estudo e à divulgação da obra do poeta.
Mas voltemos dos toques e tintas da biografia para a poesia, o mais importante. Caberia indagar, a essa altura, reconhecido o seu inquestionável vigor, como ela chega até nós, cinqüenta anos após a morte de Maiakóvski.
Parece-me evidente, hoje, que a parte que mais envelheceu, dessa poesia, são os versos políticos de tom apologético. Maiakóvski não desce a Neruda. Não chegou a entoar litanias a Stálin. Mas o civismo programado dos poemas de “encargo social” é tão menos tolerável, quanto mais decepcionante se mostrou a utopia soviética. O que salvou a poesia de Maiakóvski do aniquilamento pelo discurso político foi a rebeldia selvagem do seu talento. Para o amor e para o humor.
Do “Hino ao Juiz”, da primeira fase, ao derradeiro “A plenos pulmões”, o seu sarcasmo não poupa os conservadores, os acadêmicos, os burgueses. E é possível vislumbrar quase sempre, nas frestas do civismo revolucionário, a garra incivil do poeta não-conformista.

Contra as Burocracias

Extraordinariamente viva continua a ser a poesia amorosa de Maiakóvski, da “Nuvem de calças” aos fragmentos finais, passando por “Flauta vértebra”, “Lilitchka!”, “Disto”, “Carta a Tatiana”. Nestes textos, o amor é dissecado com palavras que, sem nada perder da violência explosiva da paixão, conservam “a precisão das fórmulas matemáticas”; aqui, mais uma vez se patenteia a rebeldia individual do poeta contra as burocracias da sociedade ou dos sentimentos.
A poesia experimental de Maiakóvski, dos anos heróicos ao cubo-futurismo, escondida tanto tempo pelos tradutores, é uma grata surpresa. Ela ombreia com a de Khliébnikov nas soluções inovadoras, de que constituem exemplo os palíndromos silábicos e os cortes abruptos do poema “De rua em rua” (1913). Justaposições vocabulares, equivalentes às montagens eisensteinianas, rimas e sonoridades incomuns, mostram o poeta como um hábil designer da linguagem. Esse experimentalismo não deixa de introjetar na poesia de todas as fases de Maiakóvski, ao nível micro-estrutural. Num poema de 1929 (“Carta de Paris ao camarada Kóstrov sobre a essência do amor”), encontramos linhas como essa: iz zieva / do zvizozd / vziváiestcia slovo (“da garganta / às estrelas / revoluteia a palavra”). Mesmo e transcrição pode-se observar a elaboração fônica, aliada à técnica de montagem (garganta/estrelas/palavra), a que acresce, na dimensão visual, a espacialização gráfica, que iconiza as “estrelas”.

Um rebelde profeta

Mas é de se perguntar se a poesia de Maiakóvski, ao se estabilizar na disposição gráfica “em escada” e no discurso articulado, em função de sua projeção oral não acusará um retrocesso da linguagem poética. Entendo que a cristalização do verso maiakóvskiano em moldes sintáticos mais convencionais, próximos do discurso prosaico e coloquial, é uma opção válida das poéticas modernas; a do poeta crítico, que usa do aparato imagético-mnemônico da poesia (ritmos, rimas, assonâncias, aliterações, paranomásias) para iluminar a reflexão metalingüística em torno da poesia e da sondagem poética do universo. É o caso de poemas como “Hino ao crítico”, “Conversa com o fiscal de rendas”, “A. Segei Iêssenin”, “Incompreensível para as massas”, “A plenos pulmões”.
À sua maneira, assim atuam Pound (“Os cantos”, “Conversa entre homens inteligentes”), João Cabral (“Anti-ode”, “Psicologia da composição”, “A palo seco”), ou John Cage (“Conferência sobre o nada”, “Conferência da Julliard”, “Diário: como melhorar o mundo – você só tornará as coisas piores”).
Penso, por outro lado,que não se fará total justiça a Maiakóvski enquanto suas obras continuarem a ser publicadas academicamente, como se faz na URSS, em edições minuciosas em termos de variantes e notas, mas distantes e até mesmo antagônicas em relação aos projetos gráficos originais. Seria imprescindível republicar, entre outras, as edições de 1923 de “Pro eto” (“Disto”), com todas as fotomontagens de Rodchenko e o espantoso close de Lília na capa; e “Dliá Gólossa” (“Para voz”), a criação intersemiótica de Lissitski-Maiakóvski (deste último livro, editado em Berlim, consta que houve uma reimpressão alemã em 1973). Até que isso ocorra, temos que nos contentar com um Maiakóvski parcial, muito mais literário e comedido do que era o poeta, um rebelde profeta dos intermedia artísticos.
Exemplo das virtualidades interdisciplinares do trabalho de Maiakóvski é o poema “A extraordinária aventura vivida por Vladimir Maiakóvski no verão na datcha” (1920), em que ele descreve um fantástico encontro com o sol. Esse encontro gerou pelo menos duas notáveis extensões plástico-visuais. Uma, a tradução gráfica de Lissitski, para em “Para Voz”. Outra, “A porta do sol” (1923), de Robert Delaunay e Maiakóvski: uma das portas internas do apartamento de Delaunay, em Paris, foi dividida em quatro retângulos coloridos, contendo um grande círculo central, no qual Maiakóvski escreveu a primeira e as sete últimas linhas do texto, convertido num gigantesco caligrama do sol.
Há um registro fonográfico deste poema, lido pelo próprio Maiakóvski, em 1920. Tenho-o num disco made in URSS, adquirido em Nova York. A leitura, entre conversacional e declamatória, faz pressentir, sob o apagado da antiga gravação, uma voz poderosa. Não me esqueço do comovente final, onde a palavra SVIETIT (brilhar) aflora em sucessivas explosões, com o brilho do sol que vara os tempos. Gostaria de terminar essas evocações Maiakóvskianas com uma versão das últimas linhas do poema, na qual associei as vozes dos poetas-cantores de agora (Caetano Veloso, Roberto Carlos) à voz do grande poeta russo, coma irreverência que a sua obra autoriza. Eis o recado que o poeta e o sol, luzindo “no lixo cinza do universo”, têm para nós, “camaradas futuros”.

BRILHAR PARA SEMPRE
BRILHAR COMO UM FAROL
BRILHAR COM BRILHO ETERNO
GENTE É PRA BRILHAR
QUE TUDO MAIS VÁ PRO INFERNO
ESTE É O MEUS SLOGAN
E O DO SOL

_________________ [publicado em 25.08.2009]

+ sobre o camarada Maiakóvski e Lilia Brik ler aqui.

_________________ [editado em 29.11.2011]

os textos foram extraídos em 25 agosto 2009, data de publicação destes post/pesquisa, respectivamente, destes sítios: http://www.apropucsp.org.br/revista/rcc01_r10.htm (texto de boris) e http://www.unirio.br/opercevejoonline/1/dossies/1/dossie1.htm (texto de augusto) .

atualmente, ambos, indisponível, como vocês podem ver em http://www.apropucsp.org.br/revistas/revista-cultura-critica e http://www2.unirio.br/unirio/cla/ppgcla/ppgac/o-percevejo-online.

A revista Cultura Crítica é uma publicação semestral editada pela Apropuc, com tiragem de 2 mil exemplares.

O Dossiê temático, periódico científico e artístico O Percevejo, é uma publicação semestral, inicialmente impresso, 13 números, agora online, do antigo Programa de pós-graduação em teatro, PPGT, hoje PPGAC (Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas), da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO.

+ sobre volodia aqui, aqui, aqui e aqui.

_______________ [editado em 06.09.2013]
e constato que esta é a postagem mais acessada neste blogue. aproveito então para compartilhar outros cantos deste sítio que contemplam maiakóvski – clique na tag: maiakóvski (влади́мир влади́мирович mаяко́вский) . E quem compartilhar e/ou curtir quiser deixar um recado… seria bem bacana. ‘té.
_______________ [editado em 21.10.2014]

El Lissitsky & Maiakovsky – no máquina de escrever.

CRI_62260

e mais duas referências

#mayakovsky1

#mayakovsky2

«A arte não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para forjá-lo» Vladimir Maiakovsky

_______________ [editado em 29.09.2017]

El Lissitzky & Vladimir Mayakovsky – Dlya Golosa (маяковский для голоса – For the Voice – Para Voz) by  (Berlin: Gosizdat, 1923)el2 (1)

_______________ [editado em 20.11.2018]

*****

Владимир Маяковский. Хорошо (фрагмент)

1

Время —
вещь
необычайно длинная, —
были времена —
прошли былинные.
Ни былин,
ни эпосов,
ни эпопей.
Телеграммой
лети,
строфа!
Воспалённой губой
припади
и попей
из реки
по имени — «Факт».
Это время гудит
телеграфной струной,
это
сердце
с правдой вдвоём.
Это было
с бойцами,
или страной,
или
в сердце
было
в моём.
Я хочу,
чтобы, с этою
книгой побыв,
из квартирного
мирка
шёл опять
на плечах
пулемётной пальбы,
как штыком,
строкой
просверкав.
Чтоб из книги,
через радость глаз,
от свидетеля
счастливого, —
в мускулы
усталые
лилась
строящая
и бунтующая сила.
Этот день
воспевать
никого не наймём.
Мы
распнём
карандаш на листе,
чтобы шелест страниц,
как шелест знамён,
надо лбами
годов
шелестел.

2

«Кончайте войну!
Довольно!
Будет!
В этом
голодном году —
невмоготу.
Врали:
«народа —
свобода,
вперёд,
эпоха, заря…» —
и зря.
Где
земля,
и где
закон,
чтобы землю
выдать
к лету? —
Нету!
Что же
дают
за февраль,
за работу,
за то,
что с фронтов
не бежишь? —
Шиш.
На шее
кучей
Гучковы,
черти,
министры,
Родзянки…
Мать их за́ ноги!
Власть
к богатым
рыло
воротит —
чего
подчиняться
ей?!.
Бей!!»
То громом,
то шёпотом
этот ропот
сползал
из Керенской
тюрьмы-решета.
в деревни
шёл
по травам и тропам,
в заводах
сталью зубов скрежетал.
Чужие
партии
бросали швырком.
— На что им
сбор
болтунов дался́?! —
И отдавали
большевикам
гроши,
и силы,
и голоса.
До са́мой
мужичьей
земляной башки
докатывалась слава, —
лила́сь
и слы́ла,
что есть
за мужиков
какие-то
«большаки»
— у-у-у!
Сила! —

3

Царям
дворец
построил Растрелли.
Цари рождались,
жили,
старели.
Дворец
не думал
о вертлявом постреле,
не гадал,
что в кровати,
царицам вверенной,
раскинется
какой-то
присяжный поверенный.
От орлов,
от власти,
одеял и кру́жевца
голова
присяжного поверенного
кружится.
Забывши
и классы
и партии,
идёт
на дежурную речь.
Глаза
у него
бонапартьи
и цвета
защитного
френч.
Слова и слова.
Огнесловая лава.
Болтает
сорокой радостной.
Он сам
опьянён
своею славой
пьяней,
чем сорокаградусной.
Слушайте,
пока не устанете,
как щебечет
иной адъютантик:
«Такие случаи были —
он едет
в автомобиле.
Узнавши,
кто
и который, —
толпа
распрягла моторы!
Взамен
лошадиной силы
сама
на руках носила!»
В аплодисментном
плеске
премьер
проплывет
над Невским.
и дамы,
и дети-пузанчики
кидают
цветы и роза́нчики.
Если ж
с безработы
загрустится,
сам
себя
уверенно и быстро
назначает —
то военным,
то юстиции,
то каким-нибудь
еще
министром.
И вновь
возвращается,
сказанув,
ворочать дела
и вертеть казну.
Подмахивает подписи
достойно
и старательно.
«Аграрные?
Беспорядки?
Ряд?
Пошлите,
этот,
как его, —
карательный
отряд!
Ленин?
Большевики?
Арестуйте и выловите!
Что?
Не дают?
Не слышу без очков.
Кстати…
об его превосходительстве…
Корнилове…
Нельзя ли
сговориться
сюда
казачков?!
Их величество?
Знаю.
Ну да!..
И руку жал.
Какая ерунда!
Императора?
На воду?
И черную корку?
При чём тут Совет?
Приказываю
туда,
в Лондон,
к королю Георгу».
Пришит к истории,
пронумерован
и скре́плен,
и его
рисуют —
и Бродский и Репин.

4

Петербургские окна.
Синё и темно.
Город
сном
и покоем скован.
НО
не спит
мадам Кускова.
Любовь
и страсть вернулись к старушке.
Кровать
и мечты
розоватит восток.
Её
воло́с
пожелтелые стружки
причудливо
склеил
слезливый восторг.
С чего это
девушка
сохнет и вянет?
Молчит…
но чувство,
видать, велико́.
Её
утешает
усатая няня,
видавшая виды, —
Пе Эн Милюков.
«Не спится, няня…
Здесь так душно…
Открой окно
да сядь ко мне».
— Кускова,
что с тобой? —
«Мне скушно…
Поговорим о старине».
— О чём, Кускова?
Я,
бывало,
хранила
в памяти
немало
старинных былей,
небылиц —
и про царей
и про цариц.
И я б,
с моим умишком хилым, —
короновала б
Михаила.
чем брать
династию
чужую…
Да ты
не слушаешь меня?! —
«Ах, няня, няня,
я тоскую.
Мне тошно, милая моя.
Я плакать,
я рыдать готова…»
— Господь помилуй
и спаси…
Чего ты хочешь?
Попроси.
Чтобы тебе
на нас
не дуться,
дадим свобод
и конституций…
Дай
окроплю
речей водою
горящий бунт… —
«Я не больна.
Я…
знаешь, няня…
влюблена…»
— Дитя мое,
господь с тобою! —
И Милюков
её
с мольбой
крестил
профессорской рукой.
— Оставь, Кускова,
в наши лета
любить
задаром
смысла нету. —
«Я влюблена». —
шептала
снова
в ушко
профессору
она.
— Сердечный друг,
ты нездорова. —
«Оставь меня,
я влюблена».
— Кускова,
нервы, —
полечись ты… —
«Ах няня,
он такой речистый…
Ах, няня-няня!
няня!
Ах!
Его же ж
носят на руках
А как поет он
про свободу…
Я с ним хочу, —
не с ним,
так в воду».
Старушка
тычется в подушку,
и только слышно:
«Саша! —
Душка!»
Смахнувши
слёзы
рукавом,
взревел усатый нянь:
— В кого?
Да говори ты нараспашку! —
«В Керенского…»
— В какого?
В Сашку? —
И от признания
такого
лицо
расплы́лось
Милюкова.
От счастия
профессор о́жил:
— Ну, это что ж —
одно и то же!
При Николае
и при Саше
мы
сохраним доходы наши. —
Быть может,
на брегах Невы
подобных
дам
видали вы?

5

Звякая
шпорами
довоенной выковки,
аксельбантами
увешанные до пупов,
говорили —
адъютант
(в «Селекте» на Лиговке)
и штабс-капитан
Попов.
«Господин адъютант,
не возражайте,
не дам, —
скажите,
чего ещё
поджидаем мы?
Россию
жиды
продают жидам,
и кадровое
офицерство
уже под жидами!
Вы, конешно,
профессор,
либерал,
но казачество,
пожалуйста,
оставьте в покое.
Например,
моё положенье беря,
это…
чёрт его знает, что это такое!
Сегодня с денщиком:
ору ему
— эй,
наваксь
щиблетину,
чтоб видеть рыло в ней! —
И конешно —
к матушке,
а он меня
 к моей,
к матушке,
к свет
к Елизавете Кирилловне!»
«Нет,
я не за монархию
с коронами,
с орлами,
НО
для социализма
нужен базис.
Сначала демократия,
потом
парламент.
Культура нужна.
А мы —
Азия-с!
Я даже —
социалист.
Но не граблю,
не жгу.
Разве можно сразу?
Конешно, нет!
Постепенно,
понемногу,
по вершочку,
по шажку,
сегодня,
завтра,
через двадцать лет.
А эти?
От Вильгельма кресты да ленты.
В Берлине
выходили
с билетом перронным.
Деньги
штаба —
шпионы и аге́нты.
В Кресты бы
тех,
кто ездит в пломбиро́ванном!»
«С этим согласен,
это конешно,
этой сволочи
мало повешено».
«Ленина,
который
смуту сеет,
председателем,
што ли,
совета министров?
Что ты?!
Рехнулась, старушка Рассея?
Касторки прими!
Поправьсь!
Выздоровь!
Офицерам —
Суворова,
Голенищева-Кутузова
благодаря
политикам ловким
быть
под началом
Бронштейна бескартузого,
какого-то
бесштанного
Лёвки?!
Дудки!
С казачеством
шутки плохи́ —
повыпускаем
им
потроха…»
И все адъютант
— ха да хи —
Попов
— хи да ха. —
«Будьте дважды прокляты
и трижды поколейте!
Господин адъютант,
позвольте ухо:
их
…ревосходительство
…ерал Каледин,
с Дону,
с плёточкой,
извольте понюхать!
Его превосходительство…
Да разве он один?!
Казачество кубанское,
Днепр,
Дон…»
И все стаканами —
дон и динь,
и шпорами —
динь и дон.
Капитан
упился, как сова.
Челядь
чайники
бесшумно подавала.
А в конце у Лиговки
другие слова
подымались
из подвалов.
«Я,
товарищи, —
из военной бюры.
Кончили заседание —
то́ка-то́ка.
Вот тебе,
к маузеру,
двести бери,
а это —
сто патронов
к винтовкам.
Пока соглашатели
замазывали рты,
подходит
казатчина
и самокатчина.
Приказано
питерцам
идти на фронты,
а сюда
направляют
с Гатчины.
Вам,
которые
с Выборгской стороны,
вам
заходить
с моста Литейного.
В сумерках,
тоньше
дискантовой струны,
не галдеть
и не делать
заведенья питейного.
Я
за Лашевичем
беру телефон, —
не задушим,
так нас задушат.
Или
возьму телефон,
или вон
из тела
пролетарскую душу.
Сам
 приехал,
 в пальтишке рваном, —
ходит,
никем не опознан.
Сегодня,
говорит,
подыматься рано.
А послезавтра —
поздно.
Завтра, значит.
Ну, не сдобровать им!
Быть
Кере́нскому
биту и ободрану!
Уж мы
подымем
с царёвой кровати
эту
самую
Александру Фёдоровну».

6

Дул,
как всегда,
октябрь
ветра́ми
как дуют
при капитализме.
За Троицкий
дули
авто и трамы,
обычные
рельсы
вызмеив.
Под мостом
Нева-река,
по Неве
плывут кронштадтцы…
От винтовок говорка
скоро
Зимнему шататься.
В бешеном автомобиле,
покрышки сбивши,
тихий,
вроде
упакованной трубы,
за Гатчину,
забившись,
улепетывал бывший —
«В рог,
в бараний!
Взбунтовавшиеся рабы!..»
Видят
редких звёзд глаза,
окружая
Зимний
в кольца,
по Мильонной
из казарм
надвигаются кексгольмцы.
А в Смольном,
в думах
о битве и войске,
Ильич
гримированный
мечет шажки,
да перед картой
Антонов с Подвойским
втыкают
в места атак
флажки.
Лучше
власть
добром оставь,
никуда
тебе
не деться!
Ото всех
идут
застав
к Зимнему
красногвардейцы.
Отряды рабочих,
матросов,
голи —
дошли,
штыком домерцав,
как будто
руки
сошлись на горле,
холёном
горле
дворца.
Две тени встало.
Огромных и шатких.
Сдвинулись.
Лоб о лоб.
И двор
дворцовый
руками решетки
стиснул
торс
толп.
Качались
две
огромных тени
от ветра
и пуль скоростей, —
да пулеметы,
будто
хрустенье
ломаемых костей.
Серчают стоящие павловцы.
«В политику…
начали…
ба́ловаться…
Куда
против нас
бочкаревским дурам?!
Приказывали б
на штурм».
Но тень
боролась,
спутав лапы, —
и лап
никто
не разнимал и не рвал.
Не выдержав
молчания,
сдавался слабый —
уходил
от испуга,
от нерва́.
Первым,
боязнью одолён,
снялся
бабий батальон.
Ушли с батарей
к одиннадцати
михайловцы или константиновцы…
А Ке́ренский —
спрятался,
попробуй
вымань его!
Задумывалась
казачья башка.
И
редели
защитники Зимнего,
как зубья
у гребешка.
И долго
длилось
это молчанье,
молчанье надежд
и молчанье отчаянья.
А в Зимнем,
в мягких мебеля́х
с бронзовыми вы́крутами,
сидят
министры
в меди блях,
и пахнет
гладко выбритыми.
На них не глядят
и их не слушают —
они
у штыков в лесу.
Они
упадут
переспевшей грушею,
как только
их
потрясут.
Голос — редок.
Шёпотом,
знаками.
— Ке́ренский где-то? —
— Он?
За казаками. —
И снова молча
И только
по́д вечер:
— Где Прокопович? —
— Нет Прокоповича. —
А из-за Николаевского
чугунного моста́,
как смерть,
глядит
неласковая
Авроровых
башен
сталь.
И вот
высоко
над воротником
поднялось
лицо Коновалова.
Шум,
который
тёк родником,
теперь
прибоем наваливал.
Кто длинный такой?..
Дотянуться смог!
По каждому
из стёкол
удары палки.
Это —
из трёхдюймовок
шарахнули
форты Петропавловки.
А поверху
город
как будто взорван:
бабахнула
шестидюймовка Авророва.
И вот
ещё
не успела она
рассыпаться,
гулка и грозна, —
над Петропавловской
взви́лся
фонарь,
восстанья
условный знак.
— Долой!
На приступ!
Вперёд!
На приступ! —
Ворвались.
На ковры!
Под раззолоченный кров!
Каждой лестницы
каждый выступ
брали,
перешагивая
через юнкеров.
Как будто
водою
комнаты по́лня,
текли,
сливались
над каждой потерей,
и схватки
вспыхивали
жарче полдня
за каждым диваном,
у каждой портьеры.
По этой
анфиладе,
приветствиями о́ранной
монархам,
несущим
короны-клады, —
бархатными залами,
раскатистыми коридорами
гремели,
бились
сапоги и приклады.
Какой-то
смущённый
сукин сын,
а над ним
путиловец —
нежней папаши:
«Ты,
парнишка,
выкладывай
ворованные часы —
часы теперича наши!»
Топот рос
и тех
тринадцать
сгрёб,
забил,
зашиб,
затыркал.
Забились
под галстук —
за что им приняться? —
Как будто
топор
навис над затылком.
За двести шагов…
за тридцать…
за двадцать…
Вбегает
юнкер:
«Драться глупо!»
Тринадцать визгов:
— Сдаваться!
Сдаваться! —
А в двери —
бушлаты,
шинели,
тулупы…
И в эту
тишину
раскатившийся всласть
бас,
окрепший
над реями рея:
«Которые тут временные?
Слазь!
Кончилось ваше время».
И один
из ворвавшихся,
пенснишки тронув,
объявил,
как об чем-то простом
и несложном:
«Я,
председатель реввоенкомитета
Антонов,
Временное
правительство
объявляю низложенным».
А в Смольном
толпа,
растопырив груди,
покрывала
песней
фе́йерверк сведений.
Впервые
вместо:
— и это будет… —
пели:
— и это есть
наш последний… —
До рассвета
осталось
не больше аршина, —
руки
лучей
с востока взмо́лены.
Товарищ Подвойский
сел в машину,
сказал устало:
«Кончено…
в Смольный».
Умолк пулемет.
Угодил толко́в.
Умолкнул
пуль
звенящий улей.
Горели,
как звёзды,
грани штыков,
бледнели
звёзды небес
в карауле.
Дул,
как всегда,
октябрь ветра́ми.
Рельсы
по мосту вызмеив,
гонку
свою
продолжали трамы
уже —
при социализме.

7

В такие ночи,
в такие дни,
в часы
такой поры
на улицах
разве что
одни
поэты
и воры́.
Сумрак
на мир
океан катну́л.
Синь.
Над кострами —
бур.
Подводной
лодкой
пошёл ко дну
взорванный
Петербург.
И лишь
когда
от горящих вихров
шатался
сумрак бурый,
опять вспоминалось:
с боков
и с верхов
непрерывная буря.
На воду
сумрак
похож и так —
бездонна
синяя прорва.
А тут
ещё
и виденьем кита
туша
Авророва.
Огонь
пулемётный
площадь остриг.
Набережные —
пусты́.
И лишь
хорохорятся
костры
в сумерках
густых.
И здесь,
где земля
от жары вязка́,
с испугу
или со льда́,
ладони
держа
у огня в языках,
греется
солдат.
Солдату
упал
огонь на глаза,
на клок
волос
лёг.
Я узнал,
удивился,
сказал:
«Здравствуйте,
Александр Блок.
Лафа футуристам,
фрак старья
разлазится
каждым швом».
Блок посмотрел —
костры горят —
«Очень хорошо».
Кругом
тонула
Россия Блока…
Незнакомки,
дымки севера
шли
на дно,
как идут
обломки
и жестянки
консервов.
И сразу
лицо
скупее менял,
мрачнее,
чем смерть на свадьбе:
«Пишут…
из деревни…
сожгли…
у меня…
библиоте́ку в усадьбе».
Уставился Блок —
и Блокова тень
глазеет,
на стенке привстав…
Как будто
оба
ждут по воде
шагающего Христа.
Но Блоку
Христос
являться не стал.
У Блока
тоска у глаз.
Живые,
с песней
вместо Христа,
люди
из-за угла.
Вставайте!
Вставайте!
Вставайте!
Работники
и батраки.
Зажмите,
косарь и кователь,
винтовку
в железо руки!
Вверх —
флаг!
Рвань —
встань!
Враг —
ляг!
День —
дрянь!
За хлебом!
За миром!
За волей!
Бери
у буржуев
завод!
Бери
у помещика поле!
Братайся,
дерущийся взвод!
Сгинь —
стар.
В пух,
в прах.
Бей —
бар!
Трах!
тах!
Довольно,
довольно,
довольно
покорность
нести
на горбах.
Дрожи,
капиталова дворня!
Тряситесь,
короны,
на лбах!
Жир
ёжь
страх
плах!
Трах!
тах!
Тах!
тах!

Эта песня,
перепетая по-своему,
доходила
до глухих крестьян —
и вставали сёла,
содрогая воем,
по дороге
топоры крестя.
Но-
жи-
чком
на
месте чик
лю-
то-
го
по-
мещика.
Гос-
по-
дин
по-
мещичек,
со-
би-
райте
вещи-ка!
До-
шло
до поры,
вы-
хо-
ди,
босы,
вос-
три
топоры,
подымай косы.
Чем
хуже
моя Нина?!
Ба-
рыни сами.
Тащь
в хату
пианино,
граммофон с часами!
Под-
хо-
ди-
те, орлы!
Будя —
пограбили.
Встречай в колы,
провожай
в грабли!
Дело
Стеньки
с Пугачёвым,
разгорайся жарче-ка!
Все
поместья
богачёвы
разметём пожарчиком.
Под-
пусть
петуха!
Подымай вилы!
Эх,
не
потухай, —
пет-
тух милый!
Чёрт
ему
теперь
родня!
Головы —
кочаном.
Пулемётов трескотня
сыпется с тачанок.
«Эх, яблочко,
цвета ясного.
Бей
справа
белаво,
слева краснова».

Этот вихрь,
от мысли до курка,
и постройку,
и пожара дым
прибирала
партия
к рукам,
направляла,
строила в ряды.

8

Холод большой.
Зима здорова́.
Но блузы
прилипли к потненьким.
Под блузой коммунисты.
Грузят дрова.
На трудовом субботнике.
Мы не уйдём,
хотя
уйти
имеем
все права.
В наши вагоны,
 на нашем пути,
наши
 грузим
 дрова.
Можно
уйти
часа в два, —
но мы —
 уйдём поздно.
Нашим товарищам
 наши дрова
нужны:
товарищи мёрзнут.
Работа трудна,
работа
томит.
За неё
никаких копеек.
Но мы
 работаем,
 будто мы
делаем
величайшую эпопею.
Мы будем работать,
всё стерпя,
чтоб жизнь,
колёса дней торопя,
бежала
в железном марше
в наших вагонах,
 по нашим степям,
в города
промёрзшие
наши.
«Дяденька,
что вы делаете тут?
столько
больших дядей?»
— Что?
Социализм:
свободный труд
свободно
собравшихся людей.

9

Перед нашею
республикой
стоят богатые.
Но как постичь её?
И вопросам
разнедоумённым
не́т числа:
что это
за нация такая
«социалистичья»,
и что это за
«соци-
алистическое отечество»?
«Мы
восторги ваши
понять бессильны.
Чем восторгаются?
Про что поют?
Какие такие
фрукты-апельсины
растут
в большевицком вашем
раю?
Что вы знали,
кроме хлеба и воды, —
с трудом
перебиваясь
со дня на день?
Такого отечества
 такой дым
разве уж
настолько приятен?
За что вы
идёте,
если велят —
«воюй»?
Можно
быть
разорванным бо́мбищей,
можно
умереть
за землю за свою,
но как
умирать
за общую?
Приятно
русскому
с русским обняться, —
но у вас
и имя
«Россия»
 утеряно.
Что это за
отечество
у забывших об нации?
Какая нация у вас?
Коминтерина?
Жена,
да квартира,
да счёт текущий —
вот это —
отечество,
райские кущи.
Ради бы
вот
такого отечества
мы понимали б
и смерть
и молодечество».

Слушайте,
национальный трутень, —
день наш
тем и хорош, что труден.
Эта песня
песней будет
наших бед,
побед,
буден.

10

Политика —
проста.
Как воды глоток.
Понимают
ощерившие
сытую пасть,
что если
в Россиях
увязнет коготок,
всей
буржуазной птичке —
пропа́сть.
Из «сюртэ́ женера́ль»,
из «инте́ллидженс се́рвис»,
«дефензивы»
и «сигуранцы»
выходит
разная
сволочь и стерва,
шьёт
шинели
цвета серого,
бомбы
кладёт
в ранцы.
Набились в трюмы,
палубы обсели,
на деньги
вербовочного а́гентства.
В Новороссийск
плывут из Марселя,
из Дувра
плывут к Архангельску.
С песней,
с виски,
сыты по-свински.
Килями
вскопаны
воды холодные.
Смотрят
перископами
лодки подводные.
Плывут крейсера,
снаряды соря.
И
миноносцы
с минами носятся.
А
поверх
всех
с пушками
чудовищной длинноты
сверх-
дредноуты.
Разными
газами
воняя гадко,
тучи
пропеллерами выдрав,
с авиаматки
на авиаматку
пе-
ре-
пархивают «гидро».
Послал
капитал
капитанов учёных.
Горло
нащупали
и стискивают.
Ткнёшься
в Белое,
ткнёшься
в Чёрное,
в Каспийское,
в Балтийское, —
куда
корабль
ни тычется,
конец
катаниям.
Стоит
морей владычица,
бульдожья
Британия.
Со всех концов
блокады кольцо
и пушки
смотрят в лицо.
— Красным не нравится?!
Им
голодно́?!
Рыбкой
наедитесь,
пойдя
на дно. —
А кому
на суше
грабить охота,
те
с кораблей
сходили пехотой.
— На море потопим,
на суше
потопаем. —
Чужими
руками
жар гребя,
дым
отечества
пускают
пострелины —
выставляют
впереди
одураченных
ребят,
баронов
и князей недорасстрелянных.

Могилы копайте,
гроба копи́те —
Юденича
рати
прут
на Питер.
В обозах
е́ды вку́снятся,
консервы —
пуд.
Танков
гусеницы
на Питер
прут.
От севера
идёт
адмирал Колчак,
сибирский
хлеб
сапогом толча.
Рабочим на расстрел,
поповнам на утехи,
с ним идут
голубые чехи.
Траншеи,
машинами выбранные,
сапёрами
Крым перекопан, —
Врангель
крупнокалиберными
орудует
с Перекопа.
Любят
полковников
сентиментальные леди.
Полковники
любят
поговорить на обеде.
— Я
иду, мол
(прихлёбывает виски),
а на меня
десяток
чудовищ
большевицких.
Раз — одного,
другого —
ррраз, —
кстати,
как денди,
и девушку спас. —
Леди,
спросите
у мерина сивого —
он
как Мурманск
разизнасиловал.
Спросите,
как —
Двина-река,
кровью
крашенная,
трупы
вы́тая,
с кладью
страшною
шла
в Ледовитый.
Как храбрецы
расстреливали кучей
коммуниста
одного,
да и тот скручен.
Как офицера́
его величества
бежали
от выстрелов,
берег вычистя.
Как над серыми
хатами
огненные перья
и руки
холёные
туго
у горл.
Но…
«итс э лонг уэй
ту Типерери,
итс э лонг уэй
ту го!»
На первую
республику
рабочих и крестьян,
сверкая
выстрелами,
штыками блестя,
гнали
армии,
флоты катили
богатые мира,
и эти
и те…
Будьте вы прокляты,
прогнившие
королевства и демократии,
со своими
подмоченными
«фратэрнитэ́» и «эгалитэ́»!
Свинцовый
льётся
на нас
кипяток.
Одни мы —
и спрятаться негде.
«Янки
дудль
кип ит об,
Янки дудль денди».
Посреди
винтовок
и орудий голосища
Москва —
островком,
и мы на островке.
Мы —
голодные,
мы —
нищие,
с Лениным в башке
и с наганом в руке.

11

Несётся
жизнь,
овеевая,
проста,
суха.
Живу
в домах Стахеева я,
теперь
Веэсэнха.
Свезли,
винтовкой звякая,
богатых
и кассы.
Теперь здесь
всякие
и люди
и классы.
Зимой
в печурку-пчёлку
суют
тома шекспирьи.
Зубами
щёлкают, —
картошка —
пир им.
А летом
слушают асфальт
с копейками
в окне:
— Трансваль,
Трансваль,
страна моя,
ты вся
горишь
в огне! —
Я в этом
каменном
котле
варюсь,
и эта жизнь —
и бег, и бой,
и сон,
и тлен —
в домовьи
этажи
отражена
от пят
до лба,
грозою
омываемая,
как отражается
толпа
идущими
трамваями.
В пальбу
присев
на корточки,
в покой
глазами к форточке,
чтоб было
видней,
я
в комнатёнке-лодочке
проплыл
три тыщи дней.

12

Ходят
спекулянты
вокруг Главтопа.
Обнимут,
зацелуют,
убьют за руп.
Секретарши
ответственные
валенками топают.
За хлебными
карточками
стоят лесорубы.
Много
дела,
мало
горя им,
фунт
— целый! —
первой категории.
Рубят,
липовый
чай
выкушав.
— Мы
не Филипповы,
мы —
привыкши.
Будет обед,
будет
ужин, —
белых бы
вон
отбить от ворот.
Есть захотелось,
пояс —
потуже,
в руки винтовку
и
на фронт. —
А
мимо —
незаменимый.
Стуча
сапогом,
идёт за пайком —
Правление
выдало
урюк
и повидло.
Богатые —
ловче,
едят
у Зунделовича.
Ни щей,
ни каш —
бифштекс
с бульоном,
хлеб
ваш,
полтора миллиона.
Учёному
хуже:
фосфор
нужен,
масло
на блюдце.
Но,
как на́зло,
есть революция,
а нету
масла.
Они
научные.
Напишут,
вылечат.
Мандат, собственноручный,
Анатоль Васильича.
Где
хлеб
да мяса́,
придут
на час к вам.
Читает
комиссар
мандат Луначарского:
«Так…
сахар…
так…
жирок вам.
Дров…
берёзовых…
посуше поленья…
и шубу
широкого
потребленья.
Я вас,
товарищ,
спрашиваю в упор.
Хотите —
берите
головной убор.
Приходит
каждый
с разной блажью.
Берите
пока што
ногу
лошажью!»
Мех
на глаза,
как баба-яга,
идут
назад
на трёх ногах.

13

Двенадцать
квадратных аршин жилья.
Четверо
в помещении —
Лиля,
Ося,
я
и собака
Щеник.
Шапчонку
взял
оборванную
и вытащил салазки.
— Куда идёшь? —
В уборную
иду.
На Ярославский.
Как парус,
шуба
на весу,
воняет
козлом она.
В санях
полено везу,
забрал
забор разломанный
Полено —
тушею,
твёрже камня.
Как будто
вспухшее
колено
великанье.
Вхожу
с бревном в обнимку.
Запотел,
вымок.
Важно
и чинно
строгаю
перочинным.
Нож —
ржа.
Режу.
Радуюсь.
В голове
жар
подымает градус.
Зацветают луга,
май
поёт
в уши —
это
тянется угар
из-под чёрных вьюшек.
Четверо сосулек
свернулись,
уснули.
Приходят
люди,
ходят,
будят.
Добудились еле —
с углей
угорели.
В окно —
сугроб.
Глядит горбат.
Не вымерзли покамест?
Морозы
в ночь
идут, скрипят
снегами-сапогами.
Небосвод,
наклонившийся
на комнату мою,
морем
заката
обли́т.
По розовой
глади
мо́ря,
на юг —
тучи-корабли.
За гладь,
за розовую,
бросать якоря,
туда,
где берёзовые
дрова
горят.
Я
много
в теплых странах плутал.
Но только
в этой зиме
понятной
стала
мне
теплота
любовей,
дружб
и семей.
Лишь лёжа
в такую вот гололедь,
зубами
вместе
проляскав —
поймёшь:
нельзя
на людей жалеть
ни одеяло,
ни ласку.
Землю,
где воздух,
как сладкий морс,
бросишь
и мчишь, колеся, —
но землю,
с которою
вместе мёрз,
вовек
разлюбить нельзя.

14

Скрыла
та зима,
худа и строга,
всех,
кто на́век
ушел ко сну.
Где уж тут словам!
И в этих
строках
боли
волжской
я не коснусь
Я
дни беру
из ряда дней,
что с тыщей
дней
в родне.
Из серой
полосы
деньки,
их гнали
годы-
водники —
не очень
сытенькие,
не очень
голодненькие.
Если
я
чего написал,
если
чего
сказал —
тому виной
глаза-небеса,
любимой
моей
глаза.
Круглые
да карие,
горячие
до гари.
Телефон
взбесился шалый,
в ухо
грохнул обухом:
карие
глазища
сжала
голода
опухоль.
Врач наболтал —
чтоб глаза
глазели,
нужна
теплота,
нужна
зелень.
Не домой,
не на суп,
а к любимой
в гости
две
морковинки
несу
за зелёный хвостик.
Я
много дарил
конфект да букетов,
но больше
всех
дорогих даров
я помню
морковь драгоценную эту
и пол-
полена
берёзовых дров.
Мокрые,
тощие
под мышкой
дровинки,
чуть
потолще
средней бровинки.
Вспухли щёки.
Глазки —
щёлки.
Зелень
и ласки
вы́ходили глазки.
Больше
блюдца,
смотрят
революцию.
Мне
легше, чем всем, —
я
Маяковский.
Сижу
и ем
кусок
конский.
Скрип —
дверь,
плача.
Сестра
младшая.
— Здравствуй, Володя!
— Здравствуй, Оля!
— Завтра новогодие —
нет ли
соли? —
Делю,
в ладонях вешаю
щепотку
отсыревшую.
Одолевая
снег
и страх,
скользит сестра,
идёт сестра,
бредёт
трёхвёрстной Преснею
солить
картошку пресную.
Рядом
мороз
шёл
и рос.
Затевал
щекотку —
отдай
щепотку.
Пришла,
а соль
не ва́лится —
примёрзла
к пальцам.
За стенкой
шарк:
«Иди,
жена,
продай
пиджак,
купи
пшена».
Окно, —
с него
идут
снега,
мягка
снегов,
тиха
нога.
Бела,
гола
столиц
скала.
Прилип
к скале
лесов
скелет.
И вот
из-за леса
небу в шаль
вползает
солнца
вша.
Декабрьский
рассвет,
измождённый
и поздний,
встаёт
над Москвой
горячкой тифозной.
Ушли
тучи
к странам
тучным.
За тучей
берегом
лежит
Америка.
Лежала,
лакала
кофе,
какао.
В лицо вам,
толще
свиных причуд,
круглей
ресторанных блюд,
из нищей
нашей
земли
кричу:
Я
землю
эту
люблю.
Можно
забыть,
где и когда
пузы растил
и зобы,
но землю,
с которой
вдвоём голодал, —
нельзя
никогда
забыть!

15

Под ухом
самым
лестница
ступенек на двести, —
несут
минуты-вестницы
по лестнице
вести.
Дни пришли
и топали:
— До́жили,
вот вам, —
нету
топлив
брюхам
заводным.
Дымом
небесный
лак помутив,
до самой трубы,
до носа
локомотив
стоит
в заносах.
Положив
на валенки
цветные заплаты,
из ворот,
из железного зёва,
снова
шли,
ухватясь за лопаты,
все,
кто мобилизован.
Вышли
за́ лес,
вместе
взя́лись.
Я ли,
вы ли,
откопали,
вырыли.
И снова
поезд
ка́тит
за снежную
скатерть.
Слабеет
тело
без ед
и питья,
носилки сделали,
руки сплетя.
Теперь
запевай,
и домой можно —
да на руки
положено
пять
обмороженных.

Сегодня
на лестнице,
грязной и тусклой,
копались
обывательские
слухи-свиньи.
Деникин
подходит
к са́мой,
к тульской,
к пороховой
сердцевине.
Обулись обыватели,
по пыли печатают
шепотоголосые
кухарочьи хоры́.
— Будет…
крупичатая!..
пуды непочатые…
ручьи-чаи́,
сухари,
сахары́.
Бли-и-и-зко беленькие,
береги ке́ренки! —
Но город
проснулся,
в плакаты кадрованный, —
это
партия звала:
«Пролетарий, на коня!»
И красные
скачут
на юг
эскадроны —
Мамонтова
нагонять.
Сегодня
день
вбежал второпях,
криком
тишь
порвав,
простреленным
лёгким
часто хрипя,
упал
и кончился,
кровав.
Кровь
по ступенькам
стекала на́ пол,
стыла
с пылью пополам
и снова
на пол
каплями
капала
из-под пули
Каплан.
Четверолапые
зашагали,
визг
шёл
шакалий.
Салоп
говорит
чуйке,
чуйка
салопу:
— Заёрзали
длинноносые щуки!
Скоро
всех
слопают! —
А потом
топырили
глаза-таре́лины
в длинную
фамилий
и званий тропу.
Ветер
сдирает
списки расстрелянных,
рвёт,
закручивает
и пускает в трубу.
Лапа
класса
лежит на хищнике —
Лубянская
лапа
Че-ка.
— Замрите, враги!
Отойдите, лишненькие!
Обыватели!
Смирно!
У очага! —
Миллионный
класс
вставал за Ильича
против
белого
чудовища клыкастого,
и вливалось
в Ленина,
леча,
этой воли
лучшее лекарство.
Хоронились
обыватели
за кухни,
за пелёнки.
— Нас не трогайте —
мы
цыплёнки.
Мы только мошки,
мы ждем кормёжки.
Закройте,
время,
вашу пасть!
Мы обыватели —
нас обувайте вы,
и мы
уже
за вашу власть. —
А утром
небо —
веча зво́нница!
Вчерашний
день
виня во лжи,
расколоколивали
птицы и солнце:
жив,
жив,
жив,
жив!
И снова дни
чередой заводно́й
сбегались
и просили:
— Идём
за нами —
«ещё одно
усилье».
От боя к труду —
от труда до атак, —
в голоде,
в холоде
и наготе
держали
взятое,
да так,
что кровь
выступала из-под ногтей.
Я видел
места,
где инжир с айвой
росли
без труда
у рта моего, —
к таким
относишься и́наче.
Но землю,
которую
завоевал
и полуживую
вынянчил,
где с пулей встань,
с винтовкой ложись,
где каплей
льёшься с массами, —
с такою
землёю
пойдёшь
на жизнь,
на труд,
на праздник
и на́ смерть!

16

Мне
рассказывал
тихий еврей,
Павел Ильич Лавут:
«Только что
вышел я
из дверей,
вижу —
они плывут…»
Бегут
по Севастополю
к дымящим пароходам.
За де́нь
подмёток стопали,
как за́ год похода.
На рейде
транспорты
и транспорточки,
драки,
крики,
ругня,
мотня, —
бегут
добровольцы,
задрав порточки, —
чистая публика
и солдатня.
У кого —
канарейка,
у кого —
роялина,
кто со шкафом,
кто
с утюгом.
Кадеты —
на что уж
люди лояльные —
толкались локтями,
крыли матюгом.
Забыли приличие,
бросили моду,
кто —
без юбки,
а кто —
без носков.
Бьёт
мужчина
даму
в морду,
солдат
полковника
сбивает с мостков.
Наши наседали,
крыли по трапам,
кашей
грузился
военный эшелон.
Хлопнув
дверью,
сухой, как рапорт,
из штаба
опустевшего
вышел он.
Глядя
на́ ноги,
шагом
резким
шел
Врангель
в чёрной черкеске.
Город бросили.
На молу —
го́ло.
Лодка
шестивёсельная
стоит
у мола.
И над белым тленом,
как от пули падающий,
на оба
колена
упал главнокомандующий.
Трижды
землю
поцеловавши,
трижды
город
перекрестил.
Под пули
в лодку прыгнул…
— Ваше
превосходительство,
грести? —
— Грести! —
Убрали весло.
Мотор
заторкал.
Пошла
весело́
к «Алмазу»
моторка.
Пулей
пролетела
штандартная яхта.
А в транспортах-галошинах
далеко,
сзади,
тащились
оторванные
от станка и пахот,
узлов
полтораста
накручивая за́ день.
От родины
в лапы турецкой полиции,
к туркам в дыру,
в Дарданеллы узкие,
плыли
завтрашние галлиполийцы,
плыли
вчерашние русские.
Впе-
реди
година на године.
Каждого
трясись,
который в каске.
Будешь
доить
коров в Аргентине,
будешь
мереть
по ямам африканским.
Чужие
волны
качали транспорты,
флаги
с полумесяцем
бросались в очи,
и с транспортов
за яхтой
гналось —
«Аспиды,
спёрли казну
и удрали, сволочи».
Уже
экипажам
оберегаться
пули
шальной
надо.
Два
миноносца-американца
стояли
на рейде
рядом.
Адмирал
трубой обвёл
стреляющих
гор
край:
— Ол
райт. —
И ушли
в хвосте отступающих свор, —
орудия на город,
курс на Босфор.
В духовках солнца
горы́
жарко́е.
Воздух
цветы рассиропили.
Наши
с песней
идут от Джанкоя,
сыпятся
с Симферополя.
Перебивая
пуль разговор.
знамёнами
бой
овевая,
с красными
вместе
спускается с гор
песня
боевая.
Не гнулась,
когда
пулемётом крошило,
вставала,
бессташная,
в дожде-свинце:
«И с нами
Ворошилов,
первый красный офицер».
Слушают
пушки,
морские ведьмы,
у-
ле-
пётывая
во винты со все,
как сыпется
с гор
— «готовы умереть мы
за Эс Эс Эс Эр!» —
Начштаба
морщит лоб.
Пальцы
корявой руки
буквы
непослушные гнут:
«Врангель
оп-
раки-
нут
в море.
Пленных нет».
Покамест —
точка
и телеграмме
и войне.
Вспомнили —
недопахано,
недожато у кого,
у кого
доменные
топки да зо́ри.
И пошли,
отирая пот рукавом,
расставив
на вышках
дозоры.

17

Хвалить
не заставят
ни долг,
ни стих
всего,
что делаем мы.
Я
пол-отечества мог бы
снести,
а пол —
отстроить, умыв.
Я с теми,
кто вышел
строить
и месть
в сплошной
лихорадке
буден.
Отечество
славлю,
которое есть,
но трижды —
которое будет.
Я
планов наших
люблю громадьё,
размаха
шаги саженьи.
Я радуюсь
маршу,
которым идём
в работу
и в сраженья.
Я вижу —
где сор сегодня гниёт,
где только земля простая —
на сажень вижу,
из-под неё
коммуны
дома
прорастают.
И меркнет
доверье
к природным дарам
с унылым
пудом сенца́
и поворачиваются
к тракторам
крестьян
заскорузлые сердца.
И планы,
что раньше
на станциях лбов
задерживал
нищенства тормоз,
сегодня
встают
из дня голубого,
железом
и камнем формясь.
И я,
как весну человечества,
рождённую
в трудах и в бою,
пою
моё отечество,
республику мою!

18

На девять
сюда
октябрей и маёв,
под красными
флагами
праздничных шествий,
носил
с миллионами
сердце моё,
уверен
и весел,
горд
и торжествен.
Сюда,
под траур
и плеск чернофлажий,
пока
убитого
кровь горяча,
бежал,
от тревоги,
на выстрелы вражьи,
молчать
и мрачнеть,
и кричать
и рычать.
Я
здесь
бывал
в барабанах стучащих
и в мёртвом
холоде
слёз и льдин,
а чаще ещё —
просто
один.
Солдаты башен
стражей стоят,
подняв
свои
островерхие шлемы,
и, злобу
в башках куполов
тая,
притворствуют
церкви,
монашьи шельмы.
Ночь —
и на головы нам
луна.
Она
идёт
оттуда откуда-то…
оттуда,
где
Совнарком и ЦИК,
Кремля
кусок
от ночи откутав,
переползает
через зубцы.
Вползает
на гладкий
валун,
на секунду
склоняет
голову,
и вновь
голова-лунь
уносится
с камня
голого.
Место лобное —
для голов
ужасно неудобное.
И лунным
пламенем
озарена мне
площадь
в сияньи,
в яви
в денной…
Стена —
и женщина со знаменем
склонилась
над теми,
кто лёг под стеной.
Облил
булыжники
лунный никель,
штыки
от луны
и твёрже
и злей,
и,
как нагромождённые книги, —
его
мавзолей.
Но в эту
дверь
никакая тоска
не втянет
меня,
черна и вязка́, —
души́
не смущу
мертвизной, —
он бьётся,
как бился
в сердцах
и висках,
живой
человечьей весной.
Но могилы
не пускают, —
и меня
останавливают имена.
Читаю угрюмо:
«товарищ Красин».
И вижу —
Париж
и из окон До́рио…
И Красин
едет,
сед и прекрасен,
сквозь радость рабочих,
шумящую морево.
Вот с этим
виделся,
чуть не за час.
Смеялся.
Снимался около…
И падает
Войков,
кровью сочась, —
и кровью
газета
намокла.
За ним
предо мной
на мгновенье короткое
такой,
с каким
портретами сжи́лись, —
в шинели измятой,
с острой бородкой,
прошел
человек,
железен и жилист.
Юноше,
обдумывающему
житьё,
решающему —
сделать бы жизнь с кого,
скажу
не задумываясь —
«Делай её
с товарища
Дзержинского».
Кто костьми,
кто пеплом
стенам под стопу
улеглись…
А то
и пепла нет.
От трудов,
от каторг
и от пуль,
и никто
почти —
от долгих лет.
И чудится мне,
что на красном погосте
товарищей
мучит
тревоги отрава.
По пеплам идёт,
сочится по кости,
выходит
на свет
по цветам
и по травам.
И травы
с цветами
шуршат в беспокойстве.
— Скажите —
вы здесь?
Скажите —
не сдали?
Идут ли вперёд?
Не стоят ли? —
Скажите.
Достроит
комунну
из света и стали
республики
вашей
сегодняшний житель? —
Тише, товарищи, спите…
Ваша
подросток-страна
с каждой
весной
ослепительней,
крепнет,
сильна и стройна.
И снова
шорох
в пепельной вазе,
лепечут
венки
языками лент:
— А в ихних
чёрных
Европах и Азиях
боязнь,
дремота и цепи? —
Нет!
В мире
насилья и денег,
тюрем
и петель витья —
ваши
великие тени
ходят,
будя
и ведя.
— А вас
не тянет
всевластная тина?
Чиновность
в мозгах
паутину не сви́ла?
Скажите —
цела?
Скажите —
едина?
Готова ли
к бою
партийная сила? —
Спите,
товарищи, тише…
Кто
ваш покой отберёт?
Встанем,
штыки ощетинивши,
с первым
приказом:
«Вперёд!»

19

Я
земной шар
чуть не весь
обошёл, —
И жизнь
хороша,
и жить
хорошо.
А в нашей буче,
боевой, кипучей, —
и того лучше.
Вьётся
улица-змея.
Дома
вдоль змеи.
Улица —
моя.
Дома —
мои.
Окна
разинув,
стоят магазины.
В окнах
продукты:
вина,
фрукты.
От мух
кисея.
Сыры
не засижены.
Лампы
сияют.
«Цены
снижены!»
Стала
оперяться
моя
кооперация.
Бьём
грошом.
Очень хорошо.
Грудью
у витринных
книжных груд.
Моя
фамилия
в поэтической рубрике.
Радуюсь я —
это
мой труд
вливается
в труд
моей республики.
Пыль
взбили
шиной губатой —
в моём
автомобиле
мои
депутаты.
В красное здание
На заседание.
Сидите,
не совейте,
в моём
Моссовете.
Розовые лица.
Рево́львер
жёлт.
Моя
милиция
меня
бережёт.
Жезлом
правит,
чтоб вправо
шёл.
Пойду
направо.
Очень хорошо.
Надо мною
небо.
Синий
шёлк!
Никогда
не было
так
хорошо.
Тучи-
кочки,
переплыли лётчики.
Это
лётчики мои.
Встал,
словно дерево, я.
Всыпят,
как пойдут в бои,
по число
по первое.
В газету
глаза:
молодцы — ве́нцы.
Буржуя́м
под зад
наддают
коленцем.
Суд
жгут.
Зер
гут.
Идёт
пожар
сквозь бумажный шорох.
Прокуроры
дрожат.
Как хорошо!
Пестрит
передовица
угроз паршой.
Что б им подавиться.
Грозят?
Хорошо.
Полки
идут,
у меня на виду.
Барабану
в бока
бьют
войска.
Нога
крепка,
голова
высока.
Пушки
ввозятся, —
идут
краснозвёздцы.
Приспособил
к маршу
такт ноги:
вра-
ги
ва-
ши
мо-
и
вра-
ги.
Лезут?
Хорошо.
Сотрём
в порошок.
Дымовой
дых
тяг.
Воздуха́ береги.
Пых-дых,
пых-
тят
мои фабрики.
Пыши,
машина,
шибче-ка,
вовек чтоб
не смолкла, —
побольше
ситчика
моим
комсомолкам.
Ветер
подул
в соседнем саду.
В ду-
хах
про-
шёл.
Как хо-
рошо!
За городом —
поле.
В полях —
деревеньки.
В деревнях —
крестьяне.
Бороды
веники.
Сидят
папаши.
Каждый
хитр.
Землю попашет,
попишет
стихи.
Что ни хутор,
от ранних утр,
работа люба́.
Сеют,
пекут,
мне
хлеба́.
Доют,
пашут,
ловят рыбицу.
Республика наша
строится,
дыбится.
Другим
странам
по́ сто.
История —
пастью гроба.
А моя
страна —
подросток, —
твори,
выдумывай,
пробуй!
Радость прёт.
Не для вас
уделить ли нам?!
Жизнь прекрасна
и
удивительна.
Лет до ста́
расти
нам
без старости.
Год от года
расти
нашей бодрости.
Славьте,
молот
и стих,
землю молодости.

1927

_______________ [editado em 12.12.2018]

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